Não é fácil conviver com a dúvida.
Se tenho dúvidas, sou obrigado a
escolher, a exercitar a minha liberdade, a me responsabilizar
pela
escolha feita e pelos meus atos, a admitir que "posso
estar errado".
A dúvida é a sombra da liberdade e tem por corolário
a angústia e a
responsabilidade moral.
Penso que a certeza, "a crença
na precisão absoluta da minha crença",
é o mais velho antídoto contra a ansiedade que
sempre acompanha o ato
da escolha. Pois, se não tenho dúvidas acerca
do caminho a trilhar,
não estou escolhendo, não estou a agir livremente,
mas tão-somente
obedecendo a um imperativo, que pode ser a palavra de Deus,
o Destino
ou mesmo a Razão. A certeza absoluta tranqüiliza
a consciência, nos
faz agir sem remorsos e sem ela os genocidas em nome de Deus
ou da
Razão não dormiriam em paz. É porque
temem a liberdade, é por não
quererem assumir responsabilidade moral que os homens costumam
se
deixar levar por certezas. Se um dia descobrem que o que motivou
a
sua ação era um erro, amaldiçoam Deus,
o Destino ou a Razão, lamentam
o fato de terem sido "enganados" (colocam-se sempre
numa situação
passiva) e tranqüilos permanecem com suas outras certezas.
Não, o cético não
é um frívolo diletante que tem por hobby questionar
tudo e que faz da filosofia uma disputa entre egos, um joguinho
de
salão. Ao contrário, há mesmo um propósito
moral no ceticismo
filosófico. Ao fazer da incerteza um dos princípios
do pensamento
humano, o que o filósofo cético também
pretende é destruir esse
escudo da covardia, essa negação da liberdade,
essa arma da
intolerância, esse fundamento de todas as tiranias,
isso que é a
categoria central de todos os sistemas filosóficos
fechados imunes a
discussão e ao questionamento e que apenas servem de
ideologia para
os inimigos da sociedade aberta: o mito da certeza absoluta.
Penso que nós, céticos,
tivemos sucesso em nossa empreitada. Sim, ao
menos no front filosófico, destruímos o encouraçado
do dogmatismo.
Deste só resta destroços e alguns náufragos
que, para não se
afogarem, fazem das tautologias -- como, por exemplo, "o
existente
existe" -- e do cogito cartesiano sua tábua de
salvação.
Claro, existem muitos não-céticos
que estão absolutamente certos
das "virtudes" da sociedade aberta. Estes costumam
criticar o cético
pelo fato de ele não saber com certeza se assassinar
uma criança
indefesa é moralmente justificável ou não"
ou porque "diz não saber
com certeza que uma ditadura sangüinolenta é defensável
ou não." Não
percebem eles que o que ameaça a sociedade aberta não
é a incerteza
quanto a verdade dos seus princípios, mas a certeza
compartilhada por
muitos, inclusive por supostos paladinos da democracia (Nixon,
Kissinger, Sharon, Bush, etc.) de que assassinar crianças
é muitas
vezes moralmente justificável; essa mesma certeza ou
convicção
inabalável tão característica dos que
se arvoram os guardiões da
Razão, do Pensamento Correto ou da Verdade e que, por
isso, não estão
muito dispostos a perder tempo com discussão, com a
busca do consenso
mediante o diálogo e outras "masturbações"
democráticas, motivo pelo
qual chegam mesmo a defender ditaduras sangüinolentas
sempre que lhes
convém. Como, por exemplo, o racionalista e "libertário"
Milton
Friedmann, que certa vez teceu elogios rasgados a Pinochet
e
justificou sua tirania.
É investindo contra o mito da
certeza "absoluta" ou reduzindo-a ao
ponto de jamais se transformar em instrumento de dominação
política
que se garante "quase certamente" a sociedade aberta.
Ao admitir que "posso estar errado
e você certo" não estou senão
aceitando que a) é razoável — ou seja,
é uma atitude racional — que
eu considere os seus argumentos; por conseguinte, b) não
é razoável —
isto é, não é uma atitude racionalmente
justificável — que eu venha a
eliminá-lo. A não ser, obviamente, que você
queira e tente me
eliminar antes. O caráter duvidoso tanto da minha quanto
da sua
crença é o que nos torna IGUAIS malgrado sejamos
DIFERENTES. A
incerteza é, também, a justificação
racional da minha e da sua
LIBERDADE de questionar. Ora, o reconhecimento do outro, a
igualdade
entre os interlocutores e a liberdade de questionar são
tanto os
princípios da razão quanto da democracia.
E nem é preciso ter certezas
absolutas para acreditar nesses
princípios, pois o que os assegura é nada mais
nada menos que o
princípio da incerteza.
Abraços,
Manuel Bulcão