::: AS MULATAS DE JESUS CRISTO :::
As Mulatas de Jesus Cristo
novidades e especiais

COM TEMPERO INDIANO

TELMO DOS SANTOS ABECH

Enquanto grassam por toda a parte, e em nauseante
profusão, as infindavelmente repetitivas, criativamente
nulas, enjoativamente insossas e insuportavelmente
certinhas produções cinematográficas hollywoodianas e
afins (começo/meio/fim, bem versus mal, sabe esse
esquema?), cada vez mais interessante, instigante e
prazeroso se torna o encontro que algumas poucas salas
ainda tornam possível com o cinema dos países integrantes
do que arrogante e pejorativamente se convencionou
batizar de Terceiro Mundo.
“Um Casamento à Indiana”, cujo título
original, “Casamento de Monção”, continha uma
significativa referência — que o tradutor, com a
sabedoria costumeira, decidiu amputar — à exuberância e
impetuosidade da estação das chuvas, é mais um brilhante
exemplo da diferença de postura e de resultados que
distingue uma arte digna de tal nome do reles e chinfrim,
mas não menos presunçoso, artesanato estadunidense que
diuturnamente nos bombardeia, uma eloqüente mostra do
abismo que separa quem, infantilmente crendo que
embalagem reluzente e lucro desmesurado suprem falta de
conteúdo e de qualidade, vive da eterna apologia aos
efeitos especiais que utiliza e aos milhões de dólares
que gasta e fatura e quem ainda acredita em que o ser
humano, com a emaranhada complexidade e contraditoriedade
de seus sentimentos, remanesce como insubstituível medida
de todas as coisas.
O filme em questão, produção indiana desde a
última sexta-feira em cartaz no Cine Guion 1, em Porto
Alegre, é um poema visual alegre, barulhento, brincalhão,
mas também é um olhar contemplativo, por vezes
melancólico e intimista, a retratar com aparente
descompromisso, mas com intensa e tenaz vitalidade,
flagrantes domésticos de uma família relativamente
abonada de Nova Delhi no curto período de tempo
transcorrido entre os preparativos e a celebração do
noivado e da cerimônia de casamento da filha do chefe do
clã.
O que poderia limitar-se a uma curiosa e
superficial incursão num universo pitoresco e exótico
para olhos ocidentais vai, pouco a pouco, transformando-
se em uma sutil provocação para que o espectador,
encantado e conduzido pela galeria de tipos e de
situações que com habilidade e maestria se lhe vão
gradualmente dando a conhecer, vá começando a refletir e
questionar.
A apaixonada declaração de amor que a diretora
Mira Nair faz a seu povo e a seu país é, antes de tudo,
uma declaração de amor por aquilo que o ser humano tem de
melhor, pelas tradições que são repositório de nossa
história como seres pensantes e morais e cuja preservação
reforça a convicção de que a vida neste conturbado
planeta ainda vale a pena; na colcha de retalhos que é o
universo humano do filme, semelhante ao caótico trânsito
da populosa Delhi ou às quase infinitas nuances melódicas
e rítmicas que se entrelaçam na inebriante música que
desde o começo toma de assalto a sensibilidade do
espectador, os símbolos de status e de sucesso
profissional que a modernidade e a globalização criaram,
como o pager e o celular, embora tenham lugar, não
impedem a delicadeza, o importar-se com o outro, o
acabrunhar-se até a depressão pela só suspeita de ter
causado uma ofensa à pessoa amada; a bem-administrada
assimilação do contemporâneo e dos recursos tecnológicos
sem perda da identidade cultural e da espiritualidade é
que propicia, enfim, um dos mais tocantes momentos do
filme, em que o mesmo rude empreiteiro que se vale dessas
engenhocas para ostentar a eficiência e importância que
seu trabalho parece exigir se prostra, humildemente, num
improvisado mas belo e mágico ritual, celebrado em meio a
altar de flores e de luzes, para, empunhando um buquê em
formato de coração, apenas e tão-somente implorar perdão
pela suposta mágoa ocasionada.
Flores, aliás, são referências que invadem a tela
por todos os lados e que aparecem do início ao fim do
filme como difusa mas impressionante e marcante presença,
e que estão também ali, a pretexto de servirem de
ornamentos da festa, como sugestão visual dessa
amorosidade transbordante, multifacetada e colorida,
imanente à natureza do povo indiano, nunca exteriorizada
por poses estudadas ou rasgos grandiloqüentes e de efeito
teatral para as câmeras, mas em suaves gestos, olhares,
palavras, em atos pequenos, discretos, sutis, mas, por
isso mesmo, de uma autenticidade e de uma verdade
contagiantes, dando a constante impressão de que os
atores estão a encenar fragmentos de sua própria
experiência existencial.
A situação mesma do casamento arranjado, que, de
início, parece um tanto chocante para nossa presunçosa
convicção de que o modo como regulamos esse tipo de
relação é superior e o único admissível, acaba revelando,
para quem tem a manha de ler nas entrelinhas, uma faceta
surpreendente: sinceridade, respeito e confiança, que boa
parte dos matrimônios ditos por amor esquece ou perde com
o tempo, são justamente ponto de partida para que o par
da história aborde e tente superar as contradições e
impasses que a condição de praticamente desconhecidos e
os rumos diferentes até então seguidos por suas vidas
lhes impõem, o que infunde a suspeita de que talvez haja
mais sabedoria do que pode à primeira vista parecer em um
sistema onde as relações econômicas conjugais são
previamente acertadas e em que as de estima, amizade e
consideração recíproca se vão paulatinamente construindo,
do que naquele em que dois seres se unem às vezes às
pressas, impelidos por uma paixão irracional que vão,
depois, gradativamente destruindo para, a final, quando
acaba a centelha, se verem a braços com ódio, desprezo,
desrespeito e, além de tudo, com aflitivas questões
patrimoniais
Ao mostrar o penoso, dolorido, atormentado, mas
por fim decidido e firme triunfo da dignidade, do apreço
à família e do respeito aos compromissos éticos sobre o
interesse e a necessidade econômica, triunfo que se
materializa pela atitude do patriarca de romper
publicamente, em pleno momento da celebração do
casamento, com o amigo rico cujos favores em muito lhe
fariam falta, mas que descobre ser indigno dessa amizade,
o filme constrói uma metáfora de si mesmo, mostrando que
seu recado tem a ver, sem maiores concessões, com a
essência, e não com a aparência, e que, por isso, não
importando o resultado comercial que atinja, o
compromisso assumido único é com a missão artística
superior de enlevar, produzir beleza e despertar
inquietação em torno da sempre fascinante experiência
humana.

TELMO DOS SANTOS ABECH, colaborador

28 de junho de 2002

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