AS MULATAS DE JESUS CRISTO - 9
 AS MULATAS DE JESUS CRISTO
 Publicação via e-mail semanal

As Mulatas de Jesus Cristo - 9 - Canoas 20/07/2001


***Sumário***

EDITORIAL - Fábio Luis Emerim
SAUDADES DA BURRICE - Arnaldo Jabor (ele nem sonha...)
CASULO 14, O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS- Fábio Luis Emerim
O MALDITO BUSTO DE MADAGASCAR - Fábio Luis Emerim
VERSOS SOLTOS - Fábio e seus alter egos
O NAVIO E NÓS - Telmo dos Santos Abech


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Editorial

Ivo Viu a Vulva e Achou Vuito Voa...

(Que legal, Yellow, tu viajou pro Rio e só fiquei sabendo quando me toquei em ligar pra tua casa perguntando sobre a coluna! )

Essa edição é dedicada à burrice!

Como é bom ser burro! Principalmente no Brasil. Recebi um texto do Arnaldo Jabor publicado na Folha de São Paulo na sexta passada, se não me engano, onde ele consegue explicar muito bem o culto à burrice e porque isso é tão importante na sociedade globalizada. Inclusive estou publicando esse texto aqui. Bem, eu queria publicá-lo aqui, mas não sei se seria legal, se eu pudesse, ao menos, entrar em contato com o Jabor. Hummm, boa idéia, e já sei quem pode me ajudar...

Enfim, enquanto isso não se resolve, deixa eu pincelar a idéia que me veio à cabeça depois de ler o texto dele.

O que você vê ao ligar a TV, digamos, num domingo? Bem, permita-me dizer que eu, sequer, ligo. Meu amigo Telmo que diz: “em terra de cego, que tem um olho perde”. E está correto! Eu não consigo ser feliz nesse país! E você também! Acabou o conteúdo, acabou a vontade de aprender. A música está se banalizando, o cinema já se banalizou, inspiração é artigo de museu. Museu é artigo de museu. E por que eu disse acima que é bom ser burro? Porque somente assim a gente consegue, digamos, se bastar, se identificar com o que nos cerca. O acesso às coisas interessantes está se afunilando, junto com os cérebros das crianças, o que é pior! Há pouco tempo soube que há um projeto de voltar a lecionar religião nas escolas públicas aqui do Brasil, uma coisa que abomino. Os presbiterianos de plantão sugerem a religião como única proposta que viabilize a ética dentro de uma cultura. Ora, que absurdo, todos sabemos que 99% das guerras que estão ocorrendo nesse exato momento mundo afora são religiosas! Hipocrisia! Ética? O Bush é muito ético, sendo um batista que vai pra cama sempre antes das dez da noite todos os dias, enquanto todos sabemos que seu hobby preferido é queimar bandidos na cadeira elétrica! Evangélicos, bonzinhos, pois sim, quero enviá-los para a Irlanda pra ver se gostam. “Porque Deus está contigo e Jesus é o teu caminho...”, diz isso lá no Afeganistão. Bobagens à parte, existe ética sem deus sim! Basta fazermos uma análise fria da sociedade onde a religião e o governo confundem-se e veremos que o paraíso está bem longe daquele que os religiosos defendem. A religião está, então, entre os fatores de banalização que estragam nosso meio.

Se você quer saber mais a respeito da ética sem religião e da separação da religião do estado, visite o site da Sociedade da Terra Redonda www.strbrasil.com.br, na minha opinião, o melhor site de divulgação do pensamento cético e racionalista que conheço, com fóruns de debates, artigos escritos por pessoas da área da ciência e que, como eu, querem um mundo longe da ilusão, do faz-de-conta, da alienação e da burrice imposta .

O que faria Mike Teevee se hoje fosse amarrado em frente ao Domingo Legal? Caráiu!!!! Sexta-feira o Yellow me ligou desesperado pra que eu ligasse na Band pra ver um programa daqueles onde as pessoas discutem coisas indiscutíveis ou que não tem como chegar a um denominador comum! Um programa apresentado por uma tal de Márcia não-sei-o-que. O lance é que um dos editores e divulgadores da Sociedade da Terra Redonda ,

Daniel Sottomaior, tava lá representando os céticos em uma discussão sobre as bruxas! Junto estavam um padre e um pastor, do outro lado as bruxas (sic) e um satanista fajuto atrás de um pano branco, que permitia somente ser visualizada a sua silhueta. O Daniel só olhava. Falou pouco, mas bem. Não dá pra perder tempo com o proselitismo; eu já enjoei! A gente acaba sendo um pouco “eclesiástico”, parecendo meio religioso ao tentar fazer com que que os teístas entendam ou, ao menos, tentem ver da maneira que vemos. Não dá! Em terra de cego, quem tem um olho perde...

Quer saber? Foda-se, vou publicar o texto do Arnaldo Jabor!

Fábio L. Emerim

Colaborações literárias? Mande a sua para mulatas@terra.com.br

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O Brasil está ficando com saudades da burrice - por Arnaldo Jabor

FHC cometeu a burrice de não ser burro. Acreditou demais na razão, achou

que a inteligência lhe abriria um caminho fácil, tanto aqui como no

coração do Primeiro Mundo. Lá fora, ele achou que a complexidade do

processo seria entendida e que os donos do Poder Ocidental seriam

razoáveis com sua terceira via tropical. Na prática, FHC aprendeu que a

globalização é de mão-única, que os estrangeiros lhe dão títulos honoris

causa, mas mantêm suas implacáveis regras comerciais.

Aqui dentro, ele não esperava a bruta resistência da estupidez e da

corrupção a seu projeto iluminista. Conseguiram virar sua “complexidade”

em ininteligível “complicação”. E a era FHC pode passar à História como

o governo que “desmoralizou a inteligência”.

Dentro de um mundo que glorifica o fragmentário, o parcial, só as

grandes corporações têm o direito à lógica linear dos seus interesses;

no mundo da “democracia”, só elas podem ser autoritárias. Aqui e lá

fora, a sociedade está faminta de simplismo. Surge na política a

restauração alegre da burrice, com a sombra da “direita” por trás.

Forrest Gump, o herói-babaca, foi o precursor; Bush é seu efeito. Ele se

orgulha de sua burrice. Outro dia, em Yale, disse: “Eu sou a prova de

que os maus estudantes podem ser presidente dos EUA”. É a vitoria da

testa curta, o triunfo das toupeiras. Aqui, vemos também esse cansaço,

depois das trapalhadas (e da urucubaca) deste governo, aqui vemos uma

grande fome de simplismo “de resultados” (leia-se autoritarismo) de

“dois e dois são quatro”, de “o vovô viu a uva”. Inteligência é chato;

traz angústia, com seus labirintos. Inteligência nos desampara; burrice

consola, explica.

Os tucanos foram bichos hesitantes, cheios de “se” e de “talvez”. Os

candidatos no horizonte vão trazer a mensagem tranqüilizadora do

pão-pão-queijo-queijo, desde o populismo de direita ao populismo de

esquerda, do obreirismo iluminado ao voluntarismo de classe média, todos

buscando bandeiras fáceis de engolir. Temos infinita saudade da burrice.

SÓ OS POBRES VERÃO DEUS

Existe na base do populismo brasileiro uma crença, de raiz lusitana,

contra-reformista, de que o simplismo é a moradia da verdade.

Em nossa cultura, achamos que há algo de sagrado na ignorância dos

pobres, uma sabedoria que pode desmascarar a mentira “inteligente” do

mundo. “Só os pobres de espírito verão Deus”, reza nossa tradição. A

cultura lusitana estimulou a derrota social. Cada fracasso da sociedade

fortalecia o Rei, tranqüilizava a Igreja e mantinha em pé a coluna

hierárquica que ia dos servos até Deus-Pai, logo acima da Coroa. O bom

asno é bem-vindo, enquanto o pernóstico inteligente é olhado de

esguelha. A burrice é “sim” ou “não”. Na burrice, não há dúvidas. A

burrice organiza o mundo: princípio, meio e fim. A burrice não tem

fraturas. A burrice alivia — o erro é sempre do outro. A burrice dá mais

ibope, é mais fácil de entender. A burrice até dá mais dinheiro; é mais

“comercial”.

Neste Brasil “apagado”, pré-eleitoral, pinta uma fome de regressismo, de

voltar para a “taba”, para o casebre com farinha, paçoca e violinha.

Da simplicidade viria a solidariedade, a paz, num doce rebanho

ideológico que deteria a marcha das coisas do mundo, do mercado voraz,

das pestes, da violência do poder. É a utopia de cabeça para baixo, o

culto populista da marcha a ré.

Outro dia, vi na TV um daqueles “bispos” de Jesus de terno-e-gravata

clamando para uma multidão de fiéis: “Não tenham pensamentos livres; o

Diabo é que os inventa!”. Fiquei chocado, mas entendi que a liberdade é

uma tortura para esses homens desamparados pela falta de cultura.

Claro que o povo não é burro; tem sensibilidade para perceber o erro de

um governo que, em nome da “razão”, ignorou a comunicação com ele. Sente

um enorme vazio com a democracia, difícil de entender com suas

ambivalências. O perigo é que os espertos vão manipular a ignorância da

população para transformá-la em burrice. A burrice é a ignorância ativa,

a militância dos desamparados sem informações. A burrice é a ignorância

com fome de sentido.

A DEMOCRACIA É CHATA

Populismos de vários matizes rondam as eleições de 2002.

Itamar quer ser a cara do povo “traído”, do povo “vítima”. Como já

escrevi, Itamar passa, em caricatura, o mesmo clima de Hitler, que dava

a sensação de que sofrera alguma injustiça, ele e a Alemanha, ambos

clamando por vingança. Itamar também. Com seu beicinho choroso e seu

topete ao vento, ele nos faz sentir culpados, insinuando que estamos em

dívida com ele. Ele é o símbolo do bom otário, do mineiro que comprou o

bonde, do Jeca que caiu no conto-do-vigário e foi humilhado pelos

intelectuais. Ele se diz “traído” por Collor, por FHC, por Lilian Ramos,

em sua ingenuidade de bonzinho. Itamar é “de época”; ele é o “defensor”

de nossas velhas convicções erradas, de nossa incompetência quase doce.

Itamar é a classe média com saudades do passado medíocre.

Ciro Gomes é inteligente, é bonito, com mulher bonita. Ciro deve abordar

a massa pelo seu lado “macho”, tudo que FHC não deu (pelo que, acusam-no

de Collor 2). Ciro faz um discurso moderno, mas ainda está dividido

entre si mesmo e seu guru, o Mangabeira, um “professor Pardal” com

sotaque, que faz ardentes conclamações a uma “mobilização” da classe

média, onde se sente o sabor de um voluntarismo vagamente totalitário.

Ciro ainda está dividido entre uma agenda moderna e uma prática

messiânica.

Lula tenta se modernizar, mas tem o rabo preso com a choldra burra do

PT, que não consegue se livrar da idéia de “revolução” clássica, como um

tumor inoperável. Ainda acham que vão “tomar” o poder, não ser

“eleitos”. A classe média ainda teme os petistas. Só lhes resta virar

PSDB hard ou adotar um populismo à esquerda de Itamar.

O extraordinário Garotinho, nosso Tony Blair evangélico, quer ser um

juscelininho dos idiotas, um sub-brizolinha pentecostal, um “Quércia

honesto”, todos os populismos avalizados por Jesus. Seu apelido passa

uma aura de menino maluquinho realizador, mas sua bochecha nos lembra

mesmo é a moleza dos bombons “Garoto”. Não tem a menor chance, mas é uma

caricatura didática do perigo que nos ronda.

A verdade é que a democracia está decepcionando as massas. A liberdade é

chata, dá angústia. A burrice tem a “vantagem” de simplificar o mundo. O

diabo que burrice no poder chama-se fascismo.

Arnaldo Jabor

(nota do editor: “sub-brizolinha pentecostal” é foda, hehehehehehe)

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Casulo 14 – O Portal das Averiguações Noturnas

Repasso como recebi:

“Ao terminar a matéria sobre o assunto deste e-mail, você coloca a frase, "Esses caras são estranhos... ". Mas isso não é difícil de explicar. Antigamente existia uma prática muito comum nas religiões do Oriente. Quando os líderes destas religiões queriam se livrar de alguém que estivesse importunando, eles recrutavam pessoas, e as colocavam em paraísos, com mordomias, e claro, muitas mulheres, tudo regado a grandes quantidades de intorpecentes, drogas mesmo. Então eles convenciam essas pessoas a matar alguém, claro ela estando dopada, e explicavam que, como aquela pessoa que iriam matar era muito importante, provavelmente o assassino também seria morto, mas ele acordaria num paraíso igual a aquele em que ele se encontrava, então o sujeito acreditava, e fazia a tarefa.

O que ocorre hoje, com o islã é a mesma coisa, o mesmo procedimento, a pessoa se suicida em nome de um deus, mas almejando aquele paraíso que lhe foi apresentado.

Abraço, Adrimar”

Valeu a dica!

Agora, vai gostar assim de baranga como os políticos americanos, hein? Puta merda! Não bastasse o Clintoris ter quase posto a Casa Branca à deriva por causa de uma gorda chupadora, tem um senador demente lá que é suspeito de ter dado um, digamos, sumiço, em uma guria que não faria sucesso em festa classe “c” em Cachoeirinha!

.......................

Cara, já pensou o Antony Garotinho como presidente do Brasil? Táááá loooooouco!!!!!! Eu fujo, na boa! O demente é crente! Já pensou o cara instituindo leis civis inspiradas nas leis bíblica-cristãs? Neeeeeeeem...prefiro a morte. E olha que a bancada dos “Bishops” universais está crescendo e crescendo! CUIDAI!

****** i n t e r r u p ç ã o******

Textos que separei para conquistar uma menina...

Por Fabriccio Giminianni

Bela bunda

Belas tetas

Bela face

Bela buceta

Boa forma

Pelos duros

Curvas de batom

Esquinas vazias

Escroto molhado

Biquini

Biquini? :o/

Rápido envolva-me

Escreva-me

Prostitue-se

Balouce-se

Fornique-se

Menstrue-se

E chupe meu pau, puta!

(nota do editor: não quero uma linha a respeito desse texto acima...)

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O MALDITO BUSTO DE MADAGASCAR

Escreveu assim em seu diário:

“Hoje tomei café a tarde inteira. Depois esperei por Deirdre até ver o sol nascer. Nada mais fazia sentido sem aquela droga de busto. Por que fui me aproximar? Por quê? Agora só me res...”

O diário estava ao lado do corpo. A pancada na cabeça foi certeira e competente. Matou na hora. Há poucos metros estava um cacetete com sangue e cabelo de Marco. Em frente à cena do crime, Deirdre procurava, entre choros e soluçando, todos os papéis que provavam a culpa de Alceu. Pensou em ligar pra polícia. Mas desistiu, com o telefone na mão. Olhou para o relógio e resolveu chamar Walter.

Walter, mais conhecido como “Faxineiro”, chegara em 40 minutos e em menos tempo que isso deixava o local “limpo”. Sem corpo e sem sangue. Deirdre pedira a arma do crime, pois queria começar a investigar o que tinha acontecido. Começa aqui:

A INCRÍVEL JORNADA DE DEIRDRE

Sem temer o que acontecia, e sem deixar de levar o seu oboé, Deirdre deixou a cidade às duas da manhã do seguinte dia. Preocupada, porém decidida, a nossa heroína resolveu pegar o trem. Na cabine pensava na viagem de cinco dias que a esperava. E lá ia Deirdre, para a...

CIDADE DOS OSSOS DESENTERRADOS

Onde tudo cheirava à carne velha. Onde as pessoas eram conhecidas na rua não pelo nome, mas pelas roupas. Onde as meninas eram desvirtuadas pelas professoras. Onde os cães fugiam dos gatos. Onde os oboés eram vendidos nas esquinas. Onde o homem que comandava a polícia era...

JEFFREY DREAVER

O marido da primeira miss da cidade. Eventualmente viajava para o litoral e pescava durante 4 dias. Seus companheiros de pesca sabiam mais a respeito de sua vida do que ele próprio imaginava. Mas ninguém dizia nada. Nem eu...

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Versos Soltos...

Fui à Lua...

...voltei / tornei a subir / cai / tornei a respirar / olhei pro lado / cocei a cabeça / boa pergunta...

Esfera Líquida...

....que me satisfaz / traz-me o sorriso voraz / alucina a mente / aumenta a cãimbra cerebral / alucinação geral / embora o escravo queira mentir / sei quem quis fugir / a mentalidade porca em que me incluo / me exclui de toda imundície

Boitatá...

Cadê o menino que chora e chora / onde está a pureza de um olhar fermentado / cadê o ex-moço da casa ao lado / e onde estão, por favor, os pontos de interrogação roubados...

Vitória Antes que eu Perca...

...vítima de mim mesmo / eu / sossego de tua alma / verão / inverno / inferno / mesmo acreditando em espécimes raras de beleza / integro a realidade em mim agora posta / esfrego a medalha com cheiro de bosta / e morro deitado em cima da tua mesa...

Cabeças Que Pulam...

...pulam sobre a mesma criatura / embolada sobre a idéia da pintura / emoldurada pela criança madura / repartidas pela sociedade em clausura / desclassificado pela ditadura / e executado pela tua grossura...

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O Navio e Nós

Por Telmo dos Santos Abech

O episódio da caravela, réplica de uma das embarcações do descobrimento, que, apesar de construída com todo o requinte tecnológico de que dispomos hoje, e ao preço de quase quatro milhões de reais, dos quais metade eram recursos públicos, sequer conseguiu, por problemas técnicos irresolvidos a tempo, ser lançada ao mar, merece uma leitura um pouco mais aprofundada do que a ensejada pelo óbvio ridículo da situação.

O navio, que percorreria, por sinal, trajeto insignificante, sobretudo se comparado ao dos barcos originais, pois só se deslocaria de Salvador a Porto Seguro, tinha a distingui-lo de seus antecessores algo essencial, muito mais essencial do que a diferença de mais de meio século de concepção e do que a assombrosa diversidade de recursos financeiros e científicos de que, respectivamente, uns e outro foram dotados: enquanto aqueles iriam, de fato, singrar os mares, desafiando o desconhecido, este era puro diletantismo, mera peça decorativa de uma festividade ufanista, de duvidoso e questionabilíssimo conteúdo, aliás. Enquanto aqueles, usando toda a limitada ciência e arte da époc

a, tinham, na resistência à natureza para conduzir seus tripulantes ao outro lado do mundo e a seus transcendentes objetivos, o supremo desafio, este era um brinquedo sem maior sentido que o de exibir, por meio de megaefeitos especiais, o avanço tecnológico de nossa época; e é por isso mesmo, por essa substancial diferença de objetivos que este fracassou, e aqueles tiveram êxito.

O fato é emblemático da relação equivocada do ser humano com o progresso material e tecnológico, sem dúvida, responsável pela difusão da também equivocada teoria (e prática) de que o progresso desumaniza; parece que, até hoje, quando o espanto frente à modernidade já deveria ter cedido lugar a uma compreensão mais madura, as pessoas continuam a reverentemente encarar a tecnologia como algo distante, pouco compreensível e pouco acessível a sua capacidade manipuladora.

Isso permite que se venda às pessoas uma parafernália de objetos que elas mecanicamente adquirem como símbolos de riqueza e de estar em dia com a modernidade, mas que, de regra, são incapazes de usar humanizadamente, isto é, de forma a, por meio deles, alcançarem mais tempo para o lazer, para as relações com os outros, para seu enriquecimento e crescimento pessoal.

Nosso modelo de ensino continua, estupidamente, em plena era da Internet, centrado na informação, formando professores para transmitir e exigir uma flagrantemente inútil memorização de dados, descurando de que o elemento essencial do saber, o único, em suma, que valeria cultivar e desenvolver, é a capacidade de administrar, segundo princípios e propósitos éticos, o agora facilmente disponibilizado conhecimento objetivo, e de assim mudar o mundo exterior.

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"Você nunca verá uma melancia de farda."


*****As Mulatas de Jesus Cristo - número 9 - 20/07/01 *****

-Staff:

-Fábio Luis Emerim
-Roberto Yellow Moschen Jr. Remoto


Colaboradores dessa edição:

-Telmo dos Santos Abech


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