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As Mulatas de Jesus Cristo - 8 - Canoas 13/07/2001
***Sumário***
EDITORIAL - Fábio Luis Emerim
CASULO 14- Fábio Luis Emerim
VERSOS SOLTOS - Fábio e seus Alter Egos..
A PEDRA SABE - Fábio Luis Emerim
DE SUPETÃO - Roberto Yellow Moschen Jr
EPÍLOGO - Roberto Yellow Moschen Jr
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Editorial
We are the music makers...and we are the dreamers of the dreams...
(Willy Wonka)
Rapsódia ao amanhecer....
Ó, já vou avisando que essa edição tá menor que as outras! To meio cheio de coisa pra fazer, final de semestre, então tenho algumas avaliações pra fazer. É muita gente. É muito pouco tempo...relógio tic tac....papéis crescendo, crescendo, ponteiro correndo, correndo....clock...papers...clock...papers...será que me curo até o fim do ano?
Quero ver a RBS falar bem da Bahia de novo!
Nunca vi programinha mais intragável que o Jornal do Almoço!
Poderia mudar para Jornal do Almoço de Cadeia, ou Jornal do Almoço de Hospital, ou seja, não tem outra opção: ou você come, ou você come. Ta passando sobre a chacina que teve nesse fim de semana. 5 pessoas da mesma família foram mortas numa fazenda em Soledade, e o cara que assumiu a participação dos crimes disse que receberiam 5 mil reais cada um por serviço. Eu sei, posso estar soando meio Datena demais, mas peraí, então a gente vive nossa vida, aprendendo, crescendo pra vir um carinha e te avaliar em cinco mil reais? Puta que pariu, hein? Eu to começando a ficar com medo de sair na rua! Vou dar uma de André Abujamra e dizer que ...to cansado da cidade, eu quero ir pro mato / tem de tudo lá, porco galinha pato / tem carroça, tem cachorro tem carro de boi.... Acho que vou subir no Wonkatania e navegar num rio de chocolate, achar meus Oompa-Loompas e chupar meu Gobstopper permanente...
Falando nisso, eu tive essa noite meu milésimo sonho em que eu estava na fantástica fábrica de chocolates! Que ânsia! Claro que tinha todas aquelas viagens de sonho, onde nada tem métrica nem simetria, mas eu me lembro de ter andado no Wonkaelevador e tudo que tinha direito. Eu sou fã desse filme, e parece que, por mais que eu envelheça, vou ficando mais fã. Há pouco tempo comprei-o em dvd. Inclusive comprei por estar barato, pois dvd tá caro pra cacete! Esses dias vi o The Wall do Pink Floyd por 95 paus! Uma semana depois, na mesma loja, o mesmo título tinha baixado para 48 pila! Pensei: o cara que comprou esse filme a semana passada deve ter enfiado os dedos no cu. Certamente.
Ah, o Yellow tá com o modem queimado. Não o dele, o do computador dele. Então, fatalmente, este Mulatas não terá a coluna De Supetão e nem a Dias de Estanho. Espero que na semana que vem ele esteja com um modem novo.
- Acabei de saber que poderemos contar com as colunas acima citadas. Que foi? Tava sem saco de apagar!
Nunca vi tanta imbecilidade junta como no Programa Livre, da Babi! Sempre tem um imbecilóide falando de tarot, ou anjos, ou numerologia, ou horóscopo! E o processo de cozimento cerebral do povo continua...
Outra coisa! To afim de organizar uma festa pra galera que assina o Mulatas. O local ainda vai ser definido. O nome já tem: é. A entrada é cinco pila ou um oboé.
...if you want to view paradise, simply look around and view it...
...será que tem bolacha recheada em casa?
Fábio L. Emerim
Colaborações literárias? Mande a sua para mulatas@terra.com.br
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Casulo 14 O Portal das Averiguações Noturnas
Tava vendo uma notícia sobre um guerrilheiro palestino que explodiu o próprio carro num posto de gasolina israelense. Que coisa, não? Apareceu também um vídeo que ele gravou, segundo o repórter da Globo, antes de se matar (sic). O cara tava cercado por granadas e segurava o Alcorão. Atrás tinha um cartaz em verde escrito, em árabe: Em nome de Alá, o Clemente e Misericordioso, frase que , inclusive, abre o alcorão. Esses caras são estranhos...
**********Beco do Retalho***********
Medley de Contos, ou Textos Que Não Têm Nada a Ver
Por quê todas as moças fazem aaaaahhhhhhhhhhhhh quando vêem Dennis Dryscotsch...
Gostaria de saber, mas a minha vizinha lá do 215 tem uma teoria: pés grandes. E olha que eu, Amaro, no alto de meus 45 anos, nunca tinha me flagrado que isso poderia ser levado a sério. Mas como um cara tão sem graça como o Dryscotsch poderia ter essa fama toda de comedor sem um motivo? Tem que ter um motivo, caramba! Aquele narigão furado dele é foda! Se eu fosse mulher ele seria o último homem com quem teria qualquer afair!
Que merda! E eu aqui nesse quarto pequeno com a janela semi-aberta de frente à Ipiranga olhando a saída da PUC. Tava no computador escrevendo um conto de ficção científica! Pelo menos tentando...
Da sua nave-cebola, o terrível homem-escova preocupava-se com a estratégia de guerra adotada pela infantaria para o ataque definitrivo ao planeta Mull (conhecido na Terra como Vênus). Faltava meia hora terráquea para o ataque. Mas o terrível homem-escova batia no luminoso painel em sua frente, com raiva, muita raiva. Não acreditava não ter sido chamado para a reunião das Confederações Universais no dia anterior, Aliás, soubera há poucos minutos por intermédio do aliado do planeta Frehz, o homem-maionese, sobre essa reunião.
O grupo das Confederações Universais era composto pelos 87 planetas com oxigênio da primeira camada da galáxia de Phoher. O atual líder, presidindo as Confederações há 456 anos terráqueos, (34 anos Gerhervers, planeta do homem-escova), era o abominável homem-grampeador, sanguinário revolucionário e conquistador de 60 mundos.
É só o começo, mas já deu pra perceber que tá uma bosta, né?
PS.: Obrigado, Leotilde
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Foi numa tarde de terça-feira que ele resolveu se libertar. Chegou em casa, era umas seis e meia:
- Mulher! Arruma as malas e chama o guri que nós vamos viajar!
- Viajar????, perguntou Antônia, enxugando as mãos com o pano de louça.
- É! Mandei a firma pro inferno!, disse Pedro sentando na poltrona e jogando a pasta o mais longe possível.
Pedro era um empregado exemplar. 23 anos no mesmo emprego, na mesma posição, com o mesmo salário e nunca, nunca, nunca faltou serviço. Era chamado pelos amigos de Pedrinho Caxias, pelo óbvio motivo. Primeiro a chegar, último a sair. Tirava uma semana de férias, ia pra praia com a família e vendia o resto.
Daí compreende-se a confusão na cabeça de Antônia.
- Mas amor! O que aconteceu?
- Não aconteceu nada, apenas tive uma súbita compreensão. Arruma as trochas!
....................
"Em menos de vinte minutos chegava o cortejo na velha mansão do alto do morro, onde a família passava os finais de semana de verão. Os convidados e os familiares estacionavam os seus carros e dirigiam-se ao jardim. Lá estavam os empregados e o aflito mordomo Charlie, que demonstrava sua inquietação esfregando as mãos e fazendo sinais para a cozinha apressar com os serviços...
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Dizem...
...que em determinada região perto do vulcão Popocatepetl, no México, havia uma aldeia de Aztecas onde uma menina fez a comunidade ajoelhar-se ante um feito que todos duvidavam.
Começou quando o pai da dita moça, o artesão Tzeucl Palcantli Cutli, endividara-se ao prometer ao sacerdote um calendário em pedra. Queria o todo-poderoso da cidade aquele trabalho em cinco dias, o que era impossível. Mas o artesão aceitou.
Aí que começou o desespero de Cutli, pois somente ao deitar-se no meio da noite que seu coração começou a palpitar. Como fazer?, Como fazer?, pensava alto, suando e acordando Clatl, sua esposa.
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...devido ao enorme sucesso, aí vem...
Versos Soltos
Controle Mental...
...limpe suas idéias / em um balde anti-matéria / em uma lua distante / em um deserto obscuro / montado em um camelo / comendo marshmelow / saboreando / espichando e encolhendo / esfrega...esfrega...
Obsoleto...
...meu mistério é sua catarse / a vida que me pedia / a luz que iluminava / nunca mais refletia / impõe perigo / em mãos enrugadas / ao afago de um inimigo / me sinto ímpar...
Rusga...
...olhos e ouvidos / narizes e bocas / palavras / insultos / sangue derramado / suor doce / saliva revoltada / pele solta sob as unhas / choro / dor / perdão?
Alicerce Sobrenatural...
...pede para retornar / volta / vai / envia meu sincero apoio / molho shoio / indica a verdadeira premissa / identidade postiça / escancara o verdadeiro eu / não doeu / embora não embora fui / vou assim mesmo para amanhã não retornar / alicerçando minha aberração / em telhas de fosfato líquido...
O Castiçal...
...ó velho moinho empoeirado do interior do estado / estado de espírito de quem está encurralado / teias caídas no chão da cabeça / fomigas esquecidas sobre a mesa / aranhas mortas / secas / velas velhas / lástimas / êxodo ambiental / a idéia de uma anti-existência / iluminada pelo velho castiçal...
Borboletas e Baralhos...
...encare seu mais temido pierrot / não tenha medo da miséria humana / enoja toda e qualquer influência / a mística da verdadeira essência / de um isolamento tardil / em compotas de frutas secas / em bibliotecas de viroses nojentas...
A Cobiça Começa Mediana...
...mas Jussara é feliz / seus lábios são malvados / cabelos mal-lavados / ombros sextavados / sorrisos alucinados / trejeitos elogiados / lençóis duros...
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A PEDRA SABE
sua agenda cultural
(Nota do editor: Tá curtinha e tem pouca informação porque é a primeira, então, caros artistas de todas as facções desse meu lindo sul do Brasil, mandem seus releases e informações sobre mostras, shows e quaisquer eventos menos exorcismo e batismos que estaremos divulgando no Mulatas!)
MÚSICA
* Dia 17/7 às 19h no palco principal da São Leopoldo Fest tem show de Digue e banda, trazendo o melhor da black music brasileira. Logo depois haverá um show dos Formigos e Banda.
* O novo site do Digue já está online.... visitem, o endereço
é http://www.digue.hpg.com.br. é importante que visitem (mais
visitas, mais patrocinadores)
* Mais shows do Digue:
13/7 - digue. e neno gaiardo acústico - Espaço Miró - POA
- 22h
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EXPOSIÇÕES
-Na Galeria de Arte & Fato, que fica na São Manoel, 285, tá acontecendo o ACERVO DO ATELIER HARMONIA. Acontece de segunda a sexta das 14h às 18h; sábados das 10h às 13h. E exposição é até esse sábado, dia 14.
-Até o dia 28 de Julho tá rolando uma exposição
de pintura na Gravura Galeria de Arte. Segundas a sextas das 9h30 às
18h30 e sábados das 9h30 até as 13h30. A Galeria é na rua
Corte Real, 647.
- A exposição fotográfica NITRATOS, está no Café Concerto Majestic, na CCMQ, na Andradas, 736. De terças a domingos, das 9h às 24h. A exposição é até o dia 25 de julho.
Dica daqui:
Olha só, tava lendo no E aí? que vai ser relançado em dvd dia 9 de outubro toda a trilogia de O Poderoso Chefão. O lance é que será 12 horas de filme em 5 discos. Eu já vou reservar o meu! A amazon.com tá fazendo a pré venda por US$74,95. Não achei tãããão caro...mas podeira ser mais barato...
CDs ducagálho
Não é lançamento, mas tem muita gente que deveria ouvir. O Weezer lançou o cd do mesmo nome em 94, e é ainda meu number one aqui em casa. O Bidê ou Balde fez uma versão de Buddy Holly, que tem nesse disco, e devo dizer que, apesar de ser apenas a mesma música só que cantada em português, vale a pena porque é Weezer. Aliás, eu diria que Weezer foi o que ficou de realmente bom dos 90, já que a maioria se vendeu, ou morreu, ou virou evangélico!
Uma banda que infelizmente acabou há pouquinho tempo e que, mesmo com um curto tempo de vida, matou a pau é o Ben Folds Five. Americanos, embora soando ingleses, tanto na musicalidade como na criatividade/habilidade, o trio formado por Ben Folds no piano e na voz, Robert Sledge no baixo e backing e Darren Jessee na batera e backing lançou quatro CDs na década de 90 e pouquíssima gente tem ciência disso. Um dos CDs que eu sugiro para conhecer a banda é o seu penúltimo, com algumas sessões ao vivo e músicas até então inéditas: Naked Baby Photos. A capa é, para mim, uma das mais feias do mundo rock, mas é legal ao mesmo tempo! Ahhh, mandem importar, não acho que tenham lançado no Brasil, apesar de que, sei lá, vai saber...
Hoje, 13 de julho,dia do rock, é aniversário de Jim McGuin, do Byrds. Fazendo 59 anos. Em 68, curiosamente, mudou seu nome para Roger, após se converter a uma religião. Viu? Não foi só o Rodolfo, que mudou para Sara......(essa foi foda)
Também há 28 anos atrás Queen lançava seu álbum de estréia, o Queen.
Feliz Dia do Rock!!!!!!!!!
E viva as colunas curtíssimas!
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DE SUPETÃO por Roberto Yellow Moschen Jr.
Quero fazer observar que minha coluna do número anterior do MJC estava incompleta. É, apesar de eu ter dito que finalmente a tinha escrito com alguma antecedência, faltava terminar ainda o Dias de Estanho (pois que é um "diário") e comentar o show da Blight, a banda do nosso amável editor, que finalmente veio a acontecer na terça-feira seguinte à tragédia do domingo retrasado. Não deu, pronto.
Quanto ao show, estava muito bom, o som estava ótimo, e tocaram uma versão pesada de Jealous Guy do John Lennon que mereceria destaque em algumas rádios. Alternaram alguns covers com músicas próprias, o que acho muito conveniente vindo de uma banda ainda desconhecida. Banda que ninguém conhece que toca só música própria é um saco (sei que algumas pessoas vão dizer que isso é uma bobagem completa - eu digo que não).
Para os ateus e agnósticos:
http://atheism.about.com/religion/atheism/mbody.htm
É uma lista com mais de 700 links sobre o assunto, por categorias. Muito bem organizado, categorizado de forma clara e com um visual que pelo menos deixa o texto legível (coisa rara nestes sites).
Agora que já introduzi a naba, aí vai
UMA VIDA AMARGA, PERDIDA E CHAMUSCADA
Chamuscada de ódio, porque chamuscada é uma boa palavra, e nada melhor para chamuscar do que o ódio.
Serenamente sentada à beira de um lago feito espelho, uma margem impressionista em cores outonais, o ruído tímido do vento não querendo incomodar, cheiro úmido e fresco de folhas marrons cobrindo a terra escura e rica. A roupa clara e solta, tecidos leves, transparentes, acariciando a pele pelo vento tímido, mas um pouco ousado. Lábios finos, sem cor, crispados numa expressão fixa, a mão branca de nós finos e delicados, unhas bem feitas, pintadas num tom róseo muito claro, penetrando, aos poucos, com muita sensibilidade, o pequeno e frágil pescoço de um esquilo marrom-claro, de cauda longa e trêmula, enquanto sua vida se esvaía morna, misturando-se à terra agora um pouco mais rica.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨DIAS DE ESTANHO¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
6diasatrás - (sexta-feira) A Telecom veio arrumar a central da minha região e estragou a minha linha. Não pude pedir para consertarem, pois já era muito tarde. Que merda!
5diasatrás - Liguei pela manhã para a Telecom para virem arrumar minha linha. Disseram que o serviço levaria até 24 horas para ser completado. Vontade de matar um... e o que eu digo para meus clientes?
4diasatrás - (domingo) Ligo a uma da tarde para saber por que ainda não haviam arrumado, pois já haviam se passado 26 horas desde meu telefonema. A atendente responde que os técnicos estavam com muito serviço, mas que apressaria eles para terminarem logo. Volto a telefonar às seis e meia da tarde. Me dizem que o serviço duraria 24 horas *úteis*, e, portanto, só na manhã da segunda-feira teria minha linha de volta. Digo que não foi isso que me disseram nas outras duas vezes em que liguei. Ele vira um robô e começa a repetir frases descontextualizadas. Chamo o supervisor. Outro robô, e que ainda me chama de mentiroso. Por pouco não ponho fogo na porra do orelhão.
3diasatrás - Ligam meu telefone aí pelas 10 da manhã. Fico contente e começo a trabalhar.
2dias atrás - Um raio cai no meu bairro e queima minha placa de fax/modem. Enlouqueço.
1diaatrás - Já é noite quando consigo arrumar um computador que estava no armário. É antigo, mas pelo menos tem uma plaquinha de fax/modem e daria pro gasto. Faço meus trabalhos no meu computador e depois transfiro por disquete para o velho só para fazer o upload. Duas horas depois descubro que o drive do disquete parou de funcionar. Começo a virar kardecista.
Hoje - Consigo finalmente fazer uma engembração e usar o mesmo drive de disquete nos dois computadores. Em seguida, o cabo que liga o modem à linha telefônica quebra. Acho que sou adotado.
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Em solidariedade aos trechos de contos (que idéia estúpida!) que nosso editor publicou, envio um conto antigo, que escrevi já há alguns anos. Meio pedante, esquisito e assintomático, mas, whatever...
CASEBRE - POSTO AVANÇADO DE DOMINAÇÃO No. 1022
Valtinho, no seu passinho de sei-o-caminho, ia sozinho, na rua do "Seu" Inho, aquela do garotinho morto pelo vizinho, dando olhares-inhos aos casebrezinhos.
Viu o garoto de jeito maroto, não o garoto morto, outro, olhar como que astuto para si e atrás, e viu a foto e a loto que carregava e a moto que passava nas pegadas que deixava.
Já que andava, des-andou as pegadas até a foto e a loto (que não andavam, já que foto e loto não andam). A loto, deixou na lama, a foto, limpou a lama. Guardou-a, quase limpa, no bolso da camisa, para que secasse.
Estaqueando em frente a um casebre nada diferente, como um dente de um pente, Valtinho olhou se tinha gente e passou rente ao roseiral que o Intendente Prudente lhe deu de presente.
Abriu a porta (que só abria quem soubesse abrir ) e entrou na sala sem
janela para as misérias que não tinham, nenhuma delas, sala sem
janela como aquela e de cor cinza do cão ao teto como aquela e que a
porta sumia e ficava cinza como aquela e que tinha o Valtinho no meio derretendo
pelos pés como aquela que não tinha nenhum móvel nem tapete
nem chinelo nem porta nem cueca no chão nem toalha pendurada nem gato
se lambendo nem cheiro de pó, esgoto e pobre e café-com-leite
nem Valtinho derretido já até os ombros com o resto se espalhando
pelas paredes como aquela e que não tinha pedaço de jornal roído
pelos ratos num canto e barata e cocô de barata e cocô de rato e
rato como aquela e o Valtinho já todo espalhado pelas quatro paredes
e teto e chão menos os dois olhos que flutuavam no meio da sala e que
estavam se grudando e crescendo e virando um olhão grandão que
flutuava como aquela. Nenhuma delas tinha. Só tinham foto, que nem a
foto debaixo do Olhão do Valtinho que olhava para as paredes cinzas e
cor-de-Valtinho, agora que elas eram o Valtinho derretido também.
E então, o Olhão falou.
Não falou como se fala nas misérias, que nem o
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E então, o Olhão se comunicou.
E as luzinhas dançaram na frente dele.
E a foto dançou pela sala toda, e as luzinhas se acotovelavam na frente da foto, e o Olhão ficou tão satisfeito que se via a satisfação até nas veiazinhas que cobriam ele.
O Valtinho inteiro estava satisfeito, agora que a sala toda e o Olhão menos a foto eram Valtinho.
A foto era de um negrão, bem pretão, mauzão, cicatriz da bocarra até a orelha. Segurava uma placa com números. Era esse mesmo. É esse mesmo? - perguntaram as luzinhas. - É esse mesmo, assegurou o olhão do Valtinho. Ele era fortão, o negrão - E ele é forte? Ele impõe a sua vontade? Ele domina? Ele tem poder? Ele é aceito pelos outros? - Ele é forte, assegurou o olhão, virando dois olhos vermelhos como o do negrão Jocimar, o "risadinha", traficante dono do morro das misérias que não tinham um "risadinha" compondo-se no meio da sala e escorrendo pelas paredes cinzas como aquele casebre tinha.
Então o Negrão Jocimar saiu do casebre e fechou a porta que qualquer um conseguiria fechar e levou um tiro da polícia (não da corrupta-do-risadinha, mas da corrupta-de-qualquer-um) e morreu e não desmanchou nem entrou feito lâmina por sob a porta nem saiu luzinha, só sangue, nem virou o Valtinho ou parede ou olhão. Só morreu (é que ele morria com tiro, normal, que nem gente das misérias, porque agora ele era que nem aquilo tudo que tinha nas misérias e que não tinha na sala com exceção da foto que, aliás, ficou lá dentro). Recolheram o corpo - o Risadinha ia achar muita graça quando dissessem que ele tinha morrido, e depois não ia gostar, já que atiraram em alguém pensando que era ele - e nem olharam dentro do casebre.
Agora as luzinhas iam ter que mandar outro Valtinho. Coitadas.
CASSANDRA
O tráfego estava intenso aquela noite na Oswaldo. Os bares ao redor do cine Baltimore estavam lotados, e o cheiro de cerveja e uísque misturava-se com o dos escapamentos dos automóveis. Viciados e traficantes cruzavam-se, cochichavam e depois bebiam algo. Os que haviam chegado mais cedo agora se misturavam com os copos plásticos e papéis sebentos no chão.
Cassandra, ofegante, observava.
Enrolada em sua jaqueta de couro, com os cabelos louros soltos por cima, ela não pensava em nada, exceto na droga. Seus olhos vidrados vasculhavam, à procura de uma presa. Um rapaz negro, rastafári, atraiu sua atenção: ele acabara de transar uns papelotes, e, agora, recostava-se contra a parede de uma loja, ligeiramente afastado do resto. Sedenta, mas controlando-se, Cassandra começou a caminhar em direção a ele.
Faltando cinco metros pra alcançá-lo, ela parou no meio da calçada, fechou os olhos e concentrou-se - Ela era linda, atraente, exuberante, irresistível - os punks que habitavam o carro ao lado dela pararam de conversar e começaram a olhá-la, fascinados - majestosa - percebendo isso, olhou-os e fuzilou-os como olhar. Foi o suficiente para se afastarem, amedrontados Olhou novamente para o rasa - ele ainda não a havia notado: esse aí tá no papo.
Graciosamente foi até ele:
- Oi, cara - a voz era mansa, melódica. Eu não tenho dinheiro, mas eu adoraria que você me desse m pouco do seu pó.
O traficante engoliu em seco, olhos arregalados, enfiou a mão no bolso e tirou um punhado de papelotes - I-isso chega?
- Claro. Você é um amor.
Pegou os papelotes e foi para casa.. Amanhã viria de novo. Aquele era um bom ponto.
......................
Jeanice Martins Flores
Um sonho. Uma mágoa. Jeanice Martins Flores os tinha. Os queria. Os cultivava. Jeanice era uma mágoa reconfortada num sonho. Ou era um sonho que sofria umamágoa. Se sonho se magoa.Mas Jeanice era. Algo. Algos: sonho emágoa. Bem guardados. Todo mundo pensando que Jeanice era nada. E lá ia Jeanice, rindo baixinho, bracinhos cruzados, como que segurando aquilo que só ela sabia que ela era: sonho e mágoa. Como era bom ficar num cantinho a meio-sorriso, só sabendo... O sonho, uma água morna. Aquela boa de entrar encolhido de frio para se aquecer. A mágoa era um gelinho que escorria pela garganta e ficava lá no meio da barriga, sem derreter. Morno em volta, frio dentro.Isso era Jeanice. E todo mundo pensando que ela era nada. Mas ela era. Algo: Jeanice Martins Flores, sonho e mágoa.E se alguém sequer suspeitasse por que Jeanice ficava no cantinho de olhinho meio-fechado e sorrindo, e lhe perguntasse o que era aquilo, Jeanice responderia, com voz gulosa - Néca, néca, néca. É só meu. Ora, se ela ia entregar o tesouro. Era o sonho dela, custou para descobrir. Era a mágoa dela. Custou para conseguir. E agora vai dar de graça?Deixa! Deixa eles aí, caminhando para lá e para cá, sem guardar uma magoazinha das boas para alisar, sem um sonhozinho onde mergulhar, sem ser nada. Deixa. Espera até eles pararem num cantinho para ver o que eles fazem. Fazem nada. Não ficam nem dois minutos. Saem correndo para fazer outra coisa, procurar aquilo que eles não encontram no cantinho. Vão lá, falar com alguém, quebrar uma pedra, pegar um ônibus, escutar um rádio. Não suportam o cantinho, porque ali só tem eles. Só tem nada.Só Jeanice encontra algo no cantinho. Algos: sonho e mágoa.
Quer coisa melhor?
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EPÍLOGO
por Roberto Moschen Yellow Jr
Dia de Finados
O garoto aspirava a coriza que teimava em correr do seu nariz
e balançar no vento dos mortos. Aos puxões, andava ao lado de
sua mãe, sempre ao lado, sem saber exatamente onde ia. Passavam pelos
mais diversos formatos de bancos de concreto, todos encimados por placas com
nomes e fotos. O garoto tentava ler, mas passavam tão ligeiros por entre
os bancos. Sua mãe dizia que iriam ver seu pai. Mas se ele tinha ido
para tão longe, como iriam vê-lo ali, justo naquele lugar tão
estranho, só bancos, pessoas quietas, paradas, que nunca sentavam, só
olhavam os bancos, as fotos, os nomes...
A igreja estava lotada. Gina nunca antes vira uma igreja lotada, exceto no casamento
do seu primo Albertinho com aquela loira engraçada que usava umas botas
iguais às da Xuxa. Seus tios estavam rezando, um de cada lado seu. Sua
tia segurava uma foto de seus pais, aquela que ficava na sala. Por alguma razão,
Gina não gostava daquilo. Não parecia certo, parecia algo muito
grave, algo errado. Uma senhora muito gorda de vestido escuro com flores azuis
chorava na fileira de bancos da frente, perto do corredor. Tinha um retrato
também. Seus tios não choravam. Uma outra menininha, como ela,
conservava a cabeça baixa mas lançava olhares furtivos para os
lados. Estava a poucos metros à esquerda de Gina, que tentava lhe chamar
a atenção com "psius" mudos. A menina olhou e Gina acenou.
A menina olhou novamente. Mas baixou a cabeça.
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"Línguas aflitas, dentes limpos." (Polka, O Aracnídeo)
*****As Mulatas de Jesus Cristo - número 8 - 13/07/01 *****
-Staff:
-Fábio Luis Emerim
-Roberto Yellow Moschen Jr.
Colaboradores dessa edição:
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