As Mulatas de Jesus Cristo
nº 68 - Canoas - 18/10/2002
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SUMÁRIO
EDITORIAL Fábio Luis Emerim
CASULO 14 -
O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS
Fábio Luis Emerim
EVIL AS HELL Bruna
Maia
FANFARRAS
ABISSAIS Fábio Luis Emerim
REALIDADE
PLEONÁSTICA Telmo
dos Santos Abech & Fábio Luis Emerim
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EDITORIAL
Fábio Luis Emerim
Pré-show
Foda-se o estrago que as Havaianas
fizeram no meu pé; eu vou pro show do Red Hot assim mesmo! Foda-se
se o tempo aqui no sul é uma porra que chove 360 dias por ano;
eu vou pro show do Red Hot de qualquer forma!
Paguei 60 paus - porque comprei
antecipado - pelo ingresso e vou conferir os malucos californianos
quarentões que quando sobem no palco parecem adolescentes punheteiros
e espinhentos. Mas é óbvio; o rock é adolescente...e punheteiro!
Nada mais transgressor, ruidoso, ousado, pelado e sacana que o
rock'n'roll! Quando o Elvis, nos anos ciquenta, era proibido de
rebolar em apresentações no sul dos EUA, começou-se a dividir
as águas do puritanismo besta e do saco cheio. Saco cheio por
parte da juventude, que era proibida de fazer tudo que era bom,
e puritanismo por conta da maldita máquina cristã anglo-saxônica-romana/protestante
que banhou a américa com merda, e encontra simpatizantes até hoje
por aí...
Que bom que posso colocar uma
roupa bem podre, tênis velho e beber cerveja na fila de um show
de rock. Que bom que em meio a Sandys e Júniors, KLB's e Rouges,
ainda há vida inteligente nesse mundo...Que bom que posso honrar
com 29 anos de idade a minha promessa de adolescente que "quando
eu trabalhar e tiver minha grana vou em tudo que é show!"
Em uma hora to saindo de casa
e me encotrarei com um amigo na estação do metrô, depois com uns
parceiros em Porto Alegre.
IIIIIIIIIII KNOW IT'S ONY ROCK'N'ROLL
BUT I LIKE IT!!!!!!!
Mea Culpa
Ok, eu ratiei; escrevi aqui que
o Collor foi pro segundo turno,mas não foi (valeu, Marco). Mas
em todo caso que diferença faz? O cara conseguiu concorrer e ficou
em segundo, o que é igualmente assustador.
Chega de política, política enche
o saco, mas é um mal necessário, assim como a menstruação.
Fábio Luis Emerim
Críticas, sugestões, textos, antrax:
mulatas@terra.com.br
Lista, ou grupo, ou o que você entenda
que é: mjcgroup-subscribe@yahoogrupos.com.br
Mande
também uma mensagem para esse e-mail que não existe: frijgerew@hebonuz.com
ICQ da redação do Mulatas:
125549008
Casulo XIV
Fábio Luis Emerim
Minha vez de
fazer a Maratona do Mulatas, e estréio bem!
Red Hot
Chili Peppers - Porto Alegre, 14 de Outubro de 2002
Em primeiro lugar
devo confessar que estou ficando velho pra esse tipo de coisa.
Ir ao local do show às três da tarde, ficar na fila até as seis
e esperar na pista, naquele calor dos infernos só com Kaiser pra
vender a três pila é foda! Eu me senti um verdadeiro ancião lá
dentro. Mas foda-se; Red Hot Chili Peppers vale qualquer sacrifício
(só não sei até que idade).
Várias coisas
a dissertar nesses momentos que compreendem minha chegada ao Gigantinho
e o início do show. A primeira é que a galera de Porto Alegre
tem sede de rock. Meu, que terra! Gurizada com idade de curtir
Sandy e Júnior já sabem o que é bom, e isso é muito agradável.
All Star; nunca vi tanto All Star na minha frente. Piercing; tinha
uma piazinha lá que era um verdadeiro pára-ráio humano. Maconha;
desnecessário dizer...show de rock. E no mais mães com cara de
"que que eu to fazendo aqui?", pais com cara de invocados pra
cima de qualquer magrinho que ficasse encarando a filha por mais
de 3 segundos, vendedores ambulantes oferecendo camisetas do "rédi
róti chilipépis" a "15 real", e aquela porra daquele trailler
de "Xis" do lado do estádio que os donos fizeram o favor de fechar
o banheiro. Fui lá pra mijar e o atendente disse "o banheiro
está interditado" e me deu as costas. Filho da puta; tem gente
que não sabe que trabalha com público.
Abertos os portões,
minhas próximas duas horas e meia seriam de calor, sede, aperto
e angústia. Realmente a frase que mais me assaltava era "to velho
demais pra isso". Mas resisti até o começo do show da banda de
abertura; Comunidade Nin-Jitsu. Gosto deles, são bem divertidos
e levantam a galera, mas ainda acho que pra abrir show do Red
Hot a melhor seria o De Falla, não da fase Popozuda, me poupem,
mas da fase funk-rock.
Um detalhe a
ser lembrado foi uma hora que o batera do Red Hot, Chad Smith,
apareceu e balbuciou qualquer bobagem no microfone, pra delírio
das menininhas espinhentas e gordas (que maldade). E depois ficou no
canto do palco dançando ao melhor estilo "sanduíche" com 4 mulheres,
digamos, de forma corpórea muito respeitável. Um emprego divertido
o dele.
Gigantinho lotado
e o show dos guris durou meia hora.
UMA HORA depois
entram os californianos no palco e começa a catarse.
O Show
Abriram com a
nova By The Way, que dá título ao CD novo, que eu não conheço. Fui
pro show conhecendo bem o Mother's Milk, Blood Sugar Sex Magik
e o Californication, o que foi o suficiente pra curtir numa
boa.
Anthony Kiedis canta, pula, dança e, principalmente, RESPEITA
o público. Aliás, a banda toda respeita os fãs. Fazem das tripas
coração pra detonar ao máximo, e isso foi reconhecido ao
final de cada música.
Flea, o baixista...não, deixe-me reiterar, Flea é O BAIXISTA;
nunca vi uma criatura tocar daquele jeito a menos de dez metros
de distância! E não é à toa que seu apelido é esse - flea é pulga
em inglês - pois o cara pula e saracoteia tanto que não dá pra
entender como que mesmo assim ele consegue manter uma técnica
filha da puta no instrumento! A primeira coisa que ele falou no
microfone foi "Lula!". Anthony Kiedis perguntou "What's that?",
e segue a resposta de Flea, acompanhado por frenéticos aplausos
e assovios: "Lula is the guy who's gonna be the next president
of Brasil", gritaria.
John Frusciante, o guitar man, é o cão na guitarra. Mostrou muita
simpatia e empatia no show inteiro e provou que canta melhor que
o vocalista quando fez uma cover de Tiny Dancer, do Elton John.
Chad Smith, o batera, me assustou, pois não sabia que ele era
tão fera! Achava ele um instrumentista mediano, mas tem uma técnica
do cacete. Ele e o Flea fazem a cozinha dos sonhos.
Momentos altos.
Certamente, na
minha modesta opinião de fã, Give it Away e Suck My Kiss destruíram
por completo! Eu pulei me esquecendo de calor, do suor do gordo
da frente sem camisa, da cotovelada que eu dei na cabeça da pobre
da guria do lado que batia na minha cintura, das bolhas que as
Havaianas fizeram no meu pé, e cantei junto como se eu tivesse
15 anos de idade matando aula e puto da cara que o outro dia existe
e que adultos existem. Ao final, pro bis, tocaram Under the
Bridge e (se não me falha a memória) Mellowship.
Red Hot Chili Peppers te faz sentir as espinhas voltando ao rosto.
Provoca aquela adolescente sensação do "paudurismo" e de que "foda-se
o mundo, eu quero agora é que tudo se exploda".
Enfim, foi uma
lavagem cerebral, estomacal, intestinal e cultural. A verdadeira
síntese que simboliza tudo aquilo que o rock é e não deveria nunca
deixar de ser: espinhas e punheta!
...most muthafukars
don't give a damn......
.........
"Que toda a desgraça
humana / que toda a chama mundana / que todo desespero alheio
/ que todo filho do meio / que toda mulher arredia / que todo
mundo sabia / que era de família triste / que é você quem resiste
/ foda-se, enchi meu saco..."
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/ ====
Evil as Hell
Bruna Maia
Estorieta
by Amanda Lins
Acontece nas melhores famílias...
O verão em Mariola Velha é cruel. Até os cachorros
reclamam do calor, e
chegam a fazer campanha para colocarem ar-condicionado no canil
da
prefeitura. Do asfalto sai aquele bafo fumacento, para deixar
qualquer um de
corpo mole, e ai de quem for dar uma voltinha de Havaianas. Elas
derretem. A
temperatura é tal, que já aconteceu de um dia, o seu Tonico, tocador
de arpas
conceituado, chegar em casa e ao constatar que seu fogão estragara,
sair para
a rua com um ovo na mão, frita-lo no asfalto e come-lo ali mesmo,
para
enganar o estômago enquanto o técnico não chegava.
A Candinha,17 anos, guria bonita, filha de
um vereador de família
tradicional, e o Mauro, seu namorado, não eram diferentes dos
outros casais
de namorados daquela cidade e de todas as cidades. Bem, até eram,
pois sempre
usavam camisinha, e nunca tinham passado por apuros, ao contrario
de seus
amigos. Mas, sabe como é, verão, calor... As saias e as blusas
sobem, os
hormônios ficam a flor da pele... Não deu outra: os dois no carro,
num lugar
deserto, lua cheia, trinta e nove graus, aquele amasso, beijos
e mãos para
todo lado... E na hora H, cadê a camisinha? Aquilo nunca tinha
acontecido
antes! Bom, mas o desejo era tanto, que eles resolveram deixa-lo
falar mais
alto. Ou melhor, berrar.
Foi ótimo. Talvez a melhor noite da vida deles.
A Candinha até ficou
preocupada, pois não tinha se protegido, e afinal, engravidar
era a ultima
coisa que ela queria, iria estragar o seu corpo tão bem feito,
e os seus
seios, tão firmes e durinhos, iriam despencar. Depois de uns minutos
ela já
nem ligava para isso, tinha sido uma só vez, ela não estava no
período
fértil, não teria tanto azar. E assim ela foi vivendo os seus
dias, entre a
escola e o cursinho de inglês, entre sua casa e o carro do Mauro,
só que
sempre tomando cuidado de levar camisinha. Voltara a sua doce
e boa rotina.
Estava tudo dando certo, a mocinha estava feliz
da vida, saindo da
natação, tinha sido a mais rápida! E lá ia a Candinha, com seu
andar sensual
pela rua, quando sentiu aquele enjôo. Teve que parar na praça
para descansar,
mas isso não estragou a sua alegria, tinha nadado muito, talvez
fosse
cansaço. O problema é que a esse enjôo se seguiram muitos outros,
e também
começaram a surgir uns desejos estranhos, a sua menstruação, sempre
tão
regular, já estava atrasada havia duas semanas. A principio ela
afastou a
idéia, mas depois de outra semana sem suas regras foi a farmácia,
comprou um
exame, e batata: ela estava gravida, gravidissima.
Ela não pensou duas vezes: iria abortar. Sem
comunicar a ninguém, nem uma
amiga, se dirigiu para uma casa no bairro Chamas, onde diziam
funcionar uma
clinica especializada. No ônibus não pensava em outra coisa:
``Imagina se eu vou deixar meus peitinhos caírem!
Imagina se eu iria
limpar coco de criança!``
Quando o ônibus parou, desceu e foi atras da
tal casa, cujo endereço ela
tinha copiado certa vez do caderno da sua amiga, a Duda. Não que
ela
admitisse o risco, mas um dia, como esse, poderia ser útil. Caminhou
duas
quadras até que achou. Era uma casa rosa, mas um rosa de aspecto
sujo,
descascado. As janelas tinham persianas encardidas, e as plantas
do quintal
murchavam devido ao calor. A primeira impressão foi de nojo, mas
ela entrou,
indo direto ao balcão da recepção, nem reparando no rapaz que
estava a porta
distribuindo panfletos. Já foi direto ao assunto, perguntando
para a
recepcionista, que fazia tricô e deveria ter uns 55 anos mal-disfarcados
pela
maquiagem que lhe escorria pelas bochechas caídas:
- Boa tarde, quanto custa o aborto?
- Olha o aborto custa dois mil, tem que
dar mil adiantado, e se desistir
na ultima hora tem que pagar seiscentos pela hora.- respondeu
sem largar o
seu tricô- É para você mesmo?
- Não, é para minha cadela boxer!- respondeu
Candinha impaciente.
- Bom, ai a mocinha vai ter que procurar outra
clinica, aqui a gente não
faz mais em bicho não, sabe como é, andaram morrendo umas cadelas,
deu um
bafafá com a vigilância sanitária...
- Mas esse lugar é limpo?- Perguntou a moca
com ar assustado.
- Sim muito...
- O dona Lúcia, olha só o escarro verde que
eu encontrei lá na sala de
cirurgia! Bem grande, deve ter saído faz pouco...- disse uma faxineira
gorada
e suarenta, interrompendo a conversa.
Candinha se assustava mais, e ia perguntar
o que significava aquilo,
quando o telefone tocou, e a recepcionista atendeu:
- Alo, clinica de abortos Embrião Alegre, bom
dia!... O que o senhor
deseja?... Olha, a gente não vende mais pasteis aqui não, acho
que o senhor
esta enganado... Não, meu senhor, não tem nenhuma doceira Loreci
aqui...
Indignada, Candinha voltou-se para a sala de
esperas, e deparou-se com
cenas horríveis: Uma mulher que tinha nos braços um bebe magro
e feio, cocava
os cabelos pinchaim e dizia a um menino sujo que estava ao seu
lado:
- Tira o dedo do nariz, menino!
E o guri não tirava. No centro do sofá uma
menina de uns doze anos,
chupada e ranhenta, perguntava a uma mulher que tinha um cachorro
vira-lata e
pulguento no colo:
- Eu vou ter que fazer isso de novo, mãe?
- Cala a boca guria, ninguém mandou abrir as
pernas- respondeu a mulher.
Com náuseas, sentindo-se suja, Candinha foi
em direção a porta, chegou a
ouvir a recepcionista, que ainda falava ao telefone, dizer que
até podia
fazer uns pasteis se o homem estivesse disposto a pagar bem. Abriu
a porta de
dobradiças enferrujadas, não sem antes ler em uma placa: VOLTE
SEMPRE, e
receber do rapaz que estava encostado na parede um panfleto, que
falava sobre
preços promocionais para gravidas com menos de quinze anos.
Agora ela estava na rua, e junto com uma golfada
de vomito veio a
sensação de estar sozinha, perdida. Chorando, sem saber bem para
onde ir,
decidiu ir visitar a Leila, que já tinha abortado antes, e poderia
ajuda-la.
Na casa de Leila ela chorou no colo da amiga, que para conforta-la
contou
suas experiências e a falou sobre umas pílulas que seu namorado
negociava, e
que eram batata: abortavam na hora.
- Mas, quanto é?
- É três mil, e tem que ser a vista, dinheiro
vivo!- respondeu Leila.
- Onde é que eu vou conseguir esse dinheiro
todo?
- Bom, ai eu não sei... Por que não pede ao
Mauro? Ele que fez, ele que
pague!
- É, tem razão. O Mauro é rico, pode me ajudar.
Mais calma, quase alegre, Candinha foi para
casa do namorado, e lhe
explicou a situação, ao que ele replicou:
- Mas como? Candinha, e sou católico, eu tenho
meus princípios, como é
que tu pode pensar que eu colaboraria com uma coisa assim? Eu
vou assumir
essa criança, nos vamos ama-la e ela vai crescer feliz e saudável...
- Não! E o meu corpo! Eu odeio essa criança,
odeio!
- Calma, você com uma criança linda no ventre
e se preocupa com o corpo?
- Eu não fico mais aqui! Eu vou conseguir esse
dinheiro de qualquer jeito
e vou fazer esse aborto!
Ela saiu correndo, mas Mauro a segurou dizendo
que estava muito cansada e
precisava relaxar. Levou-a para o seu quarto, e trancou-o a chave
para que
não saísse, enquanto ele ia tomar um banho para ir ao encontro
inadiável com
a Nubia, uma loira sensacional. Enquanto tomava seu banho ouviu
dois
estrondos, parecidos com tiros, mas nem se preocupou, aquilo era
normal,
ainda mais em dia de jogo de futebol.
Quando abriu a porta de seu quarto para se
vestir viu o corpo de
Candinha, inerte no chão sobre uma poça de sangue. Na altura do
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ventre, um
tiro. A moca matara-se, tendo tempo de dar um tiro no peito. Mauro
chamou a
policia, que não demorou a constatar que se tratava de suicídio,
levando o
corpo para o IML, após as averiguações necessárias. Mauro foi
intimado a
prestar depoimento, dois dias depois, a titulo de `formalidades`,
e saiu com
pressa de casa, pensando:
``Será que a Nubia vai ficar zangada com meu
atraso?``
Oi seu nojento, estúpido, detestável.
Eu tomei conta enquanto aquela retardada da
Bruna esta discutindo com a
gorda da Sueli. Escrevi essa coisa, que apesar de horrível é mais
interessante que aqueles continhos mela-cuecas que aquela burra
que não sabe
nem fazer versos em redondilha maior escreve.
Estou morrendo de raiva deste computador vagabundo
que não acentua a
maioria das palavras, e pretendo quebra-lo daqui a pouco.
TE ODEIO, ODEIO O TELMO, ODEIO A COLUNA DO
YELLOW, DO JULIAN DO FABIAN E
DE TODOS OS BUNDA-MOLES QUE ESCREVEM NESSE SITE NOJENTO.
MORDIDAS E ARRANHÕES,
AMANDA LINS
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Fanfarras Abissais
Fábio L. Emerim
Começou na oitava
série; de repente percebeu que tinha um dom único.
- Fessôra!
- Quê!
- Qual a possibilidade de poder estruturar aquilo que tu ensinaste
agora dentro da idéia total de uma matéria e sua possível colocação
dentro de um contexto de prova?
Todos olharam para a pequena Helenita. O que estaria querendo
dizer? A professora tirou os óculos, colocou o giz na caixinha
e, inevitavelmente indagou:
- O que tu quer dizer com isso, menina?
Helenita tinha
uma capacidade sensacional de formular perguntas de absurdo teor,
e impossíveis de responde-las, pelo menos não antes de ouvi-las
umas cinquenta vezes.
Os pais, quando constataram a faculdade da filha mais nova, resolveram
levá-la a uma psicóloga indicada pela escola. Uma semana depois
a psicóloga foi vista na rua chorando e repetindo: "Qual a importância
de um relacionamento incluído na sensação impossível da erudição
básica em si, ou em outrém?????? Qual? QUAL?????"
Aos 21 anos,
já fazendo jornalismo, Helenita foi chamada pelo seu professor
de língua portuguesa e redação para esclarecer seus textos. Já
sabendo da fama da aluna e querendo evitar problemas, perguntou
se sua pupila não queria ser a apresentadora de um programa de
entrevista, assim ajudando a menina a se expressar melhor. Helenita
aceitou de pronto, contanto que tivesse a liberdade de ser a redatora
de todo o programa, e inclusive das perguntas.
No dia da estréia,
todos na frente da TV, os professores na sala de produção roíam
as unhas. A primeira entrevistada do programa "Helenita Belizerdn
& Você" era uma psicoterapeuta e atriz chamada Maria da Luz.
O programa foi ao ar como se segue:
- Olá, bom dia
a todos os nossos telespectadores. Sou Helenita Belizerdn e trago
pra conversar comigo a grande atriz e psicoterapeuta Maria da
Luz, que está lançando um livro sobre relações humanas chamado
"Meu Mundo e Moby Dick", olá, Maria!
- Olá, Helenita!
- Obrigada por nos honrar com a sua presença em nosso Helenita
Belizerdn & Você, em primeiro lugar eu gostaria de saber,
no caso do livro, qual o teor analítico da tua auto-avaliação
dedutiva, em primeira pessoa, a respeito do papel exercido por
ti a favor ou contra aquilo que tu acreditas!
Silêncio, um certo ar de apreensão tomou conta do lugar e do rosto
da atriz, que, preocupada com o fato do programa ser ao vivo,
arriscou uma resposta, mesmo sem ter entendido o que a Helenita
queria dizer com aquilo tudo:
- Olha...em primeiro lugar obrigada você pela oportunidade de
falar sobre o meu livro e te digo que ...sim, eu também acho...
- dito isso, o produtor do programa e o dono da emissora entreolharam-se,
incrédulos, mas quietos.
- Como assim?, indagou novamente a entrevistadora e manteno o
olhar frio e questionativo.
Maria da Luz olhou para seu empresário, que por sua vez mostrava
um semblante apavorado.Mesmo assim respondeu.
- Er...você poderia repetir a pergunta?
- Não, vamos para outra, ok?
- Ok, hehehe...
- Qual a importância das tuas definições próprias na coisa do
"eu sei que deveria ter sido feito, mas mesmo assim ajo como se
nada tivesse acontecido"?
Maria da Luz dá um sorriso amarelíssimo. Engole a seco e resolve
responder "seja o que deus quiser":
- Bem, vamos
lá...das definições próprias, né?...Pois é, bem , humhum, eu vejo
isso como uma coisa...bonita, sabe? Saber que vou ser entendida
pelo que escrevi e...hãn...assim tentar expor minhas idéias de
uma forma mais íntima...é isso?, dá um sorriso ruim.
- Bem, a pergunta é minha, mas se dizes isso, ok.
- Que bom!
- Mas Maria, diz aqui pra gente uma coisa; como é que tu conjugas
o verbo "entenderei as minhas expectativas"?
Maria, mais inquieta, descruza e cruza os braços e as pernas ao
mesmo tempo, bebe um gole d'água e quase olha o relógio, mas tenta
responder:
- É, aí você
tocou num ponto interessante, que é o...o..., a coisa do ter a
expectativa, né? Eu sinto que, graças a deus, eu vejo essa experiência
muito positiva.
- pode exemplificar?
O empresário
a atriz, nos bastidores, começa a pedir explicações para o produtor,
que apenas põe o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio.
- Exemplificar....pois
é...como diria...na verdade eu quero expor minhas idéias em um
quadro mais humano...o melhor possível., olha para o empresário
com uma cara de "te mato daqui a pouco", mas volta com um sorriso
aberto.
- Lindo, lindo, mas dentro disso, Maria, pra que os nossos telespectadores
fiquem mais a par do que está sendo discutido aqui, como é que
tu dimensionalizas a tua estrutura liteária pessoal e social dentro
da limitação da tua vida íntima conjugal ou não, especial, ou
não, afora o que já foi discutido antes?
Aí Maria não
aguenta.
- Que merda é
essa?
Produção desesperada. "Comerciais, rápido!"
- Como?, pergunta
Helenita, fleumática.
- Por que tu tá fazendo tanta pergunta nada a ver?????? Que coisa
horrível! De onde tu saiu?
- Opa, a senhora já está partindo para o lado pessoal!
- FODA-SE, SE ESTOU, E ESTOU MESMO! QUALÉ? VAI QUERER SAIR DE
BOAZINHA AGORA?
Dez minutos para
que a segurança separasse as duas. É incrível isso, sabe? Ninguém
entende uma entrevistadora de vanguarda mesmo! Às vezes me pergunto
a que ponto devemos alavancar o núcleo inerente e apropriado para
o que é de interesse da massa e da posição invertida de uma cultura
pop inspirada na razão de ser de uma demanda de programas pastel!
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Realidade
Pleonástica
Telmo Abech & Fábio Emerim
Apresentamos,
a seguir, uma entrevista feita pela famosa colunista socio-político-cultural-culinário-esotérica
Maryndya Le Crayon de Ma Petite Soeur de La Silva et de Santos
com o editor-chefe do Mulatas, Fábio Luis Emerim. Necessária uma
palavra, ainda que breve, sobre a entrevistadora: para quem não
conhece, Maryndya é, simplesmente, Maryndya.
Jovem editor, a postura do vosso periódico tem francos
traços arquibarrocos; donde, resumidamente, vem essa influência?
Com
toda a certeza vem das obras de Aleijadinho expostas no anfiteatro
da cidade de Canoas, RS.
Jovem editor, Mulatas se considera uma tendência, um referencial
pós-moderno ou um fato consumado?
O
Mulatas se considera uma publicação filha-adotiva cujos pais se
encontram em algum lugar no Acre tentando ganhar a vida vendendo
sacolés em plantações de alfafa mas não conseguiram dinheiro ainda
pra ir até o Ratinho pedir DNA, que eles acham que é abreviação
de Dá o Neném Adispois.
Jovem editor, como conjugais o verbo estar-em-si-na-plenitude-da-condição-contingencial-limite-do-humanismo-literário?
Péssimo,
péssimo, mas ainda ouvindo som...
Jovem editor, considerando que o novo tema social coloca
como proposta uma correta relação entre estrutura e superestrutura
segundo um módulo de interdependência horizontal, recuperando
ou, antes, valorizando, numa ótica preventiva, e não mais curativa,
a transparência de cada ato decisional, vosso posicionamento é
no sentido do resgate ou do não-resgate desses valores?
Obviamente
que do pós-centrismo, o que, aliás, não citaste na pergunta!
Jovem editor, é sabido que o modelo de desenvolvimento
privilegia a superação de cada obstáculo e/ou resistência passiva
para além das contradições e dificuldades iniciais, evidenciando
e explicitando, a cavaleiro da situação contingente, a redefinição
de uma nova figura profissional; Mulatas se insere ou não se insere
nesse contexto específico?
Se
insere mas de uma maneira mais talhada.
Jovem editor, sois, certamente, de Peixes, Áries, Gêmeos
ou Touro, com ascendente em Virgem, Libra, Sagitário ou Capricórnio;
vossos textos têm tudo a ver com o elemento água, que transparece,
sobretudo, nas imbricações reflexionais de conotação política
que tendes manifestado; qual vosso depoimento sobre tal importante
inferência?
Exatamente
esse!
Jovem editor, gostais de berinjelas?
Só
em compostas.
Jovem editor, sabendo que o presente momento da
poesia prefigura o redirecionamento das linhas de tendência em
ato mediante mecanismos de co-participação, substanciando e vitalizando,
não assumindo nunca como implícita, com as devidas e imprescindíveis
enfatizações, uma congruente flexibilidade das estruturas, como
emergem os versos soltos?
Ah,
mas quem te disse que o presente momento da poesia prefigura o
redirecionamento das linhas de tendência em ato mediante mecanismos
de co-participação, substanciando e vitalizando, não assumindo
nunca como implícita, com as devidas e imprescindíveis enfatizações,
uma congruente flexibilidade das estruturas?????? Isso é um completo
absurdo!!! :o(
Jovem editor, o Mulatas veio para desmistificar ou para
desmitificar?
Para
nenhum, nem outro, mas para desmistificar.
Jovem editor, analisando do ponto de vista grafológico,
rúnico, quiromântico, quiroprático, proctomântico, búzico, tarótico,
astrocartográfico, espírita, evangélico e sob todos os demais
ângulos cabalísticos, Mulatas está absolutamente correto; pergunto:
isso é coincidência?
Sim.
Jovem editor, uma derradeira questão: quem é jovem editor?
Não
faço a menor idéia, aliás, estou até agora tentando saber quem
é e o que estou fazendo aqui com essa samambaia na mão!
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"Chamava-se
Hélice da Silva; o pai ao registrá-lo dissera ao oficial do registro
ser fã de Alice Cooper"
(Telmo)