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As Mulatas de Jesus Cristo
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As Mulatas de Jesus Cristo    
nº 68 - Canoas - 18/10/2002
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SUMÁRIO
 
EDITORIAL  Fábio Luis Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS  Fábio Luis Emerim
EVIL AS HELL  Bruna Maia
FANFARRAS ABISSAIS   Fábio Luis Emerim
REALIDADE PLEONÁSTICA  Telmo dos Santos Abech & Fábio Luis Emerim   
 
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EDITORIAL
Fábio Luis Emerim
 
 
Pré-show
 
Foda-se o estrago que as Havaianas fizeram no meu pé; eu vou pro show do Red Hot assim mesmo! Foda-se se o tempo aqui no sul é uma porra que chove 360 dias por ano; eu vou pro show do Red Hot de qualquer forma!
Paguei 60 paus - porque comprei antecipado - pelo ingresso e vou conferir os malucos californianos quarentões que quando sobem no palco parecem adolescentes punheteiros e espinhentos. Mas é óbvio; o rock é adolescente...e punheteiro! Nada mais transgressor, ruidoso, ousado, pelado e sacana que o rock'n'roll! Quando o Elvis, nos anos ciquenta, era proibido de rebolar em apresentações no sul dos EUA, começou-se a dividir as águas do puritanismo besta e do saco cheio. Saco cheio por parte da juventude, que era proibida de fazer tudo que era bom, e puritanismo por conta da maldita máquina cristã anglo-saxônica-romana/protestante que banhou a américa com merda, e encontra simpatizantes até hoje por aí...
Que bom que posso colocar uma roupa bem podre, tênis velho e beber cerveja na fila de um show de rock. Que bom que em meio a Sandys e Júniors, KLB's e Rouges, ainda há vida inteligente nesse mundo...Que bom que posso honrar com 29 anos de idade a minha promessa de adolescente que "quando eu trabalhar e tiver minha grana vou em tudo que é show!"
Em uma hora to saindo de casa e me encotrarei com um amigo na estação do metrô, depois com uns parceiros em Porto Alegre.
 
IIIIIIIIIII KNOW IT'S ONY ROCK'N'ROLL BUT I LIKE IT!!!!!!!
 
 
Mea Culpa
 
Ok, eu ratiei; escrevi aqui que o Collor foi pro segundo turno,mas não foi (valeu, Marco). Mas em todo caso que diferença faz? O cara conseguiu concorrer e ficou em segundo, o que é igualmente assustador.
 
Chega de política, política enche o saco, mas é um mal necessário, assim como a menstruação.
 
 
Fábio Luis Emerim

 

Críticas, sugestões, textos, antrax: mulatas@terra.com.br

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Casulo XIV 
Fábio Luis Emerim

Minha vez de fazer a Maratona do Mulatas, e estréio bem!

Red Hot Chili Peppers - Porto Alegre, 14 de Outubro de 2002

Em primeiro lugar devo confessar que estou ficando velho pra esse tipo de coisa. Ir ao local do show às três da tarde, ficar na fila até as seis e esperar na pista, naquele calor dos infernos só com Kaiser pra vender a três pila é foda! Eu me senti um verdadeiro ancião lá dentro. Mas foda-se; Red Hot Chili Peppers vale qualquer sacrifício (só não sei até que idade).

Várias coisas a dissertar nesses momentos que compreendem minha chegada ao Gigantinho e o início do show. A primeira é que a galera de Porto Alegre tem sede de rock. Meu, que terra! Gurizada com idade de curtir Sandy e Júnior já sabem o que é bom, e isso é muito agradável. All Star; nunca vi tanto All Star na minha frente. Piercing; tinha uma piazinha lá que era um verdadeiro pára-ráio humano. Maconha; desnecessário dizer...show de rock. E no mais mães com cara de "que que eu to fazendo aqui?", pais com cara de invocados pra cima de qualquer magrinho que ficasse encarando a filha por mais de 3 segundos, vendedores ambulantes oferecendo camisetas do "rédi róti chilipépis" a "15 real", e aquela porra daquele trailler de "Xis" do lado do estádio que os donos fizeram o favor de fechar o banheiro. Fui lá pra mijar e o atendente disse "o banheiro está interditado" e me deu as costas. Filho da puta; tem gente que não sabe que trabalha com público.

Abertos os portões, minhas próximas duas horas e meia seriam de calor, sede, aperto e angústia. Realmente a frase que mais me assaltava era "to velho demais pra isso". Mas resisti até o começo do show da banda de abertura; Comunidade Nin-Jitsu. Gosto deles, são bem divertidos e levantam a galera, mas ainda acho que pra abrir show do Red Hot a melhor seria o De Falla, não da fase Popozuda, me poupem, mas da fase funk-rock.

Um detalhe a ser lembrado foi uma hora que o batera do Red Hot, Chad Smith, apareceu e balbuciou qualquer bobagem no microfone, pra delírio das menininhas espinhentas e gordas (que maldade). E depois ficou no canto do palco dançando ao melhor estilo "sanduíche" com 4 mulheres, digamos, de forma corpórea muito respeitável. Um emprego divertido o dele.

Gigantinho lotado e o show dos guris durou meia hora.

UMA HORA depois entram os californianos no palco e começa a catarse.

O Show

Abriram com a nova By The Way, que dá título ao CD novo, que eu não conheço. Fui pro show conhecendo bem o Mother's Milk, Blood Sugar Sex Magik e o Californication, o que foi o suficiente pra curtir numa boa.
Anthony Kiedis canta, pula, dança e, principalmente, RESPEITA o público. Aliás, a banda toda respeita os fãs. Fazem das tripas coração pra detonar ao máximo,  e isso foi reconhecido ao final de cada música.
Flea, o baixista...não, deixe-me reiterar, Flea é O BAIXISTA; nunca vi uma criatura tocar daquele jeito a menos de dez metros de distância! E não é à toa que seu apelido é esse - flea é pulga em inglês - pois o cara pula e saracoteia tanto que não dá pra entender como que mesmo assim ele consegue manter uma técnica filha da puta no instrumento! A primeira coisa que ele falou no microfone foi "Lula!". Anthony Kiedis perguntou "What's that?", e segue a resposta de Flea, acompanhado por frenéticos aplausos e assovios: "Lula is the guy who's gonna be the next president of Brasil", gritaria.
John Frusciante, o guitar man, é o cão na guitarra. Mostrou muita simpatia e empatia no show inteiro e provou que canta melhor que o vocalista quando fez uma cover de Tiny Dancer, do Elton John.
Chad Smith, o batera, me assustou, pois não sabia que ele era tão fera! Achava ele um instrumentista mediano, mas tem uma técnica do cacete. Ele e o Flea fazem a cozinha dos sonhos.

Momentos altos.

Certamente, na minha modesta opinião de fã, Give it Away e Suck My Kiss destruíram por completo! Eu pulei me esquecendo de calor, do suor do gordo da frente sem camisa, da cotovelada que eu dei na cabeça da pobre da guria do lado que batia na minha cintura, das bolhas que as Havaianas fizeram no meu pé, e cantei junto como se eu tivesse 15 anos de idade matando aula e puto da cara que o outro dia existe e que adultos existem. Ao final, pro bis, tocaram Under the Bridge e (se não me falha a memória) Mellowship.

Red Hot Chili Peppers te faz sentir as espinhas voltando ao rosto. Provoca aquela adolescente sensação do "paudurismo" e de que "foda-se o mundo, eu quero agora é que tudo se exploda".

Enfim, foi uma lavagem cerebral, estomacal, intestinal e cultural. A verdadeira síntese que simboliza tudo aquilo que o rock é e não deveria nunca deixar de ser: espinhas e punheta!

...most muthafukars don't give a damn......

.........

"Que toda a desgraça humana / que toda a chama mundana / que todo desespero alheio / que todo filho do meio / que toda mulher arredia / que todo mundo sabia / que era de família triste / que é você quem resiste / foda-se, enchi meu saco..."

 

 

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Evil as Hell
Bruna Maia

 

Estorieta by Amanda Lins

                Acontece nas melhores famílias...

    O verão em Mariola Velha é cruel. Até os cachorros reclamam do calor, e
chegam a fazer campanha para colocarem ar-condicionado no canil da
prefeitura. Do asfalto sai aquele bafo fumacento, para deixar qualquer um de
corpo mole, e ai de quem for dar uma voltinha de Havaianas. Elas derretem. A
temperatura é tal, que já aconteceu de um dia, o seu Tonico, tocador de arpas
conceituado, chegar em casa e ao constatar que seu fogão estragara, sair para
a rua com um ovo na mão, frita-lo no asfalto e come-lo ali mesmo, para
enganar o estômago enquanto o técnico não chegava.
    A Candinha,17 anos, guria bonita, filha de um vereador de família
tradicional, e o Mauro, seu namorado, não eram diferentes dos outros casais
de namorados daquela cidade e de todas as cidades. Bem, até eram, pois sempre
usavam camisinha, e nunca tinham passado por apuros, ao contrario de seus
amigos. Mas, sabe como é, verão, calor... As saias e as blusas sobem, os
hormônios ficam a flor da pele... Não deu outra: os dois no carro, num lugar
deserto, lua cheia, trinta e nove graus, aquele amasso, beijos e mãos para
todo lado... E na hora H, cadê a camisinha? Aquilo nunca tinha acontecido
antes! Bom, mas o desejo era tanto, que eles resolveram deixa-lo falar mais
alto. Ou melhor, berrar.
    Foi ótimo. Talvez a melhor noite da vida deles. A Candinha até ficou
preocupada, pois não tinha se protegido, e afinal, engravidar era a ultima
coisa que ela queria, iria estragar o seu corpo tão bem feito, e os seus
seios, tão firmes e durinhos, iriam despencar. Depois de uns minutos ela já
nem ligava para isso, tinha sido uma só vez, ela não estava no período
fértil, não teria tanto azar. E assim ela foi vivendo os seus dias, entre a
escola e o cursinho de inglês, entre sua casa e o carro do Mauro, só que
sempre tomando cuidado de levar camisinha. Voltara a sua doce e boa rotina.
    Estava tudo dando certo, a mocinha estava feliz da vida, saindo da
natação, tinha sido a mais rápida! E lá ia a Candinha, com seu andar sensual
pela rua, quando sentiu aquele enjôo. Teve que parar na praça para descansar,
mas isso não estragou a sua alegria, tinha nadado muito, talvez fosse
cansaço. O problema é que a esse enjôo se seguiram muitos outros, e também
começaram a surgir uns desejos estranhos, a sua menstruação, sempre tão
regular, já estava atrasada havia duas semanas. A principio ela afastou a
idéia, mas depois de outra semana sem suas regras foi a farmácia, comprou um
exame, e batata: ela estava gravida, gravidissima.
    Ela não pensou duas vezes: iria abortar. Sem comunicar a ninguém, nem uma
amiga, se dirigiu para uma casa no bairro Chamas, onde diziam funcionar uma
clinica especializada. No ônibus não pensava em outra coisa:
    ``Imagina se eu vou deixar meus peitinhos caírem! Imagina se eu iria
limpar coco de criança!``
    Quando o ônibus parou, desceu e foi atras da tal casa, cujo endereço ela
tinha copiado certa vez do caderno da sua amiga, a Duda. Não que ela
admitisse o risco, mas um dia, como esse, poderia ser útil. Caminhou duas
quadras até que achou. Era uma casa rosa, mas um rosa de aspecto sujo,
descascado. As janelas tinham persianas encardidas, e as plantas do quintal
murchavam devido ao calor. A primeira impressão foi de nojo, mas ela entrou,
indo direto ao balcão da recepção, nem reparando no rapaz que estava a porta
distribuindo panfletos. Já foi direto ao assunto, perguntando para a
recepcionista, que fazia tricô e deveria ter uns 55 anos mal-disfarcados pela
maquiagem que lhe escorria pelas bochechas caídas:
    - Boa tarde, quanto custa o aborto?
    -  Olha o aborto custa dois mil, tem que dar mil adiantado, e se desistir
na ultima hora tem que pagar seiscentos pela hora.- respondeu sem largar o
seu tricô- É para você mesmo?
    - Não, é para minha cadela boxer!- respondeu Candinha impaciente.
    - Bom, ai a mocinha vai ter que procurar outra clinica, aqui a gente não
faz mais em bicho não, sabe como é, andaram morrendo umas cadelas, deu um
bafafá com a vigilância sanitária...
    - Mas esse lugar é limpo?- Perguntou a moca com ar assustado.
    - Sim muito...
    - O dona Lúcia, olha só o escarro verde que eu encontrei lá na sala de
cirurgia! Bem grande, deve ter saído faz pouco...- disse uma faxineira gorada
e suarenta, interrompendo a conversa.
    Candinha se assustava mais, e ia perguntar o que significava aquilo,
quando o telefone tocou, e a recepcionista atendeu:
    - Alo, clinica de abortos Embrião Alegre, bom dia!... O que o senhor
deseja?... Olha, a gente não vende mais pasteis aqui não, acho que o senhor
esta enganado... Não, meu senhor, não tem nenhuma doceira Loreci aqui...
    Indignada, Candinha voltou-se para a sala de esperas, e deparou-se com
cenas horríveis: Uma mulher que tinha nos braços um bebe magro e feio, cocava
os cabelos pinchaim e dizia a um menino sujo que estava ao seu lado:
    - Tira o dedo do nariz, menino!
    E o guri não tirava. No centro do sofá uma menina de uns doze anos,
chupada e ranhenta, perguntava a uma mulher que tinha um cachorro vira-lata e
pulguento no colo:
    - Eu vou ter que fazer isso de novo, mãe?
    - Cala a boca guria, ninguém mandou abrir as pernas- respondeu a mulher.
    Com náuseas, sentindo-se suja, Candinha foi em direção a porta, chegou a
ouvir a recepcionista, que ainda falava ao telefone, dizer que até podia
fazer uns pasteis se o homem estivesse disposto a pagar bem. Abriu a porta de
dobradiças enferrujadas, não sem antes ler em uma placa: VOLTE SEMPRE, e
receber do rapaz que estava encostado na parede um panfleto, que falava sobre
preços promocionais para gravidas com menos de quinze anos.
    Agora ela estava na rua, e junto com uma golfada de vomito veio a
sensação de estar sozinha, perdida. Chorando, sem saber bem para onde ir,
decidiu ir visitar a Leila, que já tinha abortado antes, e poderia ajuda-la.
Na casa de Leila ela chorou no colo da amiga, que para conforta-la contou
suas experiências e a falou sobre umas pílulas que seu namorado negociava, e
que eram batata: abortavam na hora.
    - Mas, quanto é?
    - É três mil, e tem que ser a vista, dinheiro vivo!- respondeu Leila.
    - Onde é que eu vou conseguir esse dinheiro todo?
    - Bom, ai eu não sei... Por que não pede ao Mauro? Ele que fez, ele que
pague!
    - É, tem razão. O Mauro é rico, pode me ajudar.
    Mais calma, quase alegre, Candinha foi para casa do namorado, e lhe
explicou a situação, ao que ele replicou:
    - Mas como? Candinha, e sou católico, eu tenho meus princípios, como é
que tu pode pensar que eu colaboraria com uma coisa assim? Eu vou assumir
essa criança, nos vamos ama-la e ela vai crescer feliz e saudável...
    - Não! E o meu corpo! Eu odeio essa criança, odeio!
    - Calma, você com uma criança linda no ventre e se preocupa com o corpo?
    - Eu não fico mais aqui! Eu vou conseguir esse dinheiro de qualquer jeito
e vou fazer esse aborto!
    Ela saiu correndo, mas Mauro a segurou dizendo que estava muito cansada e
precisava relaxar. Levou-a para o seu quarto, e trancou-o a chave para que
não saísse, enquanto ele ia tomar um banho para ir ao encontro inadiável com
a Nubia, uma loira sensacional. Enquanto tomava seu banho ouviu dois
estrondos, parecidos com tiros, mas nem se preocupou, aquilo era normal,
ainda mais em dia de jogo de futebol.
    Quando abriu a porta de seu quarto para se vestir viu o corpo de
Candinha, inerte no chão sobre uma poça de sangue. Na altura do

ventre, um
tiro. A moca matara-se, tendo tempo de dar um tiro no peito. Mauro chamou a
policia, que não demorou a constatar que se tratava de suicídio, levando o
corpo para o IML, após as averiguações necessárias. Mauro foi intimado a
prestar depoimento, dois dias depois, a titulo de `formalidades`, e saiu com
pressa de casa, pensando:
    ``Será que a Nubia vai ficar zangada com meu atraso?``

   

    Oi seu nojento, estúpido, detestável.

    Eu tomei conta enquanto aquela retardada da Bruna esta discutindo com a
gorda da Sueli. Escrevi essa coisa, que apesar de horrível é mais
interessante que aqueles continhos mela-cuecas que aquela burra que não sabe
nem fazer versos em redondilha maior escreve.
    Estou morrendo de raiva deste computador vagabundo que não acentua a
maioria das palavras, e pretendo quebra-lo daqui a pouco.
    TE ODEIO, ODEIO O TELMO, ODEIO A COLUNA DO YELLOW, DO JULIAN DO FABIAN E
DE TODOS OS BUNDA-MOLES QUE ESCREVEM NESSE SITE NOJENTO.
    MORDIDAS E ARRANHÕES,
                    AMANDA LINS

 

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Fanfarras Abissais
Fábio L. Emerim

Começou na oitava série; de repente percebeu que tinha um dom único.
- Fessôra!
- Quê!
- Qual a possibilidade de poder estruturar aquilo que tu ensinaste agora dentro da idéia total de uma matéria e sua possível colocação dentro de um contexto de prova?
Todos olharam para a pequena Helenita. O que estaria querendo dizer? A professora tirou os óculos, colocou o giz na caixinha e, inevitavelmente indagou:
- O que tu quer dizer com isso, menina?

Helenita tinha uma capacidade sensacional de formular perguntas de absurdo teor, e impossíveis de responde-las, pelo menos não antes de ouvi-las umas cinquenta vezes.
Os pais, quando constataram a faculdade da filha mais nova, resolveram levá-la a uma psicóloga indicada pela escola. Uma semana depois a psicóloga foi vista na rua chorando e repetindo: "Qual a importância de um relacionamento incluído na sensação impossível da erudição básica em si, ou em outrém?????? Qual? QUAL?????"

Aos 21 anos, já fazendo jornalismo, Helenita foi chamada pelo seu professor de língua portuguesa e redação para esclarecer seus textos. Já sabendo da fama da aluna e querendo evitar problemas, perguntou se sua pupila não queria ser a apresentadora de um programa de entrevista, assim ajudando a menina a se expressar melhor. Helenita aceitou de pronto, contanto que tivesse a liberdade de ser a redatora de todo o programa, e inclusive das perguntas.

No dia da estréia, todos na frente da TV, os professores na sala de produção roíam as unhas. A primeira entrevistada do programa "Helenita Belizerdn & Você" era uma psicoterapeuta e atriz chamada Maria da Luz. O programa foi ao ar como se segue:

- Olá, bom dia a todos os nossos telespectadores. Sou Helenita Belizerdn e trago pra conversar comigo a grande atriz e psicoterapeuta Maria da Luz, que está lançando um livro sobre relações humanas chamado "Meu Mundo e Moby Dick", olá, Maria!
- Olá, Helenita!
- Obrigada por nos honrar com a sua presença em nosso Helenita Belizerdn & Você, em primeiro lugar eu gostaria de saber, no caso do livro, qual o teor analítico da tua auto-avaliação dedutiva, em primeira pessoa, a respeito do papel exercido por ti a favor ou contra aquilo que tu acreditas!

Silêncio, um certo ar de apreensão tomou conta do lugar e do rosto da atriz, que, preocupada com o fato do programa ser ao vivo, arriscou uma resposta, mesmo sem ter entendido o que a Helenita queria dizer com aquilo tudo:

- Olha...em primeiro lugar obrigada você pela oportunidade de falar sobre o meu livro e te digo que ...sim, eu também acho... - dito isso, o produtor do programa e o dono da emissora entreolharam-se, incrédulos, mas quietos.
- Como assim?, indagou novamente a entrevistadora e manteno o olhar frio e questionativo.
Maria da Luz olhou para seu empresário, que por sua vez mostrava um semblante apavorado.Mesmo assim respondeu.
- Er...você poderia repetir a pergunta?
- Não, vamos para outra, ok?
- Ok, hehehe...
- Qual a importância das tuas definições próprias na coisa do "eu sei que deveria ter sido feito, mas mesmo assim ajo como se nada tivesse acontecido"?

Maria da Luz dá um sorriso amarelíssimo. Engole a seco e resolve responder "seja o que deus quiser":

- Bem, vamos lá...das definições próprias, né?...Pois é, bem , humhum, eu vejo isso como uma coisa...bonita, sabe? Saber que vou ser entendida pelo que escrevi e...hãn...assim tentar expor minhas idéias de uma forma mais íntima...é isso?, dá um sorriso ruim.
- Bem, a pergunta é minha, mas se dizes isso, ok.
- Que bom!
- Mas Maria, diz aqui pra gente uma coisa; como é que tu conjugas o verbo "entenderei as minhas expectativas"?

Maria, mais inquieta, descruza e cruza os braços e as pernas ao mesmo tempo, bebe um gole d'água e quase olha o relógio, mas tenta responder:

- É, aí você tocou num ponto interessante, que é o...o..., a coisa do ter a expectativa, né? Eu sinto que, graças a deus, eu vejo essa experiência muito positiva.
- pode exemplificar?

O empresário a atriz, nos bastidores, começa a pedir explicações para o produtor, que apenas põe o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio.

- Exemplificar....pois é...como diria...na verdade eu quero expor minhas idéias em um quadro mais humano...o melhor possível., olha para o empresário com uma cara de "te mato daqui a pouco", mas volta com um sorriso aberto.
- Lindo, lindo, mas dentro disso, Maria, pra que os nossos telespectadores fiquem mais a par do que está sendo discutido aqui, como é que tu dimensionalizas a tua estrutura liteária pessoal e social dentro da limitação da tua vida íntima conjugal ou não, especial, ou não, afora o que já foi discutido antes?

Aí Maria não aguenta.

- Que merda é essa?

Produção desesperada. "Comerciais, rápido!"

- Como?, pergunta Helenita, fleumática.
- Por que tu tá fazendo tanta pergunta nada a ver?????? Que coisa horrível! De onde tu saiu?
- Opa, a senhora já está partindo para o lado pessoal!
- FODA-SE, SE ESTOU, E ESTOU MESMO! QUALÉ? VAI QUERER SAIR DE BOAZINHA AGORA?

Dez minutos para que a segurança separasse as duas. É incrível isso, sabe? Ninguém entende uma entrevistadora de vanguarda mesmo! Às vezes me pergunto a que ponto devemos alavancar o núcleo inerente e apropriado para o que é de interesse da massa e da posição invertida de uma cultura pop inspirada na razão de ser de uma demanda de programas pastel!

 

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Realidade Pleonástica 
Telmo Abech & Fábio Emerim

Apresentamos, a seguir, uma entrevista feita pela famosa colunista socio-político-cultural-culinário-esotérica Maryndya Le Crayon de Ma Petite Soeur de La Silva et de Santos com o editor-chefe do Mulatas, Fábio Luis Emerim. Necessária uma palavra, ainda que breve, sobre a entrevistadora: para quem não conhece, Maryndya é, simplesmente, Maryndya.


Jovem editor, a postura do vosso periódico tem francos traços arquibarrocos; donde, resumidamente, vem essa influência?

Com toda a certeza vem das obras de Aleijadinho expostas no anfiteatro da cidade de Canoas, RS.


Jovem editor, Mulatas se considera uma tendência, um referencial pós-moderno ou um fato consumado? 

O Mulatas se considera uma publicação filha-adotiva cujos pais se encontram em algum lugar no Acre tentando ganhar a vida vendendo sacolés em plantações de alfafa mas não conseguiram dinheiro ainda pra ir até o Ratinho pedir DNA, que eles acham que é abreviação de Dá o Neném Adispois.


Jovem editor, como conjugais o verbo estar-em-si-na-plenitude-da-condição-contingencial-limite-do-humanismo-literário?

Péssimo, péssimo, mas ainda ouvindo som...


Jovem editor, considerando que o novo tema social coloca como proposta uma correta relação entre estrutura e superestrutura segundo um módulo de interdependência horizontal, recuperando ou, antes, valorizando, numa ótica preventiva, e não mais curativa, a transparência de cada ato decisional, vosso posicionamento é no sentido do resgate ou do não-resgate desses valores?

Obviamente que do pós-centrismo, o que, aliás, não citaste na pergunta!


Jovem editor, é sabido que o modelo de desenvolvimento privilegia a superação de cada obstáculo e/ou resistência passiva para além das contradições e dificuldades iniciais, evidenciando e explicitando, a cavaleiro da situação contingente, a redefinição de uma nova figura profissional; Mulatas se insere ou não se insere nesse contexto específico?

Se insere mas de uma maneira mais talhada.


Jovem editor, sois, certamente, de Peixes, Áries, Gêmeos ou Touro, com ascendente em Virgem, Libra, Sagitário ou Capricórnio; vossos textos têm tudo a ver com o elemento água, que transparece, sobretudo, nas imbricações reflexionais de conotação política que tendes manifestado; qual vosso depoimento sobre tal importante inferência?

Exatamente esse!


Jovem editor, gostais de berinjelas?

Só em compostas.


Jovem editor,  sabendo que o presente momento da poesia prefigura o redirecionamento das linhas de tendência em ato mediante mecanismos de co-participação, substanciando e vitalizando, não assumindo nunca como implícita, com as devidas e imprescindíveis enfatizações, uma congruente flexibilidade das estruturas, como emergem os versos soltos?

Ah, mas quem te disse que o presente momento da poesia prefigura o redirecionamento das linhas de tendência em ato mediante mecanismos de co-participação, substanciando e vitalizando, não assumindo nunca como implícita, com as devidas e imprescindíveis enfatizações, uma congruente flexibilidade das estruturas?????? Isso é um completo absurdo!!! :o(


Jovem editor, o Mulatas veio para desmistificar ou para desmitificar? 

Para nenhum, nem outro, mas para desmistificar.


Jovem editor, analisando do ponto de vista grafológico, rúnico, quiromântico, quiroprático, proctomântico, búzico, tarótico, astrocartográfico, espírita, evangélico e sob todos os demais ângulos cabalísticos, Mulatas está absolutamente correto; pergunto: isso é coincidência?

Sim.


Jovem editor, uma derradeira questão: quem é jovem editor?

Não faço a menor idéia, aliás, estou até agora tentando saber quem é e o que estou fazendo aqui com essa samambaia na mão!

 

 

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"Chamava-se Hélice da Silva; o pai ao registrá-lo dissera ao oficial do registro ser fã de Alice Cooper"

(Telmo)

                                                                                     

 

              ***** As Mulatas de Jesus Cristo - número 68 - 18/10/02 *****

-Staff:

-Fábio Luis Emerim (pós-show)
-Roberto Yellow Moschen Jr. (Lula ou Serra?)
-Borvaz Sarsa (Lula ou Serra?)
-Julián Catino (texto que é bom...)
-Telmo dos Santos Abech (Guri risonho)
-Bruna Maia (guria que conta contos)

-Colaboradores dessa edição:

- No person

 

Não foi utilizado nenhum tipo de droga pesada na realização dessa edição.

Este e-zine não contém glútem, conservante, estupefaciente, flaviocavalcante e nenhum veneninho bão.

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