::: AS MULATAS DE JESUS CRISTO :::
As Mulatas de Jesus Cristo
Edições Anteriores

As Mulatas de Jesus Cristo
nº 64 - Canoas - 20/09/2002
____________________________________________________________

SUMÁRIO

EDITORIAL Fábio Luis Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS Fábio Luis Emerim
CARTAS nossos leitores
CACHIMBO-URUBU (III parte) Fábio Luis Emerim
COLUNA DO BORVAZ SARSA Borvaz Sarsa
MOVIMENTOS MINÚSCULOS Inácio Otávio das Dores
REALIDADE PLEONÁSTICA Telmo dos Santos Abech
SOU JULIÁN CATINO Julián Catino
VERSOS SOLTOS Fábio e seus alter egos


==== \ ====

EDITORIAL
Fábio Luis Emerim


Os Olhos da Lei

Meu pai tem 60 anos. Dirige há mais de 40. Nunca foi multado, nunca teve uma infração de trânsito, nunca, sequer, arranhou o carro. Ele é, sem sombra de dúvida, o cara mais correto na direção de um carro que eu conheço. Mas hoje recebeu pelo correio uma notificação do DETRAN com a foto do carro, acompanhando uma multa por ter sido flagrado na impressionante velocidade de....57 Km/h!!!! São os incansáveis olhos da lei.

Domingo, 16 horas, parque residencial Jardim do Lago em Canoas; um bairro de classe alta que serve de "point" pra playboyzada desfilar carangos bagaceiramente envenenados. Eles cantam pneus, fazem fumaça, ouvem música em volumes incondizentes e arrancam em velocidades absurdas. Cadê os olhos da lei?
BR 116, 23 horas, Canoas, em frente ao Xis do Zé, no cruzamento do viaduto da antiga Cautol. Palco de vários "pegas" de carros que vão até tarde da noite. Os carros ficam estacionados num posto obscuro que fica alí perto preparando-se pra correr. Mais adiante há uma parada de ônibus, com gente voltando de Porto Alegre; crianças, jovens, mulheres, praticamente à mercê da destreza de inúteis que passam por alí a mais de 120 por hora. Eu já presenciei a cena mais de dez vezes, só os olhos da lei que, veja só, não vêem nada!
Claro, claro, os olhos da lei não poderiam. Me esqueci que eles estão de tocaia em locais privilegiados à espreita e à espera de perigosos senhores pais de família que oferecem risco à nossa sociedade ao voarem pelas nossas ruas a mais de 57 quilômetros por hora! Avante, homens da lei! Mostrem quem é que manda!

Vamos celebrar a estupidez humana.

De maio a setembro de 2002 houveram cerca de 130 mil multas no RS, significando um volume arrecadatório de mais de 21 milhões de reais. Quantas empresas geram essa receita em 4 mêses? Meu pai terá que pagar R$459,69. Liguei pro disque DETRAN e soube, estupefato, que o benefício do parcelamento da multa só é aplicado aos infratores que têm multas anteriores vencidas, ou seja, quem é correto, nunca foi multado antes e sempre honrou com suas dívidas tem que se foder e pagar tudo numa paulada só. Gostaria de saber quem são os cretinos que fazem e os filhos da puta que aprovam tais leis.



......


Ando meio em crise criativa!

Encheção de saco essa propaganda política na TV. Não bastasse que temos que desligar a televisão de tarde e de noite, de umas três eleições pra cá todo o intervalo comercial traz drops de propaganda política, com aqueles candidatos que não são dignos de pleitear ser síndico de prédio de três andares, quanto mais preencher uma vaga na câmara dos deputados. Esses dias vi que o (*) é candidato. O (*) é dono de um lance que é bem conhecido na zona norte de Porto Alegre. Ele é competente no que faz, mas puta que pariu, aquele cara é uma anta caminhante! Aliás, qualquer um pode ser candidato a qualquer cargo político, com o agravante que qualquer um vota, logo, a palhaçada está formada. E chega desse papo.

(*) resolvi ocultar o nome da criatura porque, sabe cumé, é fácil pra eu acabar me fudendo por causa disso...

...

Foda é tu ir pra faculdade, que é privada, come teu dinheiro, e meia dúzia de vagal do fundão querer ver filme no ginásio de esportes. Pior: "A Paixão de Jacobina"!!! vão se foder! Vão se foder todo mundo!!!!!!!!

...I'm the backwards traveller....

...

Bah, e aquele maluco que entrou armado na Atlântida e forçou o apresentador a rolar o CD dele na íntegra? Muito engraçado, tenho certeza que o acontecido contou com a secreta satisfação de muito músico que não consegue espaço. Mas o lance é correr atrás! E fazer boa música, pois o som do cara era uma merda...


Críticas, sugestões, textos, antrax: mulatas@terra.com.br

Lista, ou grupo, ou o que você entenda que é: mjcgroup-subscribe@yahoogrupos.com.br

Mande também uma mensagem para esse e-mail que não existe: frijgerew@hebonuz.com

ICQ da redação do Mulatas: 125549008

==== / ====

Casulo 14 - O Portal das Averiguações Noturnas
Fábio Luis Emerim

Aqueles dias em que nada vem à cabeça - ou meu própio brainstorming sozinho

Daí o cara pega um café preto, outro, outro. Liga a TV pra ver o que tá passando. Dia úmido, meio frio, meio quente. Vontade de dormir por 45 dias. A cara da Luciana Genro não pode ser verdadeira. Aquele cabelo dela é transgênico, não é possível. Tem candidato sapateiro, candidato protético, patético, protéico, calça boca de sino, pantalona larga. O Vieira da Cunha tenta, mas não consegue me passar seriedade, incrível. Café preto. Tem gente que ainda cita Jango e Getúlio Vargas. Outros só faltam citar Hitler. Lembra daquele candidato gay de Pelotas que apareceu no acampamento farroupilha semana passada? Foi expulso de lá, quase linxaram o cara. Também vai ter idéia de girico assim na casa do caralho.

...

O Yellow tava doente. Problema de pulmão, segundo ele. Também fuma que é um desgraçado! Tava me contando que foi numa formatura que a festa depois mais parecia um pesadelo. A começar pela banda, daquelas que animam bailes de formatura, sabe? A burguesia tem um mau gosto do caralho, como é que pode?
Burguesia: grupo social de pessoas que gastam seu bom dinheiro para mostrar o que não são para pessoas que não gostam. Além do agravante de assistirem Hebe.
Eu não queria ser burguês, mas queria ter dinheiro. Ah, dinheiro... o que eu faria com muita grana? O que é muita grana? A idéia de muita grana pra mim é diferente do conceito que o Gerdau tem de dinheiro, por exemplo. Mas o que impora? Aliás, por que eu to dizendo isso?

...

Assim, ó, to com coceira nos dedos de tanta vontade de tocar de novo. Meu baixo tá parado com as cordas frouxas pra não empenar o braço (explicaria, mas não to com saco). Tenho que reativar algo. Em outubro to indo pra casa do Fabian em Passo Fundo pra gente gravar um CD novo.

E as malditas idéias ainda não rolam. É isso que chamam de crise criativa? Preciso de mais café.

I need a motivation...

....

Eu - Por gentileza, gostaria saber a respeito de multas, meu pai foi multado por um pardal, eu gostaria de saber sobre parcelamentos.

DETRAN - Blá, blá, blá?

Eu - Er...57 quilômetros por hora...

DETRAN - Blá, blá, blá, blá...

Eu - Ahã...eu queria saber se posso parcelar!

DETRAN - Blá, blá, blá, blá, blá!

Eu - Mas por quê? Ele nunca foi multado antes, ele não pode ter um benefício?

DETRAN - Blá, blá, blá!

Eu - Quer dizer que quem já tem multas acumuladas pode parcelar, e quem sempre foi correto e está recebendo uma primeira multa não?

DETRAN - Blá, blá!

Eu - Não dá pra levar essa gente a sério...

....

Projetos que não mereceram ser continuados:

Lucy In The Sky With Paixão Cortez (uma viagem psicodélica num T2)

"The magical mistery tour
Is waiting to take you away
Waiting to take you away..." (Magical Mistery Tour, dos The Beatles)

Poucos sabem, mas em 1967 Paul McCartney esteve com John Lennon em Porto Alegre de férias. Naquela época, todos em Londres sabiam que a agência de viagens Alberston & Alberston era a maior furada da história. Todos, menos Lennon e McCartney, que, ofuscados pela mídia, que não os deixava em paz nem pra cagar, resolveram fugir pra algum paraíso tropical com tetudas, muito mambo e tchá-tchá-tchá. E pra que pensar muito? Nada melhor do que um país da américa do sul, com muitas praias e com a capital mundial do Tango, Buenos Aires: Brasil.
Os caras tinham acabado de gravar Sgt. Pepper's, o álbum que mais tarde revolucionaria a indústria fonográfica mundial. Depois de um LSD cada um, os dois entraram na Alberston & Alberston, fecharam um pacote pra cidade que tinha um porto e alegria, fizeram as malas e foram pro aeroporto. Paul levou apenas uma mala de mão, Lennon quando perguntado no check in se ele ia checar a mala disse que "não, Yoko vai ficar em casa".

Coisas Que Não Compensam

[da série: qual a vantagem de ser Reinaldo Gianechinni se é pra comer a Marília Gabriela?]

Tu estuda pro vestibular. Te mata um ano inteiro pagando cursinho, porque quer UFRGS, 34 por vaga. Passa. Mas fica janeiro e fevereiro estudando porque fizeram greve. Greve todos os anos. Tu te forma com 43 anos. Há 12 sem ir pra praia.

Outra: tu não estuda muito e passa numa faculdade privada. 125 por mês cada cadeira. Faz uma por semestre; resultado: tu te forma com 43 anos de idade, sem nunca mais ter ido pra beira do açude, por falta de dinheiro e a mulher tá grávida do terceiro guri.

(não continua)

==== / ====


Cartas

Queridos amigos

Achei de extremo mau gosto aquele poema "Deus Omnia Purgat", onde uma caganeira é relatada em seus detalhes. Que nojo! Por que vocês não mudam um pouco o tom das bobagens?

Américo Luis

Fortaleza - Ceará

É mesmo, Américo! Tens plena razão! Também achei um mau gosto horrível relatar detalhes de uma desinteria! Eu mesmo me senti mal, sabe? Comecei a sentir o suco gástrico subindo meu esôfago até transbordar em um quente e ácido vômito sobre minhas pernas! Quase desmaiei ao ver aqueles restos de comida amarelado mais parecendo com uma arte abstrata sem sentido! Aquele gosto amargo de meu íntimo sistema digestivo jazia, secando, em minha calça nova. Odeio esse tipo de nojeira!

....

Editores

Por quê?

Lancelot direto de Londres

Me irritei, agora! A partir desse mail vou responder somente em poemas:

Perguntaste porquê / esperando reposta / te digo o quê / tua vida é uma bosta / pois pra escrever tal pergunta / das duas, uma / ou és um cara de bunda / ou sósia do Romeu Tuma

....

Olá

Gostaria de saber como eu consigo números anteriores.

obrigada

Rita - Rio De Janeiro

O passado perturba / incomoda e some / queres saber de coisas passadas / ou estás a procura de ôme? / quem tem essa preocupação anormal / deve estar com problemas / ou é falta de cópula anal / ou tem que comprar novos bleumas

....

Caro Fábio Emerim

Sou psiquiatra e gostaria de oferecer meus trabalhos para tentar recuperar a sua sanidade mental.

Só responder

Eduardo Hartmann Jr

Porto Alegre RS

Ora vejam vocês / que horror a mente humana / pensa ser demais amiga / além de ser tão mundana / mas quer entrar sempre numa briga / quer manter a vez e a voz / une e desune num piscar de olhos / acha-se semente de butiá e casca de noz

....

Amigos

Sou fã de vocês! Adoro suas aventuras! Adoro suas estórias e textos !!!!
Um abraço!

Eloá

Curitiba- PR

Ao arbusto em ti identificado / mostra a mão e sai cagado / ouve a ti mesmo e fique perturbado / demonstre a fúria rebelada num bilhete sobre o armário / outrora mal lembrado / outrora bem enfeitado

....

Prezados senhores

Sou pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. Ungido, graças a Deus pela glória de nosso Senhor Jesus Cristo pela sua Honra e sua glória! Peço, encarecidamente, que párem de ataques infundados a esta tão maravilhosa organização que fez com que minha vida mudasse pra melhor e ter uma família abençoada sob a luz Daquele que tudo pode, que é Deus! Aceite Jesus em sua vida e tudo mudará.

Pastor Andrada

Florianópolis - SC

Pediste esmola ao pedinte / subiste ao alto da montanha bonita / curraste a caturrita / emolduraste a tua própria sabedoria / envenenaste a mãe das gurias / em ti grita o satanás? / em ti ilumina a santa ceia? / em vez de começar, termina / em vez de iniciar / pega na minha peia

Mande sua carta com críticas, opinião, elogios, dinheiro para: mulatas@terra.com.br


==== / ====

Cachimbo-Urubu , suas vidas e idas (III e última parte)
Fábio Luis Emerim

Uma semana antes de JFK visitar Dallas, fui mandado para lá pra largar água benta em todas as esquinas da cidade. Tarefa árdua, pois Dallas é uma cidade onde há muitas curvas, ruas compridas e esquinas poucas. O que eu não falei pro presidente, é que na Elm Street acabou meu produto bento e tive que pegar um pouco de uma torneira do banheiro de um depósito de livros em um edifício alí perto. Eu tinha conseguido a confiança da família Kennedy quando JFK ficou sabendo que eu tinha fugido de Cuba e sabia que a máfia queria sua cabeça, pois não tinha tido coragem de mandar matar Fidel. Isso mesmo, como Kennedy contou com a ajuda da máfia pra se eleger, a Cosa Nostra teria pedido, como troca, que o presidente dos EUA detonasse com Fidel Castro antes que o revolucionário tomasse conta da ilha fechando todos os cassinos de lavagem de dinheiro dos capones. Como JFK se cagou e na hora deu de ombros para o pedido dos mafiosos, foi jurado de morte. Isso tudo eu sabia que ia acontecer, pois Exu-Aranha confidenciou-me em sonho. Então, sabendo que algo terrível poderia acontecer, o homem pediu que eu abrisse os caminhos.
Aliás, ele sempre me pedia pra abrir caminhos, quando todo mundo, menos a Jackie, pensava que ele comia a Marilin Monroe, eu desfiz a fofoca colocando a quele falso namorado da atriz numa festa da Casa Branca. Todo mundo inquietou-se. Aliás, ele nunca comeu a Marilin, quem comia ela era eu, mas creio que isso não fará a menor diferença agora. Aliás, o John Kennedy já estava dividindo uma amante com o mafioso Sam Giancana, um detalhe que eu sempre achei que ia acabar em morte.

Na manhã do dia 22 de novembro, 1963, eu estava fazendo pela décima vez o caminho que o presidente percorreria nas ruas de Dallas. A única coisa que me intrigava, era que o lugar onde eu passei a "água não benta", era um lugar muito amplo, próximo a um túnel embaixo de um viaduto e com uma pequena parte arborizada, com grama e tal. Na hora do desfile, eu tinha me esquecido que tinha deixado a garrafa que continha a tal água benta falsa no banheiro do edifício do depósito de livros quando eu tinha subido pra, digamos, fazer necessidade. Lá no banheiro tive a idéia de pegar mais água, pois tinha muita rua pra abençoar. Daí chamei um cara que passava por alí, meio calvo que fumava cigarro. Perguntei seu nome e ele disse "Oswald". Mostrei minha identificação como do comitê de JFK e pedi que buscasse a garrafa no depósito. Coitado, o Oswald, apenas querendo ser prestativo, acabou por principal suspeito do assassinato de John Kennedy. Todos apontavam que o tiro fatal teria vindo do andar do depósito de livros. Eu saí dalí de fininho. Aliás, saí dos EUA de fininho, principalmente depois que apagaram o pobre do Oswald.

Vim pro Brasil em 63 mesmo, fui morar em Brasília, onde fui mentor espiritual de Janio Quadros. Lá vivo até hoje onde atendo num 0800 sobre astrologia, numerologia e búzios, afinal de contas, alguém precisa dar um jeito nesse país...

==== / ====


Retorno hesitante: Coluna de Borvaz Sarsa (20)
por Borvaz Sarsa [como Ermenegildo Fontana]


Mar de Dirac
Uma vez, tendo lido um conto que me tocou bastante eu estava em um anfiteatro esperando pelo início de uma aula, quando aconteceu algo que me lembro bem. Um daqueles eventos que, embora não seja realmente significativo, não tenha realmente causado grandes repercussões, a gente guarda, mais como um emblema de um conjunto de coisas. De uma época.

Esse conto primeiro: Ondulações no Mar de Dirac, de Geoffrey Landis. Se eu não falar do que se tratava, não creio que possam acompanhar. O conto era muito bem engendrado, curto, cheio de saltos narrativos. O autor usou um símbolo conhecido, os anos sessenta: a época da inconseqüência, do viver o dia-a-dia pelo prazer, sem pensar no futuro. De não se preocupar com o legado.

Então o autor criou um personagem que não tinha escolha, que era incapaz, mesmo que quisesse, de deixar sua marca na história e o colocou lá, vivendo com os hippies que escolhiam viver de uma forma que ele era obrigado. Para o resto do mundo ele era uma sombra: um cientista obscuro falecido em um incêndio em um quarto de hotel as vésperas de anunciar sua maior descoberta: como viajar para o passado.

No conto ele não havia realmente morrido. Havia fugido para o passado. O homem está preso pois sempre deve voltar ao quarto de hotel em chamas, sem chance de salvação. Tudo que ele vive a partir de então é tempo emprestado, todas as conseqüências de seus atos são imediatamente apagadas quando ele retorna ao ponto inicial de sua viagem. Ele não pode mudar os eventos que um dia irão conduzir à sua própria morte. Para o mundo ele já está morto. O recurso que o autor usa para isso é uma maquina do tempo o que torna este um conto de ficção científica. O tema, entretanto, é outro: legado, conseqüências.

A partir do evento no hotel ele pode refazer sua vida a vontade, como quiser, morrer de mil formas, participar de todos os eventos históricos conhecidos mudando aparentemente os rumos da história. Pode até mesmo avisar a si próprio no passado antes que tudo aconteça. Nada altera o passado real. O universo modificado em que ele vive, qual fora uma alucinação, é só dele e, tão logo ele chegue ao momento presente, está de volta no quarto em chamas.

Ele pode enganar a morte por muito tempo, de diversas formas, mas, com todas as possibilidades que tem, ele retorna sempre ao mesmo grupo de hippies nos anos sessenta, e revive com eles diversas variações sobre a mesma história. Uma história que não lhe pertence. Numa busca obsessiva de significado, de se identificar nas pequenas mudanças que poderia imprimir as vidas daquelas pessoas.

Eu estava absorto no significado do conto quando chegou minha colega de então, sentou-se a meu lado e perdida em uma linha de pensamento que era só sua disse: Você já se perguntou como seria mudar seu passado? Já se arrependeu de algo?

Eu então sorri, e respondi: ¨De cada dia de minha vida.¨

O engraçado é que na época era realmente como eu me sentia.

Se eu hoje pudesse voltar aquela época, provavelmente apenas aproveitaria para avisar minha versão mais jovem que a Isaac Asimov Magazine só duraria até o número 25. Para lhe poupar a decepção.

Antes que me perguntem: Não, não sei do que ela se arrependia.


Luc

ía
Aquele dia de verão, naquele anfiteatro lotado, me voltou a cabeça recentemente por uma boa razão: na sexta-feira passada, fui assistir Lucía e o Sexo, de Julio Medem. A ligação que existe é que este filme lida exatamente com os mesmos conceitos do conto, desde o título até o final: conseqüência e arrependimento. Legado.

O tratamento do autor, claro, é bem outro.

A partir do título a abordagem é delineada. Lucía não é a protagonista, mas sim o espirito livre, aquela que se deixa levar pela busca da felicidade. O sexo em questão, não é de Lucía, mas um evento específico, um idílio vivido em uma ilha pelo verdadeiro protagonista, Lorenzo. Um acontecimento anônimo e pretensamente inconseqüente, mas que acaba por desencadear uma série de eventos trágicos.

O jogo de oposições no filme é bastante evidente. Lucía assume seus desejos e vontades e com isso consegue arcar com as conseqüências e seguir adiante, chegando em alguns momentos a parecer leviana em suas escolhas. Já o personagem narrador principal, Lorenzo, define sua felicidade como a ausência de dor, o idílio perdido no passado, ao mesmo tempo em que corteja a sua própria tragédia em um mórbido teatro de dissolução.

A simbologia chega a quase ser obvia, o farol que aponta o caminho, no caso de Lucía, uma estrada aberta para o futuro. O buraco no fim da história no caso de Lorenzo. Aquele túnel que lhe permite, em uma fantasia auto-indulgente que conta a Elisa, retornar ao meio de sua própria narrativa e desfazer os erros dolorosos.

O túnel é também uma clara referência ao retorno ao útero, ao medo patológico da tragédia e ao mesmo tempo ao recurso esquizofrênico que permite revive-la sempre e sempre. Medem claramente toma partido.

No começo, o diretor consegue conduzir a narrativa de uma forma bastante competente. O uso de cenas repletas de símbolos freudianos como elementos de conexão entre eventos é interessante, mas a certa altura da história deixa de funcionar a contento. A história meio que se afrouxa, com um excesso de tomadas que não adicionam nada.

O foco excessivo na interpretação psicológica da narrativa, em deixar uma mensagem, torna alguns dos personagens frágeis, quase caricatos apesar das boas interpretações dos atores. A história paralela de Belén, é, por exemplo, mal resolvida e o personagem de Elisa parece passar por três encarnações desconexas ao longo da história.

Tenho dificuldades em atribuir um valor ao filme. Ele claramente não é um veredicto, como de resto abordando tais temáticas é impossível alcançar um. É mais como uma caderneta de anotações onde Medem deixa suas conclusões parciais.

Acho que em parte a narrativa me pareceu um tanto antiga no tratamento que dá a solução psicológica dos conflitos. Sua parcial defesa do hedonismo. Uma certa indulgência com os personagens no final. Isso talvez possa ser atribuído ao mecanicismo simplista da tradição psicológica nos países do terceiro mundo. Ou não.

Talvez o filme pudesse ser menos carregado e pretensioso, mas ainda assim dadas as opções atuais, tem o seu valor. Ainda mais quando em minha última ida ao cinema havia assistido Resident Evil...

Para quem quiser tentar, fica a dica: não é exatamente um bom filme para assistir de casal. A não ser que vocês dois gostem muito mesmo de ¨discutir o relacionamento¨.

Nota de Rodapé

Pois eu já tinha escrito esta resenha quando meu amigo Filipe me indicou Vanilla Sky, que eu incrivelmente ainda não havia assistido. Passei na locadora e peguei.

Surpreendentemente é um bom filme e também é sobre legado. Sobre as conseqüências, as vezes dolorosas do que fazemos. Usa uma outra abordagem também, bem mais leve, neste caso bastante ligada a iconografia pop.

Grande trilha sonora.

¨A fila tem que andar.¨ (a sempre erudita apresentadora Babi nos brinda com o mote existencialista definitivo).

-------------------------------------------------------------------------

Informações: borvazsarsa@zipmail.com

-------------------------------------------------------------------------

Saldos de balanço: Meu baú de Imbuia

Inscrição
Cabelos negros como piche. A face oval e simples. Os olhos redondos e profundos. Faiscava em vermelho pelo campus a jovem Maíra.

E se escrevia por inteiro: seu nome de emes macios e tantos erres cuneigrafados. Precipitando-se em riscos fortes, impetuosos, grafismos quebrados. Imprimia no papel a confirmação de sua existência.

Espalhava sua presença em meneios de cabelos.

Hoje, de dias passados, eclipsada em sua baia, Maíra rubrica a rotina.

Contem comigo até Três...

Um::A Timidez

Quero,

mas temo.

Beijo. Não peço...

Dizes:

Não para!


Dois::A pausa

...e tinha aquele pontinho sabe? Dentre tantos, uma pinta.

Pouco acima do umbigo: à direita.

Que quando eu descia seu corpo em beijos era ali que parava.

Eu pausava, momentos.

E no ar suspenso do instante, nós dois tomávamos fôlego.

Três::A menininha

Chora

Perdida no shopping

colorido.

As lágrimas secam:

Olha a vitrine.

Contempla-se...

...um novo brinquedo.

==== / ====

Movimentos minúsculos
por Inácio Otavio das Dores

Melodia íntima I

Celina era jovem e vivia um casamento falido. O carinho inicial na relação havia sido substituído por um comodismo tranqüilo, alimentado pela necessidade de criar sua filha, de três anos.

A situação se agravara pois Celina havia prestado concurso para agente penitenciária e passado a trabalhar em uma cidade próxima à capital. Seu marido então, se antes lhe parecia possuir um certo charme juvenil, hoje cada vez mais a lembrava dos velhos caipiras de mentalidade interiorana em que era pródiga sua cidade natal na campanha.

Conheceu André em uma saída com as colegas de trabalho para descontrair após o expediente. Trocaram olhares em mesas próximas. Ela recebeu o telefone dele em um guardanapo. Em um dia de plantão tomou coragem e ligou. Conversaram horas.

André era culto, bem lido, fazia doutorado e esbanjava simpatia pelo telefone. Marcaram de se encontrar em Porto Alegre no fim-de-semana seguinte em uma famosa casa de shows no bairro universitário da cidade.

Celina combinou de pernoitar na casa de uma colega e viajou para a capital. Para o marido estava em um curso de preparação qualquer: ia tomar todo o fim-de-semana. Nenhuma novidade nisso.

Ele foi buscá-la para o encontro, era um cavalheiro. Juntos estavam completamente à vontade, fisicamente confortáveis. Ela se sentia envolvida pela conversa, pela vivência, pelos grandes objetivos dele. Dançaram, beberam, riram. Divertiram-se muito. No volume alto da música devoravam-se com os olhos.

Quando a noite chegava a seu ápice, ele contou que morava a poucas quadras dali. Convidou-a para o seu apartamento. Ela o seguiu.

O apartamento era pequeno e bem decorado. André mostrava suas coisas, seus muitos livros, apontava diversos objetos e contava suas histórias. Celina ouvia com atenção. Vê um violão apoiado a um canto. Você toca? Ele diz que sim.

Sentam-se no sofá, conversam baixinho, quase a roçar as bocas, ele dedilha MPB. Demonstra alguns acordes, toca Djavan. Ela ouve de fôlego contido, os olhos plenos de aceitação. Inclina seu corpo, aproxima-se mais.

André lembra de algo, levanta-se de ímpeto e larga o violão. Vai até o balcão, remexe em seus CDs e escolhe um. “Tive uma banda!”, ele diz. ²Chegamos a gravar uma música². Coloca o CD a tocar. A sala se enche com um rock balada. De uma pilha de papéis ao lado do som ele tira uma folha amarrotada e lhe alcança: A letra da música.

Segurando o papel, ainda sentada no sofá, Celina observa André tornar a empunhar o violão e, enquanto acompanha a música gravada animadamente, lhe dizer: ²Vamos lá! Canta junto!!².

==== / ====


Realidade Pleonástica
Telmo dos Santos Abech

O delicto grassa solto na provincia

Um crime de morte ocorreu hontem apos a meia-noute no Becco do Fanha.

Ignacia de Tal, donna de um alcouce no número dezassete daquelle mal affamado sitio, matou a punhaladas sua rival, a parda Gervazia Lima de Souza, que, embora golpeada variadas vezes, ainda conseguio, à busca de soccorro, arrastar-se, todavia em vão, até à esquina da rua da Ponte, vindo a fallecer na porta da tasca do João da Bica, local também conhecido pela frequencia de embarcadiços, desoccupados, vadios e turbullentos de toda a sorte, dessa malta, enfim, que, com a complacencia das auctoridades da Intendencia e da Chefia de Policia, vem infectando Porto Alegre.

Soube-se, por commentários entreouvidos à súcia desqualificada que alli nos maes sordidos officios àquellas horas mortas assistia e que se ajuntou apos o acontecido, que a negra Ignacia, demmonstrando toda a maldade e villania proprias à gente de sua laia e de sua raça, já tinha ammeaçado, não uma, senão que varias vezes, pôr para fora as tripas da ammasia do marido caso os soubesse ou visse junctos.

E hontem foi só o caso de encontrarem-se naquelle antro, na hora em que as pessoas de bem já de ha muito se deviam haver recolhido ao recesso dos lares, para que a cousa se desse.

A criminosa, depous de ferir mortalmente a rival, andou apenas alguns quarteirões, sendo dettida e presa pela guarda civil na Rua da Praia, entre a Rua Clara e o Becco dos Sete Peccados Capitaes, quando batia ao cortiço em que seu irmão, o carroceiro de alcunha Vinte-e-um, se installara fazia uns dias, para acoutar-se no intervallo dos biscates.

Já o pivot do crime, Manoel dos Passos, alferes lotado no Oitavo, encontrava-se, naquella hora, inteiramente alheio ao occorrido, a beber garapa a uma taverna do Becco do Céo, em companhia da escoria e do mulherio que invariavelmente àquelle local accorre, vindo principalmente da General Paranhos, dos immundos e infames casebres do Becco do Poço.

Agora, com a Ignacia na Casa de Correcção, as famílias das imediações é que terão motivos para exultar; não so as pessoas de bem residentes na Rua da Praia e na Rua da Ponte, proximidades do malsinado conventilho, vão poder dormir maes descansadas, sem que sejam allarmadas em plena madrugada pelos sarilhos armados na frente da tal casa (que, sem a donna, decerto terá pelo Dr. Leite, distincto dellegado titular do primeiro Districto, suas portas fechadas), como também as senhoras poderão ir à tardinha a comprar suas fazendas e a buscar seccos e molhados aos talhos e armazens sem cuidarem de cruzar a vista com essa gaja de tão baixa extracção e de arriscarem-se a esbarrar com ella e virem-se a comprometer e corromper ouvindo-lhe algum dicto ofensivo a moral e outros que taes. (Edicção de 18/9/1898)

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

Publicamos abaixo, de auctoria do Dr. Epaminondas Paranhos, distinctissimo e emmerito collaborador, o soneto especialmente composto para esta edicção de A Gazeta:

SONETO DO DESPREZO

Morbido, obsceno, pallido e abjecto

De estranhos vícios podre e consummido

Em monstruoso ventre qual um feto

De vil materia foste concebido

Vieste à luz decerto prematuro

E já à luz mesma foste offensivo

Ao teu redor devia erguer-se um muro

Que aos olhares te fizesse privo

Não sei por que ainda me importo

Co’ o immenso nada que tu significas

Pois és p’ra mim não maes do que um aborto

Nesta existencia de cousas tão riccas

Nem tem alias sentido algum que eu fale

De quem nem mesmo este soneto vale.

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

==== / ====

Sou Julián Catino, o novo editor do Mulatas!


Farei a coluna "Minuterias", ou "sabedoria de botequim em gotas
ácidas e amargas".
Terá, por agora, quatro mini-seções, e para que nas próximas seções
fique claro, como bem as revistinhas de moda de adolescente dividem,
"o que pode e o que-não-com-bi-na",as quatro seções são as seguintes :

Minuterias news: pingos de notícias da net ou observações daquilo que
a mídia nem vai se importar e que me parece relevante.

Minuterias nerd: sendo um membro da classe nerd, não posso deixar
de falar deste mundo de conclusões bizarras e desprezíveis,
curiosidades da informática ou fotos Kirlian do meu video-cassete.

Minuterias mirror: reflexões relevantes deste mundo opaco.

Liquid Minuterias: gotinhas de sabedoria ácida da boa.


Minuterias news --- Minuterias news --- Minuterias news ---

Em 9 de setembro, Peter Gabriel lançou o single "Barry Williams
Show", do disco "Up" que será oficialmente lançado em 23 setembro.

"Barry WIlliams Show" deve estar inspirado no Ratinho,
pois com uma poesia sutil mas enfática, PG descarrega devagar e
sempre uma crítica impiedosa contra a banalização da vida dita ´real´,
explorada por reality shows, programas de auditório e reportagens com
câmeras ocultas.

O video foi dirigido por Sean Penn; infelizmente não consegui ainda
vê-lo inteiro, mas a letra deixa clara a crítica ao tipo de circo em
que os meios de comunicação populares estão explorando a vida diária
das pessoas mais bizarras e extravagantes.

Não há os grandes efeitos dos videos de dez anos atrás de Peter
Gabriel,
mas acho que nessa caso não caberia. As inovações técnicas
foram trocadas pelo estética crua para colocar em primeiro plano o
tema central da canção.

Obviamente, nossa corajosa MTV deve passar o vídeo após as 21:30,
o que é um contra-senso, já que o Gugu Liberato consegue ter seus
programas em pleno domingão à tarde.

Para os mulatos que queiram disfrutar da letra da canção,
podem entrar em http://www.petergabriel.com, e no fórum do
Full Moon Club a encontrará, ou pode solicitar à redação deste
humilde zine, que gentilmente a enviará sem custos adicionais.

Não esperem que a mídia divulgue grande coisa.

Minuterias nerd --- Minuterias nerd --- Minuterias nerd ---

Genivaldo - você não acha irritante quando as pessoas não respondem a
sua pergunta e se esquivam em evasivas ?

Maicon - Depende.

Minuterias mirror --- Minuterias mirror --- Minuterias mirror ---

O que queremos afinal vendo a intimidade de todos,
uma exposição ao ridículo, um desfile de desesperados pela fama dos
quinze minutos ?

Os meios de comunicação não são vilões que desejam o nosso mal nem
coisa parecida.
É somente uma questão de interesse público, e nisso não há culpados.
Mas sim há tendências onde a única grande protagonista é a banalização, é o fato
de mostrar fatos bizarros pelo simples fato de serem bizarros. E
assim como em "O Homem Elefante", podemos estar transformando em monstros a pessoas
que na verdade são a poesia da nossa espécie.

Ok, posso estar soando moralista, e podemos simplesmente falando de
um grande ´show´ inocente. Mas quando todo um sistema fica mais rico explorando as
esquicitices de anônimos bizarros, temos o problema de incentivar esse tipo de
culto ao bizarro, que acaba por refrear qualquer tentativa de valorizar o
cotidiano.

==== / ====

Versos Soltos
(poemas azuis)

Versos presos ...

...prisão de ventre / ventre livre / sempre livre / modes sujo / boca murcha / cólom e útero / vagina e sangue / pentelho / suco / lambe-lambe / amor poeta / poesia púbere

Aniquilando Yolanda...

...primeiro os braços / depois os traços / segundo a perna / depois a outra / costuro a boca / arregaço a orelha / arranco os dentes / amarro na cadeira / a tarde inteira / deploro sua vivência / uso de violência / declaro-me a Yolanda

==== / ====

"Pra essas éguas da cidade não há cabresto nem palanque"

(Maneco Terra, no romance Ana Terra, do grande Érico Veríssimo)

***** As Mulatas de Jesus Cristo - número 64 - 20/09/02 *****

-Staff:

-Fábio Luis Emerim (eu)
-Roberto Yellow Moschen Jr. (é um puto, nunca manda a coluna!)
-Borvaz Sarsa (ele mesmo)
-Julián Catino (debutando)
-Telmo dos Santos Abech (é competente esse rapaz)

-Colaboradores dessa edição:

- Berna, a Bermida Desfilanda
- Inácio Otávio das Dores


Não foi utilizado nenhum tipo de droga pesada na realização dessa edição.

Este e-zine não contém glútem, conservante, estupefaciente, flaviocavalcante e nenhum veneninho bão.

http://www.mulatasdecristo.hpg.ig.com.br/


* ICQ: 125549008

* Lista: mjcgroup-subscribe@yahoogrupos.com.br

Caso queira cancelar sua assinatura, mande um mail para mulatas@terra.com.br com o assunto CANCELA, mas não faça isso, pois que sentido teria a sua vida?

As Mulatas de Jesus Cristo® (não é registrado mas a gente mente que é, fica bonitinho o ®, né?)
Desde 2001
E-zine semanal - todas as quintas-feiras, quentinho procê na sua caixinha de e-mails. É de graça e sem contra-indicações. Direto de Canoas/RS - Brasil.