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As Mulatas de Jesus Cristo
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As Mulatas de Jesus Cristo

especial
***A Mulata Escatológica***
nº 65 - Canoas - 27/09/2002
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SUMÁRIO

EDITORIAL Fábio Luis Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS Fábio Luis Emerim
DE SUPETÃO Roberto Moschen Yellow Jr
EVIL AS HELL Bruna Maia
REALIDADE PLEONÁSTICA Telmo dos Santos Abech
FÁBULAS EM DESATINO Jade Duna
VERSOS SOLTOS Fábio e seus alter egos


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EDITORIAL
Fábio Luis Emerim


Escatologia [De escat(o)- + -logia.]
S. f.
1. Tratado acerca dos excrementos.

[De escato- + -logia.]
S. f.
1. Doutrina sobre a consumação do tempo e da história.
2. Tratado sobre os fins últimos do homem.

Somos o final da cadeia alimentar.

A escatologia está presente em nossa vida assim como o sabonete e o banho. Só você não percebe,- assim como o próprio sabonete e o banho, que passa batido quando a patroa não vê. Ao praguejar, ao achar ruim, ao ligar a TV, enfim, em pelo menos um momento no dia lá está a realidade escatológica correndo-nos perna abaixo.
Os alemães têm tratados a respeito da merda. Dizem que Hitler era coprofágico, alimentava-se de fezes. Não duvido, pois pra sair tanta merda daquela cabeça, só se a criatura estivesse entupida de matéria fecal da boca até o cu. Eu até arrisco a dizer que a família Bush é seguidora de tal prática.

Um exercício interessante é tentar listar quais figuras populares de hoje em dia são possíveis come-merda. A começar pelo povo brasileiro, que é obrigado a digerir cocô 24h por dia. A impressão que dá ao fazer um apanhado do tipo de lixo que nos é empurrado goela abaixo, é que está sendo criado um círculo vicioso de produção e alimentação fecal onde ou alguém puxa a descarga de uma vez, ou estaremos todos perdidos. Ambas as alternativas são assustadoras. Tudo é passível de ser taxado como merda. Por exemplo; como está o atual quadro político brasileiro? R - Uma merda!
Como está a corrida pela presidência?
R - Uma merda!
Como é a programação dominical televisiva?
R - Uma bela merda!
Qual o nome daquele bar tri bom lá da cidade baixa mesmo?
R - Que merda, me esqueci...

Eu sei que o editorial tava uma merda, mas dane-se, um cocozinho em meio a tanta merda torna-se até simpático!

Com vocês:

A Mulata Escatológica

Críticas, sugestões, textos, antrax: mulatas@terra.com.br

Lista, ou grupo, ou o que você entenda que é: mjcgroup-subscribe@yahoogrupos.com.br

Mande também uma mensagem para esse e-mail que não existe: frijgerew@hebonuz.com

ICQ da redação do Mulatas: 125549008

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Casulo 14 - O Portal das Averiguações Noturnas
Fábio Luis Emerim

"João Kléber é uma merda /
Jota Quest é uma merda /
Gugu Liberato é uma merda /
e eu mesmo não ando cheirando muito bem..."

Lili estava na parada, parada.
Esperava o ônibus.
Era 6:45 da manhã e a aula começava às sete.
Atrasada. desesperada.
E nada do linha 53 chegar.
E pra piorar a manhã, uma caganeira que a forçava a engolir seco.
Suava frio, as mãozinhas - doces mãozinhas - apertavam-se contra seu ventre.
Em um momento sentiu uma lágrima correr em seu olho esquerdo.
Uma linda criatura daquelas não poderia fazer cocô.
Mas a natureza gritava.
As tripas esculhambavam-se em retorcidos espasmos gasosos ocos e inflados.
E nada do 53 chegar.
Se quisesse ir ao banheiro em casa, as duas quadras forçar-lhe-iam a abaixar-se, vergonhosamente, atrás do muro da farmácia - isso se não estivesse já aberta.
"O que não faria por uma fralda...", pensava, triste, arregalando os olhos para o relógio que avisava sem dó que dez minutos já haviam passado.
Deu que cagou-se no ônibus.
Correria total. Nojo geral. Vômitos e reclamações.
Cagou-se Lili dos olhos ternos. Mas cagou-se com um sorriso de satisfação.

...

Gostaria de expressar meus mais dilatantes espasmos e cumprimentar os mais novos colunistas deste maravilhoso e-zine: Julián Catino e Bruna Maia. Jovens idealistas, bons de caneta, grosseiros, escrachados, com bom humor, bom gosto e, obviamente, também doaram seus oboés para obras de caridade. Bem vindos mais uma vez, em nome de toda a equipe do staff mais estranho da história dos zines...

...

Não dá medo o Pedro Simon com aquela cara dele?

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De Supetão de Merda
Roberto Moschen Yellow Jr

A Escala Bristol da Forma das Fezes

O ideal é o Tipo 4, que não deixa aquela sensação desagradável de que
algo ficou para trás.

Tipo 1 - Pedaços separados, duros, como amendoim;
Tipo 2 - Forma de salsicha, mas segmentada;
Tipo 3 - Forma de salsicha, mas com fendas na superfície;
Tipo 4 - Forma de salsicha ou cobra, lisa e mole;
Tipo 5 - Pedaços moles, mas contornos nítidos;
Tipo 6 - Pedaços aerados, contornos esgarçados;
Tipo 7 - Aquosa, sem peças sólidas.


Escreva para o Mulatas e nos diga qual o tipo de fezes mais comum na
sua produção diária. A falta de dados científicos nesta área é
extraordinária. Pouco se sabe, por exemplo, do porquê da coloração
amarronzada, ou por que algumas fezes bóiam e outras afundam. Não se
tem uma estimativa estatística do tempo que as pessoas passam no
banheiro, ou de quantas vezes se vai a ele por dia.
Dica: procure fazer o esforço de expulsão (prender a respiração +
contração do colo) em pequenos períodos. Longos períodos podem causar
hemorróidas ou mesmo prolapso retal, sendo que este último dá a
sensação de que algo persiste na "saída" e então continua-se o
esforço, piorando o problema.

Para alternativas do uso das suas fezes, experimente ver "Salò, 120 dias de
Sodoma", do Pasollini. Um filme didático que nos ensina a olhar sem
tabus para este quente e pastoso produto diário de nossa digestão. Lá
encontram-se dicas de alimentação para mudar a textura e o cheiro, de
forma a nos brindar com uma refeição diferente e estimulante do ato
sexual.

Recomenda-se a leitura dos textos desta edição antes ou durante as
refeições. De acordo com testes realizado pelo MIT, eles são capazes
de auxiliar a digestão aumentando em cerca de 30% a capacidade de
absorção e processamento dos alimentos por parte do leitor ou
ouvinte.

Boa cagada.

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Evil as Hell
Bruna Maia

COISA NOJENTA É A MÃE!

Alberico Bastos Almeida, Almeidinha entre seus colegas de repartição, era
o típico exemplo de homem comum e bem estruturado. Tinha uma casa com pátio,
uma mulher, conhecida como Dona Fefa, dois filhos, o Juca e o Zeca, de 8 e 10
anos respectivamente, e um trabalho na prefeitura, onde ficava o dia inteiro
despachando documentos com um carimbo rançoso e colando as coisas com durex.
Não importava que tipo de coisa. Podia ser uma régua, a caneta, a gaveta, ou
ate a mesa, o que quer que quebrasse. Mas isso não afetaria a aparente
normalidade do Almeidinha, pois todo mundo que trabalha em escritórios tem
uma tara por colar coisas com durex. Ha ate quem inconscientemente quebre as
coisas só para cola-las com durex.
De fato, o Almeidinha era tão estruturado, que tinha ate um cachorro
chamado Tobby, assim mesmo com dois bês, e um colega, na verdade um grande
amigo com o qual convivia nos seus 20 anos de repartição, o Barbosa. Todo o
funcionário publico com 20 anos de repartição tem um amigo chamado Barbosa, e
o nosso herói (herói?) não era exceção.
Todo dia, quando estavam no horário de almoço, eles iam ao bar do
Juvenal, um português tipicamente lusitano, e comiam um sanduíche de presunto
com guaraná Brahma. Eles, sentados naquele balcão passaram as mais diversas
situações de suas vidas. Foi para lá que o Barbosa foi para comemorar o
nascimento do seu filho, o Tuco, e foi lá onde o Almeidinha chorou e se
lamentou, confessando ao Barbosa a única vez em que traiu a Dona Fefa, no
carnaval, com aquela ruiva, a Marcinha.
Formavam um contraste interessante, enquanto o Almeidinha era magro e
franzino, com uma cabeça desproporcional e uma testa ampla, o Barbosa era
gordo, quase obeso, com principio de calvície, os olhos saltados e um
legitimo suarento, suava por todos os poros, tendo aquelas nojentas marcas de
suor embaixo do sovaco, conhecidas como `pizza`, as cadeiras em que sentava
ficavam viscosas de suor. Havia outras diferenças, o Almeidinha era colorado,
só comia churrasco bem passado, tomava café fraco com adoçante e era fa de
filmes japoneses, já o Barbosa era gremista, só comia churrasco se da carne
escorresse sangue, seu café era forte, algo parecido com óleo diesel, e
levava cinco colheres de açúcar, tendo como ídolo o Van Dame. Apesar dessas
pequenas diferenças, eram grandes companheiros, e juravam não esconder nada
um do outro.
Mas o Almeidinha escondia. Ele tinha um segredo dele, e só dele, ninguém
mais sabia: uma coleção bizarra, e um hobbie artístico mais bizarro ainda.
Tudo começou quando aos 5 anos, brincando com uma espátula de manicure da
sua mãe, enfiou-a no ouvido e ao tira-la veio junto uma cera. Ficou fascinado
por aquela massa disforme, amarela e peluda. No mesmo dia, enfiou o dedo no
nariz e tirou um tatu, bem verde, seco e grande. Ficou horas observando
aquelas massas bisonhas.
Dai que surgiu a idéia de colecionar as matérias secas que saiam do seu
corpo: guardava, onde ninguém pudesse ver, seus tatus, pus, remelas, unhas,
cascas de ferida, rosquinhas de suor, dessas que surgem nas dobras mais
inusitadas em dia de muito calor, enfim quase tudo. Só não guardava vômitos,
urina e fezes porque não eram propriamente matérias secas. Talvez as fezes
até fossem, mas não faziam seu tipo. Com o tempo começou a arrotar dentro de
saquinhos plásticos (que lacrava com durex, lógico), só para guardar seus
arrotos, que não eram matéria seca, mas tinham algo de musical. Com os gases
em geral, fazia o mesmo.
Mas a sua maior fascinação ainda era a cera de ouvido. Vibrou quando
ouviu sua mãe dizer que iriam se mudar para o Sul, pois tinha ouvido falar
que em lugares frios se produz mais cera.
Gostava tanto que passou a fazer esculturas de cera (de ouvido mesmo).
Fazia todo o tipo de figura, desde ninfas ate flores, passando por uma Vênus
de Milo, em replica perfeita, e o pior, em tamanho natural! Ele mantinha um
apartamento secreto onde guardava sua coleção e fazia suas obras primas.
Almeidinha não contava a ninguém, não porque achasse nojento, mas porque
achava que suas criações e seu acervo eram por demais delicados para serem
vistos por olhos incultos, e todos os olhos eram incultos diante daquelas
imagens, inclusive os seus profanavam aquelas maravilhas! Sim, era preciso
proteger suas pérolas de todos os bárbaros!
Mas eis que um dia, o Barbosa o vê entrando no seu secreto ateliê. A
principio pensa tratar-se de um consultório medico, dentista ou coisa assim.
Mas então, aflorou sua antiga paixão por dona Fefa, e veio acompanhado disso
a raiva de não saber desse detalhe da vida do amigo. Barbosa estava convicto
que o Almeidinha mantinha uma amante, que traia aquela coisa fofa da Dona
Fefa, e o pior, não contava pra ele!
A indignação do Barbosa era tanta que ele resolveu pegar o amigo no
flagra. Um dia esperou ele se dirigir para aquele `ninho deleitoso de
luxuria` e seguiu-o. Deu um tempo, arrombou a porta, e viu então a cena mais
insólita de sua vida: o Almeidinha nu, tirando cera do ouvido, tatu do nariz,
e, em vez de beijar uma mulher, ele beijava sua Vênus de cera.
A única coisa que Barbosa conseguiu balbuciar foi: ``- Caramba ,
Almeidinha! Que coisa nojenta!``
Almeidinha, injuriado por ver seu segredo revelado e sua obra difamada,
saiu correndo atrás do mal feitor, pelado pela rua, e gritando: `` Coisa
nojenta é a mãe! Coisa nojenta é a mãe!``
Ele chegou ate a pegar o colega e espanca-lo, sempre berrando: `` Coisa
nojenta é a mãe! Coisa nojenta é a mãe!``. Ate ser levado para o manicômio,
de onde nunca saiu.
Ate hoje, 5 anos depois de sua morte, ha loucos que dizem ver o
Almeidinha correr pelado pelo pátio e pelos corredores, sempre gritando: ``
Coisa nojenta é a mãe! Coisa nojenta é a mãe!``

FIM (OU NÃO)

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Realidade Pleonástica
Telmo dos Santos Abech

Historieta escatológica


Do doutor Cândido, médico, membro ilustre do Lions de Ivorá, da Loja Maçônica Compasso Supremo e do Clube Caixeiral Ivorense, freqüentador residente da missa dominical e da coluna social do Sentinela da Campanha, em cujas esquálidas cinco páginas semanais não havia vez que não fosse citado, sempre adornado de apostos apopléticos, como "figura exponencial do nosso meio", "emérito labutador da saúde", "exemplar profissional, pai-de-família e cidadão ivorense", "prócer das forças vivas de nosso Município", ninguém - ou melhor, quase ninguém - sabia do insólito vício a que desde a infância se devotava.
Pois desde cedo, muito cedo, o nosso bom doutor começara a dedicar-se com volúpia insaciável aos mais abjetos fluídos corporais, que absorvia, sôfrego, por todos os sentidos, deliciando-se em apreciá-los, escutar-lhes os mais imperceptíveis sons, tocá-los, cheirá-los e - supremo gozo - bebê-los ou comê-los!
Tudo, como, aliás, ocorre com as coisas mais marcantes da vida, começou com algo simples, simplíssimo, banal mesmo: um espirro, ainda na infância.
Cadico, como então o chamavam, viu-se, nesse instante remoto de seu passado, repentinamente maravilhado pela polpuda e macia bola de ranho verde que seu nariz ejetara.
Pôs-se a contemplá-la extasiado, observando as tênues linhas e os desenhos que num emaranhado de tessituras formavam aquela gosma misteriosa e fascinante.
Tocou-a devagar, sentindo um frio percorrer-lhe o corpo quando, deixando como que um beijo leve e úmido em seus dedos, aquela massa resvalante foi-lhes cedendo à pressão e começou a esparramar-se, lânguida, sobre a superfície da escrivaninha.
Quase sem respiração, Cadico levou o dedo às narinas, primeiro à direita, e aspirou longamente o perfume que aquele mingau ralo e esverdeado exalava: um cheiro acre, odor de podridão interior, de decomposição de células, de miasmas envelhecidos.
Um prazer indizível tomou conta dele quando pela primeira vez sentiu o gosto daquele ranho; sabor ácido, um pouco amargo, grudento e dominador, que exigia ser degustado por inteiro, vagarosa mas completamente: comeu tudo, sem deixar nada, e, à medida que engolia aquela plasta fria e pegajosa, parecia-lhe que vencera mil exércitos, que descobrira um mundo novo, que tinha um segredo que era só seu e que o fazia superior a todos os outros.
Do ranho ao catarro foi um passo. Gripado, Cadico não teve, dois dias depois, dificuldade alguma em escavar do fundo de suas entranhas um enorme e gelatinosamente endurecido bloco de muco e de, tendo o cuidado de concentrar-se no som emitido ao expeli-lo, percorrer, em seguida, o ritual de contemplação, de toque, de inalação e de ingestão que antes experimentara com o ranho.
O que começou como um nada, uma casualidade, um prazer misteriosamente revelado, tornou-se, a partir de então, uma prática obsessiva: curado da gripe, outros humores se apresentaram e revelaram a Cadico: no início, os mais óbvios: deixava para terminar de mijar num pequeno copo em que se colocavam as escovas de dente, embebedava-se com o barulho que o líquido fazia e com a visão de seu choque, meio sem rumo, contra as paredes do pequeno recipiente; o odor penetrante o enlouquecia e era já num estado de semiconsciência que mergulhava os dedos naquele lago morno, de tons dourados e brilhantes, e que sorvia, até a última gota, a beberagem ardida e pungente.
Depois, logo depois, a merda. Tirava-a do cu, removendo, ao acabar de cagar, o que ainda ficara aderido; tirava diretamente com o dedo, em pequenas bolinhas, que esfregava sobre os braços, as pernas, a barriga, deixando-se ficar longo tempo a gozar o fedor que o tomava, para depois lamber-se todo, terminando por chupar o dedo, que tivera o cuidado de deixar bem revestido, como um croquete de cocô, para que pudesse sorver a iguaria com a meticulosidade de um 'gourmet'. Muitas vezes, sem que ninguém percebesse, guardava uma cueca intencionalmente cagada para lhe degustar dias mais tarde os aromas - a consistência e o sabor da merda dormida, envelhecida e grudada ao pano, eram uma iguaria dos deuses!
Atingindo a adolescência, um mundo novo e maravilhoso de secreções, cheiros e gostos se revelou, e foi como se aquele momento mágico da primeira descoberta ocorresse de novo, mais intenso, mais picante, mais mágico ainda.
Com a primeira ejaculação lavou-se copiosamente, deixando-se ficar uma semana sem tomar banho, a gozar o odor cáustico da porra azedada subindo por todo seu corpo; descobriu, com alguma exercitação, uma posição em que podia esporrar diretamente na boca e engolir os jatos no instante mesmo em que eram produzidos, tépidos, cremosos, acres, sua própria masculinidade retornando para a origem.
Não lavava o pau por longo tempo, deixando formar queijinhos de esmegma em volta da glande; removia-os, quando já espessos, e se deixava mergulhar com todos os sentidos naquele manjar branco, que culminava entupindo-lhe as narinas, a boca, a língua, a garganta, com sua rica mistura de odores e de gostos de primitiva animalidade.
O ritual escatológico de Cadico, aliás, do Dr. Candinho, pois que, a estas alturas já o temos, crescido e integrado na pacata comunidade ivorense, a clinicar e a transitar pela nobre sociedade local, ainda se enriqueceu com variações mais requintadas, como roupas suadas que guardava para cheirar e mastigar com frenesi, quase enlouquecendo de prazer ao ser invadido pelas brutais emanações de axilas e virilhas imundas, ou como meias e sapatos com chulé, que passava pelo corpo para que nele deixassem seus fedores e que, depois, eram cuidadosamente lambidos e, às vezes, fervidos, e tomados sob a forma de chá.

É claro que não só de suas secreções nosso personagem se alimentava; descobriu cedo as alheias, e era um prazer estonteante mergulhar nas intimidades de outras pessoas, sentir-lhes o cheiro, o gosto das partes mais recônditas, tocar-lhes e contemplar-lhes fluídos e excreções, e desnudando-as de uma forma como nunca alguém imaginara, absurdamente total, completa, inexorável.
Sua profissão, com a diária freqüências ao hospital, lhe favorecia o contato com os objetos de sua idolatria, fácil lhe sendo subtrair gazes, restos de algodão, tiras de tecido, lençóis ou roupas com sangue, suor, fezes, urina, vômito, pus, e toda a sorte de coisas em que houvesse alguma emanação nojenta grudada.
Como no começo se disse, do vício do Dr. Cândido quase ninguém sabia, e esse quase se devia a que num descuido, numa pachorrenta noite de verão em que nosso prócer das forças vivas do Município, crendo-se só em casa, se banqueteava sugando em avaras colheradas de chá a massa disforme de frango, pão, pedaços de guisado e de ervilha com maionese que, imersa num mar de vinho azedo, cerveja e bile, compunha o vômito que encontrara na saída do Clube Caixeiral e que discretamente recolhera num lenço, foi visto por Genoína, a empregada que, com o andar suave e silencioso que lhe garantira a permanência por já quase uma década naquela casa, passava imperceptível pelo corredor e pôde, pela porte entreaberta, ter um vislumbre da patética cena.
Genoína, ao deparar-se com aquilo, sentiu-se quase desfalecer, tomada de um sentimento de descontrole próximo ao desvario. Então seu patrão, o homem por quem secretamente nutria em silêncio atormentador uma paixão inconfessável e inexplicável, tinha um vício, uma tara, uma devoção que causaria escândalo, nojo, horror, a toda a cidade, às famílias de bem, a dona Hermengarda, sobretudo a D. Hermengarda, modelo de esposa, virtuosa, pudica, monumento de retidão moral.
Isso significava que, tendo-lhe descoberto o segredo, um segredo tão terrível e asqueroso, Genoína não precisava ter medo de declarar-se ao homem que amava. Não ousaria ele, surpreendido em tão abjeta ocupação, chafurdado em vômito, repeli-la, censura-la, desdenhar sua confissão, ou mesmo despedi-la daquela casa.
Um beijo, um beijo só lhe bastaria.
Tê-lo para si, viver com ele, a tanto não podia nunca aspirar, e obviamente não aspirava, reles empregada, de apoucadas posses e de escasso, quase nenhum, conhecimento; mas um beijo, um beijo apenas, desde que fosse na boca, seria para ela eterno, seria o selo da conquista impossível, a realização sublimada da paixão tanto tempo refreada.
Num ímpeto, arremessou-se quarto adentro, extática, e como uma mênade desgrenhada, precipitou-se sobre o objeto de seu amor, beijando-lhe freneticamente a boca, não uma, mas duas, três, quatro vezes, aspirando e revolvendo com a língua todo o interior daquela caverna quente e salivosa donde se despregavam os pútridos restos da fedida regurgitação do anônimo bêbado de rua.
Transfigurado, transido de pavor, o Dr. Cândido desvencilhou-se de Genoína, parecendo um louco, o louco mais furioso no ápice do surto psicótico.
Antes de fugir, assustada, de algum modo adivinhando, horrorizada, que não fora o fato de ter sido surpreendido, mas outra coisa muito mais escabrosa o que ditara a feroz e descontrolada reação do patrão, ouviu-lhe os gritos, cada vez mais estridentes, incrivelmente altos e dramáticos: nojo, nojo, nojo!
O gesto de Genoína, com efeito, produzira no Dr. Cândido um asco mortal, profundo, insuportável, uma náusea assustadoramente nova, única e revoltante, que fazia todo o seu ser contrair-se num esgar pavoroso.
Um beijo, um beijo na boca, era algo repugnante, tremendamente nojoso, a única coisa que sempre procurara evitar e que, com a esperável colaboração de D. Hermengarda, em cuja cabeça jamais passara a idéia de que o casamento implicasse algo mais do que morar na mesma casa e eventualmente andar em público de braços ou mãos dadas com o consorte, sempre evitara,
E agora, aquele gesto abominável e irrevogável; estava conspurcado, sujo, sujo para sempre: nem todas as secreções, todo o ranho, toda a porra, todo o vômito, todo o pus, toda a merda e todo o mijo do mundo seriam capazes de limpar aquela sensação da boca de Genoína colando-se à sua, da língua sôfrega penetrando e explorando, impudica e lasciva, o templo maior em que culminavam as celebrações de sua existência.
Naquela noite mesmo matou-se com um tiro na boca, simbolicamente destruindo o santuário máximo que fora insuportável e definitivamente profanado.
No corre-corre que se seguiu ao disparo, em meio à confusão de ais e de jesuses-do-céu de vizinhos e do desatino convulso de D. Hermengarda, Genoína pôde aproximar-se sub-repticiamente do cadáver, ainda morno, e de cuja boca negra e desfigurada fluía, já meio coagulado, um cordão de sangue escuro misturado com sobras de vômito regurgitado e de pólvora, e, não sem um estremecimento quase orgástico, ensopou o dedo naquela pasta ainda viva.
Levando o dedo à boca, lenta mas decididamente, Genoína provou o sangue...... e gostou,


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Fábulas em Desatino
Jade Duna

Uma pequena fábula muito bonita e com uma moral mais bonita ainda.

Era uma vez a história de um cocô. Ele se chamava Zeca e vivia
em um intestino com prisão de ventre. Nosso herói fedegoso tinha muita
vontade de sair dalí, vivia tentando escapar, mas nada, sempre sem sucesso.
Até mesmo em uma circunstancial fuga de gases ele tentava sair, mas nunca conseguiu.
Muito grande e duro, depois de um tempo, Zeca tinha três grãos de milho
grudados nele, o que dificultava a saída. Certa vez ele resolveu se juntar aos outros
cocozinhos alí presentes para tentarem fazer uma pressão no ânus do
indivíduo, empurraram, empurram, empurraram e Zeca conseguiu colocar uma
parte do seu corpinho fedorento para fora, enxergou algumas coisas mas não
sabia identificar, mas logo voltou..ficou frustrado e ao mesmo tempo feliz
por ter quase conseguido 'nascer'. O tempo passava e o cocô crescia cada
vez mais. Estava quase ocupando todo o intestino do homem. Certo dia, Zeca
estava tão sonolento e cansado que adormeceu.
De repente foi acordado por uma pancada, que vinha do mesmo buraco por onde
ele tentava sair, outra pancada, outra, outra, outra, outra, outra, Zeca já
estava meio tonto, até que é banhado por um líquido branco e gosmento..o
coitado do cocô ficou com este líquido grudado durante alguns dias, além
dos milhos pendurados.
20, 30, 40 dias se passaram e seu aspécto já estava miserável. Seu
tamanho triplicou e não conseguia nem se mover. Nada na vida de Zeca
era a mesma coisa. Estava destinado a viver alí sem perspectiva de
liberdade.

Moral da história: Quando a merda cresce, a vida fica um cu.

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Versos Soltos
(poemas para serem lidos cagando no vaso)

Cagou-se Yolanda

...mas ninguém soube / estava a bela menina / cagada na esquina / o bolo fecal entre as pernas / a alemoada endoidou / cagou-se Yolanda na frente de casa / tudo mudou / vizinhos / atitudes / sempre há algo pior

Fritz e Frida em Lua de Melrda

...Ia Fritz com o balde de cocô / fazia de conta que Frida não estava / sentou-se à beira da calçada / deitava com a boca aberta / arregalava-se em sinal de alerta / vinha Frida, fingindo ser lerda / queria fazer sentir sua merda / cuspia-lhe, vomitava-lhe, virava uma obra de arte barroca / barro / oca / dentro da boca

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"As idiotices do dia-a-dia ganham extraordinário efeito filosófico ou poético quando pronunciadas no leito de morte."

(Millôr Fernandes)

***** As Mulatas de Jesus Cristo - número 65 - 27/09/02 *****

-Staff:

-Fábio Luis Emerim (cagado mas feliz)
-Roberto Yellow Moschen Jr. (muito feliz hoje em diarréia)
-Borvaz Sarsa (cagando e andando)
-Julián Catino (eres fecalis)
-Telmo dos Santos Abech (de pintar paredes)
-Bruna Maia (debutanda)

-Colaboradores dessa edição:

- Jade Duna

Não foi utilizado nenhum tipo de droga pesada na realização dessa edição.

Este e-zine não contém glútem, conservante, estupefaciente, flaviocavalcante e nenhum veneninho bão.

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