As
Mulatas de Jesus Cristo
especial
***A Mulata Escatológica***
nº 65 - Canoas - 27/09/2002
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SUMÁRIO
EDITORIAL Fábio Luis Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS Fábio
Luis Emerim
DE SUPETÃO Roberto Moschen Yellow Jr
EVIL AS HELL Bruna Maia
REALIDADE PLEONÁSTICA Telmo dos Santos Abech
FÁBULAS EM DESATINO Jade Duna
VERSOS SOLTOS Fábio e seus alter egos
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EDITORIAL
Fábio Luis Emerim
Escatologia [De escat(o)- + -logia.]
S. f.
1. Tratado acerca dos excrementos.
[De escato- + -logia.]
S. f.
1. Doutrina sobre a consumação do tempo e da história.
2. Tratado sobre os fins últimos do homem.
Somos o final da cadeia alimentar.
A escatologia está presente em nossa vida assim como o sabonete
e o banho. Só você não percebe,- assim como
o próprio sabonete e o banho, que passa batido quando a patroa
não vê. Ao praguejar, ao achar ruim, ao ligar a TV,
enfim, em pelo menos um momento no dia lá está a realidade
escatológica correndo-nos perna abaixo.
Os alemães têm tratados a respeito da merda. Dizem
que Hitler era coprofágico, alimentava-se de fezes. Não
duvido, pois pra sair tanta merda daquela cabeça, só
se a criatura estivesse entupida de matéria fecal da boca
até o cu. Eu até arrisco a dizer que a família
Bush é seguidora de tal prática.
Um exercício interessante é tentar listar quais figuras
populares de hoje em dia são possíveis come-merda.
A começar pelo povo brasileiro, que é obrigado a digerir
cocô 24h por dia. A impressão que dá ao fazer
um apanhado do tipo de lixo que nos é empurrado goela abaixo,
é que está sendo criado um círculo vicioso
de produção e alimentação fecal onde
ou alguém puxa a descarga de uma vez, ou estaremos todos
perdidos. Ambas as alternativas são assustadoras. Tudo é
passível de ser taxado como merda. Por exemplo; como está
o atual quadro político brasileiro? R - Uma merda!
Como está a corrida pela presidência?
R - Uma merda!
Como é a programação dominical televisiva?
R - Uma bela merda!
Qual o nome daquele bar tri bom lá da cidade baixa mesmo?
R - Que merda, me esqueci...
Eu sei que o editorial tava uma merda, mas dane-se, um cocozinho
em meio a tanta merda torna-se até simpático!
Com vocês:
A Mulata Escatológica
Críticas, sugestões, textos, antrax: mulatas@terra.com.br
Lista, ou grupo, ou o que você entenda que é: mjcgroup-subscribe@yahoogrupos.com.br
Mande também uma mensagem para esse e-mail que não
existe: frijgerew@hebonuz.com
ICQ da redação do Mulatas: 125549008
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Casulo 14 - O Portal das Averiguações Noturnas
Fábio Luis Emerim
"João Kléber é uma merda /
Jota Quest é uma merda /
Gugu Liberato é uma merda /
e eu mesmo não ando cheirando muito bem..."
Lili estava na parada, parada.
Esperava o ônibus.
Era 6:45 da manhã e a aula começava às sete.
Atrasada. desesperada.
E nada do linha 53 chegar.
E pra piorar a manhã, uma caganeira que a forçava
a engolir seco.
Suava frio, as mãozinhas - doces mãozinhas - apertavam-se
contra seu ventre.
Em um momento sentiu uma lágrima correr em seu olho esquerdo.
Uma linda criatura daquelas não poderia fazer cocô.
Mas a natureza gritava.
As tripas esculhambavam-se em retorcidos espasmos gasosos ocos e
inflados.
E nada do 53 chegar.
Se quisesse ir ao banheiro em casa, as duas quadras forçar-lhe-iam
a abaixar-se, vergonhosamente, atrás do muro da farmácia
- isso se não estivesse já aberta.
"O que não faria por uma fralda...", pensava, triste,
arregalando os olhos para o relógio que avisava sem dó
que dez minutos já haviam passado.
Deu que cagou-se no ônibus.
Correria total. Nojo geral. Vômitos e reclamações.
Cagou-se Lili dos olhos ternos. Mas cagou-se com um sorriso de satisfação.
...
Gostaria de expressar meus mais dilatantes espasmos e cumprimentar
os mais novos colunistas deste maravilhoso e-zine: Julián
Catino e Bruna Maia. Jovens idealistas, bons de caneta, grosseiros,
escrachados, com bom humor, bom gosto e, obviamente, também
doaram seus oboés para obras de caridade. Bem vindos mais
uma vez, em nome de toda a equipe do staff mais estranho da história
dos zines...
...
Não dá medo o Pedro Simon com aquela cara dele?
==== / ====
De Supetão de Merda
Roberto Moschen Yellow Jr
A Escala Bristol da Forma das Fezes
O ideal é o Tipo 4, que não deixa aquela sensação
desagradável de que
algo ficou para trás.
Tipo 1 - Pedaços separados, duros, como amendoim;
Tipo 2 - Forma de salsicha, mas segmentada;
Tipo 3 - Forma de salsicha, mas com fendas na superfície;
Tipo 4 - Forma de salsicha ou cobra, lisa e mole;
Tipo 5 - Pedaços moles, mas contornos nítidos;
Tipo 6 - Pedaços aerados, contornos esgarçados;
Tipo 7 - Aquosa, sem peças sólidas.
Escreva para o Mulatas e nos diga qual o tipo de fezes mais comum
na
sua produção diária. A falta de dados científicos
nesta área é
extraordinária. Pouco se sabe, por exemplo, do porquê
da coloração
amarronzada, ou por que algumas fezes bóiam e outras afundam.
Não se
tem uma estimativa estatística do tempo que as pessoas passam
no
banheiro, ou de quantas vezes se vai a ele por dia.
Dica: procure fazer o esforço de expulsão (prender
a respiração +
contração do colo) em pequenos períodos. Longos
períodos podem causar
hemorróidas ou mesmo prolapso retal, sendo que este último
dá a
sensação de que algo persiste na "saída"
e então continua-se o
esforço, piorando o problema.
Para alternativas do uso das suas fezes, experimente ver "Salò,
120 dias de
Sodoma", do Pasollini. Um filme didático que nos ensina
a olhar sem
tabus para este quente e pastoso produto diário de nossa
digestão. Lá
encontram-se dicas de alimentação para mudar a textura
e o cheiro, de
forma a nos brindar com uma refeição diferente e estimulante
do ato
sexual.
Recomenda-se a leitura dos textos desta edição antes
ou durante as
refeições. De acordo com testes realizado pelo MIT,
eles são capazes
de auxiliar a digestão aumentando em cerca de 30% a capacidade
de
absorção e processamento dos alimentos por parte do
leitor ou
ouvinte.
Boa cagada.
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Evil as Hell
Bruna Maia
COISA NOJENTA É A MÃE!
Alberico Bastos Almeida, Almeidinha entre seus colegas de repartição,
era
o típico exemplo de homem comum e bem estruturado. Tinha
uma casa com pátio,
uma mulher, conhecida como Dona Fefa, dois filhos, o Juca e o Zeca,
de 8 e 10
anos respectivamente, e um trabalho na prefeitura, onde ficava o
dia inteiro
despachando documentos com um carimbo rançoso e colando as
coisas com durex.
Não importava que tipo de coisa. Podia ser uma régua,
a caneta, a gaveta, ou
ate a mesa, o que quer que quebrasse. Mas isso não afetaria
a aparente
normalidade do Almeidinha, pois todo mundo que trabalha em escritórios
tem
uma tara por colar coisas com durex. Ha ate quem inconscientemente
quebre as
coisas só para cola-las com durex.
De fato, o Almeidinha era tão estruturado, que tinha ate
um cachorro
chamado Tobby, assim mesmo com dois bês, e um colega, na verdade
um grande
amigo com o qual convivia nos seus 20 anos de repartição,
o Barbosa. Todo o
funcionário publico com 20 anos de repartição
tem um amigo chamado Barbosa, e
o nosso herói (herói?) não era exceção.
Todo dia, quando estavam no horário de almoço, eles
iam ao bar do
Juvenal, um português tipicamente lusitano, e comiam um sanduíche
de presunto
com guaraná Brahma. Eles, sentados naquele balcão
passaram as mais diversas
situações de suas vidas. Foi para lá que o
Barbosa foi para comemorar o
nascimento do seu filho, o Tuco, e foi lá onde o Almeidinha
chorou e se
lamentou, confessando ao Barbosa a única vez em que traiu
a Dona Fefa, no
carnaval, com aquela ruiva, a Marcinha.
Formavam um contraste interessante, enquanto o Almeidinha era magro
e
franzino, com uma cabeça desproporcional e uma testa ampla,
o Barbosa era
gordo, quase obeso, com principio de calvície, os olhos saltados
e um
legitimo suarento, suava por todos os poros, tendo aquelas nojentas
marcas de
suor embaixo do sovaco, conhecidas como `pizza`, as cadeiras em
que sentava
ficavam viscosas de suor. Havia outras diferenças, o Almeidinha
era colorado,
só comia churrasco bem passado, tomava café fraco
com adoçante e era fa de
filmes japoneses, já o Barbosa era gremista, só comia
churrasco se da carne
escorresse sangue, seu café era forte, algo parecido com
óleo diesel, e
levava cinco colheres de açúcar, tendo como ídolo
o Van Dame. Apesar dessas
pequenas diferenças, eram grandes companheiros, e juravam
não esconder nada
um do outro.
Mas o Almeidinha escondia. Ele tinha um segredo dele, e só
dele, ninguém
mais sabia: uma coleção bizarra, e um hobbie artístico
mais bizarro ainda.
Tudo começou quando aos 5 anos, brincando com uma espátula
de manicure da
sua mãe, enfiou-a no ouvido e ao tira-la veio junto uma cera.
Ficou fascinado
por aquela massa disforme, amarela e peluda. No mesmo dia, enfiou
o dedo no
nariz e tirou um tatu, bem verde, seco e grande. Ficou horas observando
aquelas massas bisonhas.
Dai que surgiu a idéia de colecionar as matérias secas
que saiam do seu
corpo: guardava, onde ninguém pudesse ver, seus tatus, pus,
remelas, unhas,
cascas de ferida, rosquinhas de suor, dessas que surgem nas dobras
mais
inusitadas em dia de muito calor, enfim quase tudo. Só não
guardava vômitos,
urina e fezes porque não eram propriamente matérias
secas. Talvez as fezes
até fossem, mas não faziam seu tipo. Com o tempo começou
a arrotar dentro de
saquinhos plásticos (que lacrava com durex, lógico),
só para guardar seus
arrotos, que não eram matéria seca, mas tinham algo
de musical. Com os gases
em geral, fazia o mesmo.
Mas a sua maior fascinação ainda era a cera de ouvido.
Vibrou quando
ouviu sua mãe dizer que iriam se mudar para o Sul, pois tinha
ouvido falar
que em lugares frios se produz mais cera.
Gostava tanto que passou a fazer esculturas de cera (de ouvido mesmo).
Fazia todo o tipo de figura, desde ninfas ate flores, passando por
uma Vênus
de Milo, em replica perfeita, e o pior, em tamanho natural! Ele
mantinha um
apartamento secreto onde guardava sua coleção e fazia
suas obras primas.
Almeidinha não contava a ninguém, não porque
achasse nojento, mas porque
achava que suas criações e seu acervo eram por demais
delicados para serem
vistos por olhos incultos, e todos os olhos eram incultos diante
daquelas
imagens, inclusive os seus profanavam aquelas maravilhas! Sim, era
preciso
proteger suas pérolas de todos os bárbaros!
Mas eis que um dia, o Barbosa o vê entrando no seu secreto
ateliê. A
principio pensa tratar-se de um consultório medico, dentista
ou coisa assim.
Mas então, aflorou sua antiga paixão por dona Fefa,
e veio acompanhado disso
a raiva de não saber desse detalhe da vida do amigo. Barbosa
estava convicto
que o Almeidinha mantinha uma amante, que traia aquela coisa fofa
da Dona
Fefa, e o pior, não contava pra ele!
A indignação do Barbosa era tanta que ele resolveu
pegar o amigo no
flagra. Um dia esperou ele se dirigir para aquele `ninho deleitoso
de
luxuria` e seguiu-o. Deu um tempo, arrombou a porta, e viu então
a cena mais
insólita de sua vida: o Almeidinha nu, tirando cera do ouvido,
tatu do nariz,
e, em vez de beijar uma mulher, ele beijava sua Vênus de cera.
A única coisa que Barbosa conseguiu balbuciar foi: ``- Caramba
,
Almeidinha! Que coisa nojenta!``
Almeidinha, injuriado por ver seu segredo revelado e sua obra difamada,
saiu correndo atrás do mal feitor, pelado pela rua, e gritando:
`` Coisa
nojenta é a mãe! Coisa nojenta é a mãe!``
Ele chegou ate a pegar o colega e espanca-lo, sempre berrando: ``
Coisa
nojenta é a mãe! Coisa nojenta é a mãe!``.
Ate ser levado para o manicômio,
de onde nunca saiu.
Ate hoje, 5 anos depois de sua morte, ha loucos que dizem ver o
Almeidinha correr pelado pelo pátio e pelos corredores, sempre
gritando: ``
Coisa nojenta é a mãe! Coisa nojenta é a mãe!``
FIM (OU NÃO)
==== / ====
Realidade Pleonástica
Telmo dos Santos Abech
Historieta escatológica
Do doutor Cândido, médico, membro ilustre do Lions
de Ivorá, da Loja Maçônica Compasso Supremo
e do Clube Caixeiral Ivorense, freqüentador residente da missa
dominical e da coluna social do Sentinela da Campanha, em cujas
esquálidas cinco páginas semanais não havia
vez que não fosse citado, sempre adornado de apostos apopléticos,
como "figura exponencial do nosso meio", "emérito
labutador da saúde", "exemplar profissional, pai-de-família
e cidadão ivorense", "prócer das forças
vivas de nosso Município", ninguém - ou melhor,
quase ninguém - sabia do insólito vício a que
desde a infância se devotava.
Pois desde cedo, muito cedo, o nosso bom doutor começara
a dedicar-se com volúpia insaciável aos mais abjetos
fluídos corporais, que absorvia, sôfrego, por todos
os sentidos, deliciando-se em apreciá-los, escutar-lhes os
mais imperceptíveis sons, tocá-los, cheirá-los
e - supremo gozo - bebê-los ou comê-los!
Tudo, como, aliás, ocorre com as coisas mais marcantes da
vida, começou com algo simples, simplíssimo, banal
mesmo: um espirro, ainda na infância.
Cadico, como então o chamavam, viu-se, nesse instante remoto
de seu passado, repentinamente maravilhado pela polpuda e macia
bola de ranho verde que seu nariz ejetara.
Pôs-se a contemplá-la extasiado, observando as tênues
linhas e os desenhos que num emaranhado de tessituras formavam aquela
gosma misteriosa e fascinante.
Tocou-a devagar, sentindo um frio percorrer-lhe o corpo quando,
deixando como que um beijo leve e úmido em seus dedos, aquela
massa resvalante foi-lhes cedendo à pressão e começou
a esparramar-se, lânguida, sobre a superfície da escrivaninha.
Quase sem respiração, Cadico levou o dedo às
narinas, primeiro à direita, e aspirou longamente o perfume
que aquele mingau ralo e esverdeado exalava: um cheiro acre, odor
de podridão interior, de decomposição de células,
de miasmas envelhecidos.
Um prazer indizível tomou conta dele quando pela primeira
vez sentiu o gosto daquele ranho; sabor ácido, um pouco amargo,
grudento e dominador, que exigia ser degustado por inteiro, vagarosa
mas completamente: comeu tudo, sem deixar nada, e, à medida
que engolia aquela plasta fria e pegajosa, parecia-lhe que vencera
mil exércitos, que descobrira um mundo novo, que tinha um
segredo que era só seu e que o fazia superior a todos os
outros.
Do ranho ao catarro foi um passo. Gripado, Cadico não teve,
dois dias depois, dificuldade alguma em escavar do fundo de suas
entranhas um enorme e gelatinosamente endurecido bloco de muco e
de, tendo o cuidado de concentrar-se no som emitido ao expeli-lo,
percorrer, em seguida, o ritual de contemplação, de
toque, de inalação e de ingestão que antes
experimentara com o ranho.
O que começou como um nada, uma casualidade, um prazer misteriosamente
revelado, tornou-se, a partir de então, uma prática
obsessiva: curado da gripe, outros humores se apresentaram e revelaram
a Cadico: no início, os mais óbvios: deixava para
terminar de mijar num pequeno copo em que se colocavam as escovas
de dente, embebedava-se com o barulho que o líquido fazia
e com a visão de seu choque, meio sem rumo, contra as paredes
do pequeno recipiente; o odor penetrante o enlouquecia e era já
num estado de semiconsciência que mergulhava os dedos naquele
lago morno, de tons dourados e brilhantes, e que sorvia, até
a última gota, a beberagem ardida e pungente.
Depois, logo depois, a merda. Tirava-a do cu, removendo, ao acabar
de cagar, o que ainda ficara aderido; tirava diretamente com o dedo,
em pequenas bolinhas, que esfregava sobre os braços, as pernas,
a barriga, deixando-se ficar longo tempo a gozar o fedor que o tomava,
para depois lamber-se todo, terminando por chupar o dedo, que tivera
o cuidado de deixar bem revestido, como um croquete de cocô,
para que pudesse sorver a iguaria com a meticulosidade de um 'gourmet'.
Muitas vezes, sem que ninguém percebesse, guardava uma cueca
intencionalmente cagada para lhe degustar dias mais tarde os aromas
- a consistência e o sabor da merda dormida, envelhecida e
grudada ao pano, eram uma iguaria dos deuses!
Atingindo a adolescência, um mundo novo e maravilhoso de secreções,
cheiros e gostos se revelou, e foi como se aquele momento mágico
da primeira descoberta ocorresse de novo, mais intenso, mais picante,
mais mágico ainda.
Com a primeira ejaculação lavou-se copiosamente, deixando-se
ficar uma semana sem tomar banho, a gozar o odor cáustico
da porra azedada subindo por todo seu corpo; descobriu, com alguma
exercitação, uma posição em que podia
esporrar diretamente na boca e engolir os jatos no instante mesmo
em que eram produzidos, tépidos, cremosos, acres, sua própria
masculinidade retornando para a origem.
Não lavava o pau por longo tempo, deixando formar queijinhos
de esmegma em volta da glande; removia-os, quando já espessos,
e se deixava mergulhar com todos os sentidos naquele manjar branco,
que culminava entupindo-lhe as narinas, a boca, a língua,
a garganta, com sua rica mistura de odores e de gostos de primitiva
animalidade.
O ritual escatológico de Cadico, aliás, do Dr. Candinho,
pois que, a estas alturas já o temos, crescido e integrado
na pacata comunidade ivorense, a clinicar e a transitar pela nobre
sociedade local, ainda se enriqueceu com variações
mais requintadas, como roupas suadas que guardava para cheirar e
mastigar com frenesi, quase enlouquecendo de prazer ao ser invadido
pelas brutais emanações de axilas e virilhas imundas,
ou como meias e sapatos com chulé, que passava pelo corpo
para que nele deixassem seus fedores e que, depois, eram cuidadosamente
lambidos e, às vezes, fervidos, e tomados sob a forma de
chá.
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É claro que não só de suas secreções
nosso personagem se alimentava; descobriu cedo as alheias, e era
um prazer estonteante mergulhar nas intimidades de outras pessoas,
sentir-lhes o cheiro, o gosto das partes mais recônditas,
tocar-lhes e contemplar-lhes fluídos e excreções,
e desnudando-as de uma forma como nunca alguém imaginara,
absurdamente total, completa, inexorável.
Sua profissão, com a diária freqüências
ao hospital, lhe favorecia o contato com os objetos de sua idolatria,
fácil lhe sendo subtrair gazes, restos de algodão,
tiras de tecido, lençóis ou roupas com sangue, suor,
fezes, urina, vômito, pus, e toda a sorte de coisas em que
houvesse alguma emanação nojenta grudada.
Como no começo se disse, do vício do Dr. Cândido
quase ninguém sabia, e esse quase se devia a que num descuido,
numa pachorrenta noite de verão em que nosso prócer
das forças vivas do Município, crendo-se só
em casa, se banqueteava sugando em avaras colheradas de chá
a massa disforme de frango, pão, pedaços de guisado
e de ervilha com maionese que, imersa num mar de vinho azedo, cerveja
e bile, compunha o vômito que encontrara na saída do
Clube Caixeiral e que discretamente recolhera num lenço,
foi visto por Genoína, a empregada que, com o andar suave
e silencioso que lhe garantira a permanência por já
quase uma década naquela casa, passava imperceptível
pelo corredor e pôde, pela porte entreaberta, ter um vislumbre
da patética cena.
Genoína, ao deparar-se com aquilo, sentiu-se quase desfalecer,
tomada de um sentimento de descontrole próximo ao desvario.
Então seu patrão, o homem por quem secretamente nutria
em silêncio atormentador uma paixão inconfessável
e inexplicável, tinha um vício, uma tara, uma devoção
que causaria escândalo, nojo, horror, a toda a cidade, às
famílias de bem, a dona Hermengarda, sobretudo a D. Hermengarda,
modelo de esposa, virtuosa, pudica, monumento de retidão
moral.
Isso significava que, tendo-lhe descoberto o segredo, um segredo
tão terrível e asqueroso, Genoína não
precisava ter medo de declarar-se ao homem que amava. Não
ousaria ele, surpreendido em tão abjeta ocupação,
chafurdado em vômito, repeli-la, censura-la, desdenhar sua
confissão, ou mesmo despedi-la daquela casa.
Um beijo, um beijo só lhe bastaria.
Tê-lo para si, viver com ele, a tanto não podia nunca
aspirar, e obviamente não aspirava, reles empregada, de apoucadas
posses e de escasso, quase nenhum, conhecimento; mas um beijo, um
beijo apenas, desde que fosse na boca, seria para ela eterno, seria
o selo da conquista impossível, a realização
sublimada da paixão tanto tempo refreada.
Num ímpeto, arremessou-se quarto adentro, extática,
e como uma mênade desgrenhada, precipitou-se sobre o objeto
de seu amor, beijando-lhe freneticamente a boca, não uma,
mas duas, três, quatro vezes, aspirando e revolvendo com a
língua todo o interior daquela caverna quente e salivosa
donde se despregavam os pútridos restos da fedida regurgitação
do anônimo bêbado de rua.
Transfigurado, transido de pavor, o Dr. Cândido desvencilhou-se
de Genoína, parecendo um louco, o louco mais furioso no ápice
do surto psicótico.
Antes de fugir, assustada, de algum modo adivinhando, horrorizada,
que não fora o fato de ter sido surpreendido, mas outra coisa
muito mais escabrosa o que ditara a feroz e descontrolada reação
do patrão, ouviu-lhe os gritos, cada vez mais estridentes,
incrivelmente altos e dramáticos: nojo, nojo, nojo!
O gesto de Genoína, com efeito, produzira no Dr. Cândido
um asco mortal, profundo, insuportável, uma náusea
assustadoramente nova, única e revoltante, que fazia todo
o seu ser contrair-se num esgar pavoroso.
Um beijo, um beijo na boca, era algo repugnante, tremendamente nojoso,
a única coisa que sempre procurara evitar e que, com a esperável
colaboração de D. Hermengarda, em cuja cabeça
jamais passara a idéia de que o casamento implicasse algo
mais do que morar na mesma casa e eventualmente andar em público
de braços ou mãos dadas com o consorte, sempre evitara,
E agora, aquele gesto abominável e irrevogável; estava
conspurcado, sujo, sujo para sempre: nem todas as secreções,
todo o ranho, toda a porra, todo o vômito, todo o pus, toda
a merda e todo o mijo do mundo seriam capazes de limpar aquela sensação
da boca de Genoína colando-se à sua, da língua
sôfrega penetrando e explorando, impudica e lasciva, o templo
maior em que culminavam as celebrações de sua existência.
Naquela noite mesmo matou-se com um tiro na boca, simbolicamente
destruindo o santuário máximo que fora insuportável
e definitivamente profanado.
No corre-corre que se seguiu ao disparo, em meio à confusão
de ais e de jesuses-do-céu de vizinhos e do desatino convulso
de D. Hermengarda, Genoína pôde aproximar-se sub-repticiamente
do cadáver, ainda morno, e de cuja boca negra e desfigurada
fluía, já meio coagulado, um cordão de sangue
escuro misturado com sobras de vômito regurgitado e de pólvora,
e, não sem um estremecimento quase orgástico, ensopou
o dedo naquela pasta ainda viva.
Levando o dedo à boca, lenta mas decididamente, Genoína
provou o sangue...... e gostou,
==== / ====
Fábulas em Desatino
Jade Duna
Uma pequena fábula muito bonita e com uma moral mais bonita
ainda.
Era uma vez a história de um cocô. Ele se chamava
Zeca e vivia
em um intestino com prisão de ventre. Nosso herói
fedegoso tinha muita
vontade de sair dalí, vivia tentando escapar, mas nada, sempre
sem sucesso.
Até mesmo em uma circunstancial fuga de gases ele tentava
sair, mas nunca conseguiu.
Muito grande e duro, depois de um tempo, Zeca tinha três grãos
de milho
grudados nele, o que dificultava a saída. Certa vez ele resolveu
se juntar aos outros
cocozinhos alí presentes para tentarem fazer uma pressão
no ânus do
indivíduo, empurraram, empurram, empurraram e Zeca conseguiu
colocar uma
parte do seu corpinho fedorento para fora, enxergou algumas coisas
mas não
sabia identificar, mas logo voltou..ficou frustrado e ao mesmo tempo
feliz
por ter quase conseguido 'nascer'. O tempo passava e o cocô
crescia cada
vez mais. Estava quase ocupando todo o intestino do homem. Certo
dia, Zeca
estava tão sonolento e cansado que adormeceu.
De repente foi acordado por uma pancada, que vinha do mesmo buraco
por onde
ele tentava sair, outra pancada, outra, outra, outra, outra, outra,
Zeca já
estava meio tonto, até que é banhado por um líquido
branco e gosmento..o
coitado do cocô ficou com este líquido grudado durante
alguns dias, além
dos milhos pendurados.
20, 30, 40 dias se passaram e seu aspécto já estava
miserável. Seu
tamanho triplicou e não conseguia nem se mover. Nada na vida
de Zeca
era a mesma coisa. Estava destinado a viver alí sem perspectiva
de
liberdade.
Moral da história: Quando a merda cresce, a vida fica um
cu.
==== / ====
Versos Soltos
(poemas para serem lidos cagando no vaso)
Cagou-se Yolanda
...mas ninguém soube / estava a bela menina / cagada na
esquina / o bolo fecal entre as pernas / a alemoada endoidou / cagou-se
Yolanda na frente de casa / tudo mudou / vizinhos / atitudes / sempre
há algo pior
Fritz e Frida em Lua de Melrda
...Ia Fritz com o balde de cocô / fazia de conta que Frida
não estava / sentou-se à beira da calçada /
deitava com a boca aberta / arregalava-se em sinal de alerta / vinha
Frida, fingindo ser lerda / queria fazer sentir sua merda / cuspia-lhe,
vomitava-lhe, virava uma obra de arte barroca / barro / oca / dentro
da boca
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"As idiotices do dia-a-dia ganham extraordinário efeito
filosófico ou poético quando pronunciadas no leito
de morte."
(Millôr Fernandes)
***** As Mulatas de Jesus Cristo - número 65 - 27/09/02
*****
-Staff:
-Fábio Luis Emerim (cagado mas feliz)
-Roberto Yellow Moschen Jr. (muito feliz hoje em diarréia)
-Borvaz Sarsa (cagando e andando)
-Julián Catino (eres fecalis)
-Telmo dos Santos Abech (de pintar paredes)
-Bruna Maia (debutanda)
-Colaboradores dessa edição:
- Jade Duna
Não foi utilizado nenhum tipo de droga pesada na realização
dessa edição.
Este e-zine não contém glútem, conservante,
estupefaciente, flaviocavalcante e nenhum veneninho bão.
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