As Mulatas de Jesus Cristo
nº 56 - Canoas - 26/07/2002
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SUMÁRIO
EDITORIAL Fábio Luis Emerim
CASULO 14 -
O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS
Fábio Luis Emerim
A CONTRIBUIÇÃO
VOSSA DE CADA DIA leitores
em seus textos
COLUNA DO BORVAZ
SARSA
o próprio
FANFARRAS ABISSAIS
Demétrio Antenna, pelas mães de Fábio Luis Emerim
ESTA COLUNA
NÃO PRESTES Mulata's
Greatest Hits
CARTAS
várias pessôa (Paraguaçu Schneidermann)
DE SUPETÃO
Roberto Yellow Moschen Jr.
MOMENTO DO
CLUBE DA EMOÇÃO FAZENDA sócios
VERSOS
SOLTOS Fábio e seus alter egos
==== \ ====
EDITORIAL
Fábio Luis Emerim
É nóis na fita e Maria no vidro.
Pra mim mais parece uma mancha com o formato de um cacete, mas tá
lá a população em peso sacramentando um milagre legítimo: Maria
num vidro de uma janela de um bairro de uma cidade de um País
de terceiro mundo. Depois me digam o que é exagero por definição.
Agora, se em pleno século XXI uma cidade praticamente pára pra
chorar, rezar e cantar aquelas músicas podres na frente de uma
janela manchada pensando que é uma legítima manifestação divina,
imaginem o que qualquer espertalhão não provocava na idade média.
Aliás, estamos na idade média.
Dái as emissoras de TV brasileiras, aproveitando as elocubrações
fecais na cabeça do povo, resolvem promover a chacina intelectual
divulgando o acontecido como se fôssemos camponeses portuguêses
do início do século passado em Fátima, construindo altares e
pedindo a benção para Jacinta, Lúcia e José, aqueles três pimpolhos
esquizofrênicos.
Comecei
depois disso a procurar manifestações fantásticas aqui dentro
do meu quarto e, pasmem, estou cercado por divindades! A começar
pela parede aqui do lado do computador que tá cheia de marca
de durex de uns pôsteres que tinha aqui um tempo atrás. É claramente
a face de Frank Zappa!! Com bigode, barba e cabelo comprido!
Acendi uma vela. Depois, no próprio vidro da minha janela, achei
o que claramente é a guitarra do George Harrison! batata: meu
quarto é um templo! Zappa na parede e a Gretch do Harrison na
janela. Acho que vou ligar pra BAND...
ÚLTIMA CHAMADA ÚLTIMA CHAMADA ÚLTIMA CHAMADA ÚLTIMA CHAMADA ÚLTIMA CHAMADA
*******************************************************************
FESTA DE ANIVERSÁRIO
DO MULATAS!!!ÚLTIMA CHAMADA!!!!!!!!!!!!
Dia 27/07 - sábado AMANHÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃ!!!!!!!!!!!!!!!
Local: ZELIG
Rua Sarmento Leite, 1086
- Cidade Baixa - Porto Alegre
Horário: Começa às 20:00.
O andar de cima do Zelig
foi reservado para nós. Vai
estar forrado com lona impermeável e coberto de lama.
(brincadeira...).
As primeiras 329 pessoas
a entrarem com um oboé levarão uma camiseta
da Dercy Gonçalves nua agarrada num destes instrumentos.
Leve sua mãe, o primo Gonçalves e a Marieta da fruteira!
Senha: O oboé ou a vida!
Tô tri curioso pra ver tua cara!
********************************************************************
Eu vou jogar uma bomba em cima
da rede de telefonia aqui de Canoas. As linhas são tão filhadaputamente
precárias que somente depois de 463 tentativas (leia-se 463 chamadas
que são cobradas em minha conta de telefone) eu consigo uma conexão
decente.
Não canso de me queixar que é
inadmissível viver a 5 minutos da capital do RS em uma cidade
que não tem TV, nem internet à cabo! As televisões por assinatura
é tudo na base da antena. Internet via rádio é tão cara que é
inviável. Não é uma merda de cidade? Dinheiro pra investir aqui
? Tolinho...
.....
Eeeeeeeeeeeeeespero contar com
a vossa insubstituível presença na festa do Mulatas no Zelig!!!
Eu tava tri afim de fazer umas camisetas estampadas pra ocasião,
mas a grana tá leve, nega!
Aliás, tive até a luz de escrever
a caneta hidrocor mesmo em umas camisetas brancas que eu tenho
da Hering: CAMISETA OFICIAL DA FESTA DO MULATAS COM SÉRIAS RESTRIÇÕES
ORÇAMENTÁRIAS. Quem quiser fazer, faça...seria imensamente prazeroso.
O Yellow queria estampar um oboé nas camisetas, mas sei lá, não
acho que daria tempo.
Falando nisso, não é difícil
eu achar pessoas que me perguntam por que falamos tanto em oboés.
Então pensei: ok, vou explicar, afinal uma hora isso tem que vir
à tona!
A explicação é a seguinte, opa,
peraí que tão me chamando lá fora...
........
Olha o que esse pulha desse Anthony
Garotinho disse:
"Há um diferencial da minha candidatura
para as outras: sou um
candidato que defende valores como a família. Defendo que o homem
afastado de Deus acaba se tornando violento, acaba praticando
toda a
sorte de crimes.
Desejo que a sociedade brasileira reflita sobre isso", disse o
candidato do PSB.
(fonte: http://redeglobo3.globo.com/bomdiabrasil/materias.jsp?id=12221)
Engraçado, agora então eu sou
um homem violento, criminoso e que não defende os valores da família!
Ainda bem que o bostinha que disse isso não tem a mínima condição
de ganhar essa eleição. Já pensou um merda desses no poder? Bem
dizer só vi merda no Planato até hoje...
ICQ: 125549008
(Mommy, what does fuck mean?)
==== / ====
Casulo 14 - O Portal
das Averiguações Noturnas
Fábio Luis Emerim
Pequeno dicionário de palavras que deveriam
existir (II parte - doenças)
Socialícia - Dor nas costas
que é sentida apenas por cegos.
Iopendia Basílica Congênere -
disfunção psíquica que tem como característica a vontade de desejar
que a pessoa que pega em sua mão formulasse frases sem nexo.
Bornemores - Alongamento
da cauda peniana em tratores que é vista com maus olhos.
Pojulastemia - Alucinação noturna decorrente
de discussão a respeito da inveja que o sujeito teria da quantia
de comida do prato da pessoa que estivera sentada à sua direita,
mas somente na hora da janta e em dias ímpares.
Mojulança Afetiva - Medo
inerente àquele cujo superior deseja comprar pilha.
Termozerapia Anfietã -
tratamento à base de cal virgem para virgens que sofrem do Mal
de Zuleica.
Mal de Zuleica - patologia
psíquica que ocorre em virgens no dia da primeira foda.
Primeira Foda - o mesmo
que sopa.
Provérbios que deveriam existir:
"Ao referido apóiam-se as obras e as sobras"
"Em Deus confias e em meus dedos deslizas"
"Fonte de vida é a melhor prospecção arrependida"
"Se teu pão falta à mesa, que dirás dos
teus farrapos?"
"Busca a luz mas não apague a fonte."
"Todo aquele que ilumina o caminho do vizinho,
cega a vontade."
"Em bala perdida não se mede a ferida"
"Siga-me se pretendes ser puro, alia-te
ao teu inimigo se, porém, quiseres possuir um bem"
"Toda filosofia embrulha-se em perdições
ao toque de um simples sabiá."
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A Contribuição Vossa de
Cada Dia
O Café que eu não tomei
por Gunnar Nelson Thiessen
"Que bela manhã.... Merda. Tem trampo. Tudo bem. Vou tomar um
cafezão
que melhora. Cadê minha calça? Porra, cadê a porcaria da calça?
Se
exploda. Vou de cueca mesmo... hehe, a Vanessa devia me ver agora...
Cadê minha xícara? Se estiver suja bebo do bule. Vanessa, que
nome de
puta... ô merda, tá suja. Então eu fico sem café hoje, já faz
tempo
que eu tô tentando parar mesmo... Vou acabar morrendo de tanto
tomar
café.
Carteira, chaves, pasta... tá tudo aí. Hei,
meu cigarro!!! ah sim, tá
aqui. Pronto. Bem, o jeito é trabalhar. Hehe, ainda bem que eu
não
preciso ir de busão... que legal ser rico...
Droga de engarrafamento!!! ‘Anda filha
da puta!!!’ Caralho de povo
pobre que só incomoda. Vou dar a volta que eu ganho mais. - Ih,
que
aglomeração é essa? Parece que a pobrezada decidiu rezar no meio
da
rua agora... ah, deve ser aquele pessoal da santa na janela...
é,
olha a janela lá! Ah, não, tem que matar!!! ‘Ô seus panacas!!!’"
E foi assim que seu Marciel matou 3 e feriu
6.
............
O Acidente de Deus
por Julián Catino
Chico olhava seus pés para não parecer nervoso.
- E por que você saiu de lá ? -indagou seu
Joaquim, o dono da padaria "Princesinha do Piraí". Seu Joaquim
olhava carrancudo como olhava a todos os candidatos a trabalhar
com ele, embora Chico não soubesse disso.
- Ele está fechando, seu Joaquim. Não tem freguês - respondeu
Chico
- E por quê não tem freguês ? - perguntou seu Joaquim quase
desinteressado. Os óculos pequenos e quadrados lhe davam a impressão
de aumentar a pressão do olhar. Chico sentiu seu coração disparar,
mas obrigou-se a fazer uma cara despreocupada de desconhecimento.
"Ai, Deus, pela Ritinha, não vais me fazer perder mais este emprego,
.. por favor,... me ajude!", rezou mentalmente. Tomou coragem,
e num segundo respondeu :
- Não sei, seu Joaquim, mas o pessoal anda falando que é
caro. E caro, bom, o senhor deve saber que lá é um pouco.
- É, isso é verdade - disse seu Joaquim. E começou a dar
uma pequena lição caseira de sobrevivência para o Chico. Bem para
o Chico ! Mas, sim, como seu Joaquim tinha uma movimentada padaria
e Chico nem tinha empresa, o direito de expor suas teorias era
do seu Joaquim, muito embora o seu sucesso se devesse mais a que
felizmente sua padaria ficava a uma quadra das únicas duas montadoras
de calçados, e grande parte do pessoal tomava café e ia almoçar
lá, do que à contagem obsessiva de vinténs do final do dia do
seu Joaquim.
- Tudo bem, Francisco. Eu vou lhe dar uma oportunidade, pois
todos merecemos sempre mais uma, não é ?
- Obrigado, seu Joaquim, o senhor não vai se arrepender !
E não ia mesmo. "Obrigado, meu Deus! A Ritinha
vai ficar contente! "
II
Então Chico, magro e baixinho, e Dona Graça,
bastante maior de tamanho embora da mesma altura, ficavam do outro
lado do balcão, o que era mais cansativo do que parecia a simples
vista. Toda de branco e suando profusamente, Dona Graça montava
os pratos que o Chico contava e entregava enquanto esquentava
algum prato diferente e não deixava a batata frita passar do ponto.
No fim do almoço a Dona Graça perguntou
se o Chico segurava por vinte minutos, e foi sair. Chico montava
um bife à cavalo quando pediram um omelete, ao mesmo tempo que
o chapeiro pedia mais batata frita. Chico botou mais batata para
fritar, cuidou dos ovos, o presunto e o queijo, caiu um pouco
de polenta quando foi servir um outro prato, mexeu o feijão, e
subitamente perdeu o equilíbrio com a frigideira na mão.
Chico nunca entendeu exatamente por que
o óleo não o tocou, mas o seu desespero foi com o pulo do
omelete até quase o teto. O omelete perdeu velocidade antes de
tocar o teto, ricocheteou na parede e foi se esparramar frouxo
numa das bocas apagadas no enorme fogão. O catou o mais rápido
que conseguiu e ficou em silêncio, tentando verificar se alguém
teria percebido sua irrepetível manobra, sua cambalhota impossível,
e a do omelete. Discretamente, jogou fora a parte mais comprometida
do omelete, colocou a parte essencial dele de volta na frigideira
e com mais um ovo encobriu as evidências do vôo sem pensar mais
no assunto.
III
- O que é isso ? -ouviu do outro lado
do balcão. Alguém apontava para o pequeno vidro que o Chico olhava
petrificado: estava coberto de óleo, e até com um pedacinho delator
de tomate, e um restinho de ovo.
Mas antes que o Chico possa falar, um homem dizia que uma imagem
de São João e o Menino Jesus tinha se formado milagrosamente.
Do outro lado do vidro, o resto de tomate era a cabeça de São
José, a mancha de óleo o seu corpo segurando o menino Jesus. O
impressionante era a mirada terna que o tomate parecia dar ao
restinho do ovo, no fim da mancha, ou melhor, da imagem do menino
Jesus. Enquanto o homem encontrava os detalhes e os descrevia
para um espectador assombrado, o seu Joaquim saiu do caixa e foi
até o vidro. Antes que chegasse, Chico limpou o resto de ovo e
tirou o tomate ante o desespero do homem, o coração do Chico explodindo
no seu peito, batendo cada vez mais forte quanto mais o seu Joaquim
se aproximava. Então ficaram os tres falando da imagem miraculosa,
agora uma mancha de óleo misturada ao pó já velho do vidro. Felizmente
o tomate, que parecia tão importante, não afetou a formação da
imagem miraculosa, que o Chico preferia sem ele. O olhar compassivo
se perdeu um pouco, mas ainda São José carregava nos braços um
menino que o olhava com um certo olhar entre alegre e sábio. Chico
se desculpou a eles dizendo que "havia acreditado ser uma mancha".
A veia do pescoço latejava ainda, mas continuou servindo os contra
filé, o arroz, o feijão, e até o bendito omelete, agora reformado
e inocente ante o fato da imagem.
Enquanto Chico servia os pratos, cortava
a salada, Dona Graça voltou, e o Chico pôde ver a aglomeração
que já se formava na porta do banheiro, exatamente na sua frente,
do outro lado do pequeno vidro. O que ele não sabia era que a
notícia começou a se espalhar após o almoço, e já às quatro da
tarde a padaria começou a receber filas de fiéis que ficavam enfrente
ao pequeno vidro rectangular que vivia fechado desde que o exaustor
novo retirava a fumaça. Os fiéis se ajoelhavam, murmuravam baixinho,
e Chico começou a se incomodar de ouvir os pedidos de saúde, emprego
novo, casamento da filha, de não ter engravidado ou de por favor
dar uma nova esperança a sua vida. Da mesma forma que pareciam
ser dirigidas a ele, o lembravam a toda hora do acidente que gerara
o incidente todo, do qual se sentia ainda inteiramente responsável.
Chico saiu da cozinha assim que o horário
de almoço passou, pouco antes das tres, mas tomou coragem e foi
ver como se via o seu estrago do lado do fora. E ficou impressionado
com a semelhança, que não era pouca, com uma imagem que tinha
visto quando era pequeno, e que o havia impressionado, principalmente
pelo olhar bondoso e alegre da criança. E começou a ficar confuso
tentanto deduzir o que teria acontecido.
A sua prece da manhã tinha sido cobrada
com um alto preço ? E como explicar que não tenha se queimado
? Não era um sinal de que Deus o tinha usado como seu sagrado
Instrumento para o milagre ? Pois, se tivessem falado "Chico,
arremesa o omelete para a parede, que quero q
\n';
document.write(barra);
}
}
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ue seja formada assim
a imagem de São José", obviamente não teria conseguido., e teria
achado a exigência um tanto ultrajante. Tinha sido melhor assim,
o bom Deus não ter preparado o seu coração para o que viria, mas
mesmo assim o Chico estava confuso.
Perto do horário de saída, seu Joaquim,
que era devoto mas também era padeiro, tentou interrogá-lo para
adivinhar a origem daquela imagem, a qual Chico negou ter provocado
(o que não era uma mentira completa, pois Chico não tinha de fato
formado aquela imagem intencionalmente e portanto da qual
não se sentia responsável direto).
- Eu tentei limpar, lembra, seu Joaquim
?
- Lembro, lembro. Tudo bem, Chico, vai que já deu tua hora,
seu trabalhou hoje foi muito bom. Amanhã às oito, sim ? Estas
são as gorjetas, de hoje. Nunca teve tantas...
- Tá então, seu Joaquim. Obrigado, seu Joaquim ! Até amanhã.
E assim Chico se despediu do pessoal e saiu
da padaria, esquivando os devotos que começavam a se aglomerar
na porta da padaria. Estava cansado, mas os murmúrios o tinham
deixado confuso e preocupado.
IV
Foi uma noite difícil, vendo o jornal local
descrever o fato, ver o seu Joaquim descrever o milagre, ver depois
no outro canal o famoso repórter Dudu Prezzo, com um certo capelão
que o Chico desconhecia, comparando aquela imagem que Chico já
tinha visto na infância com a imagem do vidro. Ritinha quis saber
o que tinha acontecido, e o Chico contou exatamente o que acontecera,
sem mencionar o incidente do omelete e de onde vinha o óleo que
formava a imagem com a sujeira.
Como uma rádio tinha alegado que a mancha
era formada pela poeira, um coro de incrédulos se formou em torno
da possibilidade de ser uma junção aleatória de velha poeira.
Mas o pior foi que alguém da padaria, usando esta alegação e após
uma hora de indecisão geral, limpou a poeira com um pano, cuidadosa
e respeitosamente. Mas a imagem não sumiu, pois a linha de óleo
ainda continuava lá, e mesmo que o menino Jesus tenha sido impíamente
destruído, São José continuou a olhá-lo compassivo, e os fiéis
urraram vitória. Neste ponto, narrado pelo Dudu emocionado, Chico
se convenceu de que não tinha sido quem provocara a imagem, mas
somente mais um dos instrumentos divinos. Jantou e depois conseguiu
dormir mais sossegado, por ter conseguido o emprego e por ter
se livrado da culpa que ainda o atormentava.
No outro dia, após uma noite com a Rita
como não passava fazia mais de mês, Chico acordou cedo, se arrumou
contente e chegou dez minutos antes na padaria, que já tinha uma
fila para as preces, mas que ele podia furar por ser funcionário.
Fez a prece para São José, agradeceu a graça concedida e se dedicou
a cortar os pães que iriam para a chapa.
==== / ====
Retorno hesitante:
Coluna
de Borvaz Sarsa
por Borvaz Sarsa [como Ermenegildo Fontana]
Vigília
Pois, como diria Lewis Carrol, aquele velho pedófilo, comecemos
pelo começo, continuemos pelo que se segue a isso e persistamos
até o fim, então paremos. Assim é melhor para todos. Ninguém sai
prejudicado.
O evento
Jorge levantava todo dia as 7h00 e ia trabalhar. Pegava o trem
e um ônibus e chegava pontualmente uma hora depois à sua pequena
baia e ligava o computador. Em sua mesa uma pilha de livros, um
pequeno arquivo com cartões e telefones, e um prendedor de anotações
dois meses desatualizado. Sua companhia a direita: uma prateleira
repleta de caixa com arquivos de processos. A sua esquerda, uma
parede de sujos tijolos de vidro, parcialmente obliterada por
uma chapa de madeira filtrava os sons e a claridade do dia, emprestando-lhes
um tom amarelado.
Toda sua luz era fluorescente. Haviam um
quê de zumbido no ambiente que parecia sempre um tom abaixo do
nível da audição. Talvez fosse algum micro, talvez o ar condicionado
que só ventilava, talvez algo nas lâmpadas mesmo. Jorge não conseguia
chegar a uma conclusão. Ele pensava nisso longamente, girando
uma caneta nas mãos. Nas jornadas de penumbra, escorado fitando
o nada, o teque-tleque do teclado e o zumbido eram tudo, ninguém
conversava.
Havia os passos indo e vindo da sala também,
é claro. Três pessoas tinham baias próximas a sua, na mesma sala.
Diariamente, resmungava-lhes "B'mdia", quando chegava, "Tchau",
quando saia. Quando tinha azar achava algum dos colegas ainda
no corredor. Então tinha que dar um segundo "B'mdia" quando chegava
a sala, algo que achava perturbador. Mas o ruim mesmo nestes casos
era caminhar no corredor, lado a lado. Nessas ocasiões sempre
pensava em dizer alguma coisa. Apenas muito raramente algo lhe
ocorria. Era pior ainda quando a outra pessoa era sua colega Daniela.
Apertava o passo, então, para terminar logo com o constrangimento
de não ter o que dizer. De estar vazio.
Assim, ou mais ou menos assim, Jorge teclava
embora suas horas de jornada. Datilografando as contendas alheias.
Desatando casamentos, registrando novos enlaces, testemunhando
a ruína de outras vidas. Guardando todo sofrimento nas caixas
indexadas alfabeticamente.
Um dia faltou luz e todos saíram da sala.
Jorge ficou sentado em sua baia. Fitando na tela do micro o Jorge
que o olhava de volta. Cinza de vidro. Mais velho, mais enrugado,
de óculos, esperando. Incrivelmente sereno. Nos olhos de seu clone
cinzento, via a luz que chegava da rua através dos tijolos. Quando
os demais retornaram, ele ainda estava lá. E, talvez exagerem
quando afirmem isso, afinal, ninguém jamais reparara nele até
o evento que se deu dias depois, mas uns hoje juram que ele sorria.
O vidro
Pedro odiava seu trabalho e disso não fazia segredo. Tinha raiva
da repartição e comentava fartamente suas picuinhas com seus colegas
durante o café. Ou nas inúmeras horas felizes após o serviço.
Tomando cerveja com aqueles que topassem "dar uma descontraída".
Como havia chegado a repartição por indicação
de parente, não temia represália. E se aproveitava disso: quando
reunia os colegas após o expediente, era invariavelmente o centro
das atenções. De suas críticas mordazes, ninguém escapava. Desancava
a burrice da chefia, espalhava as escapadas supostas de um funcionário
caxias com uma das meninas do protocolo, ridicularizava os burros,
as vulgares, os néscios, os estranhos.
"Sou um leitor de pessoas", ele dizia, se
gabando, "basta uma olhada em alguém que eu já sei qual é dele!".
Um de seus alvos favoritos era Jorge, o
funcionário esquisitão com quem dividia a sala. Quando uma das
cópias da chave do prédio sumiu, foi ele que cuidou de plantar
o rumor que esta estava com Jorge, que a usava para poder "trabalhar
os arquivos" nos fins de semana. Como Pedro se divertiu, quando
viu seu Alencar mandar chamar o seu colega calado para esclarecer
a questão!
Sempre saia cedo, e comentava com Aluízio,
o colega dez anos mais velho que trabalhava na baia ao seu lado:
"Não vejo como você consegue agüentar isso há tanto tempo". "Você
é novo, eu tenho dois filhos..." Era a resposta.
Vadiava o dia todo, sentado em sua baia,
olhando, através da parede de tijolos de vidro, para a rua: onde
gostaria de estar. Sentado ali, jogado para trás, ficava a matutar
as fofocas para a hora do cafézinho.
Um dia, quando Daniela passou sem lhe dar
um "oi", comentou com alguém: "Dizem que um 'grandão' colocou
ela aqui dentro".
"Deixa a moça!", disse Aluízio, "deixa a moça..."
Um dia, olhando para a parede de tijolos
translúcida se pôs a imaginar porquê havia uma chapa de madeira
tapando parte dela. No dia seguinte, antes de entrar no prédio
viu que no grande vitral do qual aquela parede de tijolos de vidro
era parte havia um buraco, grande o bastante para deixar passar
uma pessoa, exatamente no seu andar, tapado pela peça de madeira.
Foi o que bastou. Imediatamente espalhou uma história complicada
de traição e morte na qual o porque da existência de tal buraco
era peça central.
"Uma explosão!" ele dizia. Há uns dez anos
atrás. "Vingança da amante preterida...", explicava, com uma expressão
muito séria. "Preferiram abafar o escândalo. Alguns dos envolvidos
ainda estão na empresa..." Era sua explicação final, para os mais
cépticos.
Foi essa história que ele imaginou que havia
causado uma impressão em Daniela. Pois alguns dias antes da falta
de luz, ao retornar do café, notou-a mexendo na parede, próximo
ao tapume de madeira. Quando ela percebeu a sua presença, virou-se
de súbito, expressão culpada, e foi para sua baia. O tempo todo
o esquisito nem ligou. Nos dias seguintes, viu ela lançar estranhos
olhares naquela direção. Pegou até mesmo Aluízio olhando. Nunca
comentou nada a respeito. Apesar de muito ter pensado nisso, depois
de todo o ocorrido.
Garatuja, antes do fato.
"Ficou perigoso.", ele disse.
"É a última vez.", ele disse.
"Onde está a chave?".
As palavras dançavam na mente de Daniela,
e no espelho do teto ela se via nua e perplexa. Uma situação estranha,
pois ela se reconhecia na perplexidade. Aquela expressão no rosto
era dela. Mas a imagem do corpo não. A imagem que se deixara refletir
havia momentos nos espelhos do teto, nos espelhos das paredes,
era alheia. Não era ela aquela que estivera acompanhada, a deixar-se
empolgar pelos quadris, em contorções dignas de descrições de
Aluízio Azevedo.
Ela matutava isso, pois Daniela era assim.
Era assim que ela pensava. Ela conhecia Aluízio Azevedo. Citava
Nelson Rodrigues. Ela lia, não era uma vadia, uma qualquer. Não
precisava daquilo. Não precisava dele. A cada vez era a mesma
coisa. Ela sempre se prometia que seria a última vez.
Depois ela sempre voltava e a trabalho,
a luz que passava pelos tijolos de vidro, projetava sombras. A
garatuja estava lá. Acusando-a de ser tão volúvel, tão burra.
De se deixar envolver. Sempre a estranha mancha, que lhe lembrara
Tintin, de Hergé. Que ela lia quando pequena. Quando ela sabia
quem ela era. Com certeza não a mulher nua no teto.
Todos os dias, quando ela passava por ali
na hora de sair, Tintin a acusava de dentro do tijolo de vidro,
ao lado do tijolo furado, próximo ao tapume de madeira onde ela
pegava os recados dele. Naquela forma deles de se comunicar em
segredo. Sem ninguém na repartição saber.
Toda a maldita precaução dele. Toda a maldita
pose de homem de família dele.
Hoje a chave não estava lá, alguém a retirara,
talvez o esquisito do Jorge. Foram obrigados a se encontrar ali,
e dessa vez, ele disse, era a última vez. Ele estava assustado.
Ele estava brabo. Ela se olhava sozinha no teto.
Cerimonial
Dentro do escritório vazio, enquanto as pilhas de arquivos em
que tantos problemas repousavam, tornavam-se fumaça, ele pensava:
"O fogo purifica a dor~. Quando as chamas o envolveram, sentia-se
feliz.
Aparição
Quando todos chegaram ao trabalho, o edifício era uma ruína carbonizada.
Uma pequena multidão havia se reunido em oração. No grande vitral,
nos tijolos semi-fundidos viam o vulto de nossa senhora.
Aluízio, Daniela e Pedro, esperaram ali
por algum tempo, observando a multidão. Então foram embora.
"It's a poor sort of memory that only works
backwards."
(Red Queen - Alice through the looking glass, Lewis Carrol)
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Informações: http://br.f205.mail.yahoo.com/ym/Compose?To=borvazsarsa@zipmail.com
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Fanfarras Abissais
Demétrio Antenna,
pelas mães de Fábio Luis Emerim
Passagens de Cunho Religioso
Psicografias
Luiza
Não pude me despedir, amor da minha vida, mas tenha certeza que tudo
aqui está na santa paz.
Não pude encontrar meu pai e nem meu avô, mas soube que estariam
aqui logo, logo. Dizem que nem eles sabem que eu desencarnei.
Pede pra Maria deixar de ser cética e passar a rezar por minh'alma,
pois às vezes dói a vontade de passar as tardes na grama com todos
vocês. Avise minha mamãezinha que seu filho não sofreu deformações
devido ao acidente. Terrível acidente. E não fica braba agora
porque não pude me despedir, eu já disse que não deu tempo, caralho!
Alencar (por Vianna Silva - seu filho)
Pai. Que merda! não faço a menor idéia de como tudo aconteceu! Eu
só me lembro duns moleques chegando perto de mim e do Dilnei com
umas armas apontadas. Daí de repente eu acordo no meio de uma
sala branca com a vó me olhando! Gostaria de saber onde eu estou,
mas a única coisa que me disseram foi pra eu escrever essa carta
e tomar uns comprimidos num copo aqui do lado da cama. Eu nem
to reclamando, pois só pelo fato de não precisar mais encarar
o Seu Walmor já vale a pena. Bem, vou ficando por aqui. Eu sinceramente
acho que to num hospício, pois já me disseram que eu preciso adquirir
luz! Mas que merda, como será que eles sabem que eu não comprei
a lâmpada que a mãe pediu semana passada e gastei a grana no fliperama?
E agora, especialmente pras Mulatas de Jesus Cristo, a primeira e
única real mensagem de Chico Xavier. A família reconheceu como
sendo do falecido médium porque começa com uma senha que ele combinou
seria utilizada em sua primeira mensagem.
Queridos
Senha: Re-integro - patas de galinha.
Gostaria de dizer que to meio chateado depois de tanta comoção. Achei
que seria instituído um feriado nacional, ao menos uma semana
de luto, mas não, temos um presidente ateu! Na boa, se eu pudesse
voltar atrás, tinha sido garçom, ou trabalharia em algum night
club, mas passar a vida escrevendo pelos outros, neeeeeeeeem!!!!
Enfim, mudando de assunto eu estou feliz, apesar de ter morrido,
pois quando a gente chega aqui um anãozinho de cinta-liga (sim,
também achei estranho) te pergunta qual a idade que a gente quer
ter aqui na eternidade. Eu disse pra voltar aos meus 25 anos.
Resultado: to que to! nem me lembrava como eu era gato! Como eu
fui um bom divulgador do espiritismo, tenho certas regalias, óbvio,
como por exemplo um quarto com suíte só pra mim, uma bicicleta
e um chevete! Eu sei, eu sei, vocês devem estar se perguntando
que raios de paraíso é esse que me reservou uma merreca de uma
recompensa depois de uma vida inteira dedicado aos pobres. Se
eu contar pra vocês que um bispo da Universal passou por mim esses
dias com uma Ferrari recheada de peitudas de topless dá pra concluir
algo? Exatamente, comecem a cobrar toda consulta. Foda-se! To
que nem aqueles coitados que trabalham 30 anos pra se aposentar
com uma miséria do caralho! Aliás, eu queimaria todos esses livros
que eu psicografei e virava pastor evangélico, parece que o Todo
Poderoso aqui (que eu ainda não conheci, pois tá em um congresso)
só recompensa quem faz a galera aí embaixo pagar dízimo. Eu virei
punk e cortei meu cabelo moicano. Podem divulgar, quero ver o
Gugu engolir essa: Chico Xavier de cabelo moicano!
Mas, enfim, to aqui com 25 anos e to começando a trocar olhares com
a Lady Dy! A foda é não saber falar inglês, mas azar, eu preciso
molhar o biscoito, tanto tempo usando só a mão, tanto pra escrever
como pra bater punheta...
Sim, eu to extremamente bagaceiro. uma maneira de me revoltar! Só
isso! Ponham-se no meu lugar!
Bem, to ficando por aqui. Vão tudo tomar no cu.
Chico Xavier (revoltado)
Momentum Evangélico
A Testemunha do Jeová
Jeová tinha mulher e filho mas foi visto comendo a vizinha. Não faltava
mais nada. Semana passada já tinha sido despedido por ter sido
visto roubando chocolate das prateleiras do supermercado.
Jeová estava sempre se dando mal, pois nunca conseguia um bom
álibi, daí acabava na pior. Só que dessa vez o cara realmente
não tinha feito nada. Mas, como sempre, não sabia como livrar
o rabo de novo. No dia em que preparava as malas pra ir embora
de casa, o telefone tocou:
- Alô.
- Alô, seu Jeová?
- Sim, ele.
- Seguinte, eu vi tudo e sei que não foi o senhor quem comeu
a Dona Marinalva.
- Quem está falando? - largou as roupas no chão.
- Sou sua testemunha, mas só poderei falar se você me ajudar a
criar uma religião evangélica.
Daí criou-se a seita das Testemunhas do Jeová, que não é a
Testemunhas DE Jeová. Uma questão de preposição.
Momento das Indulgências Católicas
Psicografia de Maria no vidro de uma casa de umbanda.
5:56, manhã - venho por meio dessa ventarola pôr fim a um erro que
ultrapassou décadas e não pude desmascará-lo. Falo da uma suposta
aparição minha na cidade de Fátima, Portugal. Tá tudo errado.
Eu não apareci praquelas crianças malucas, ora, onde já se viu?
Eu tinha mais o que fazer, não acham? Agora porque isso tudo aconteceu,
Deus resolveu me colocar de castigo sem ouvir explicação. É
brabo a pessoa ser esquizofrênica e ainda eu ter que pagar o pato
por isso. Aliás, venho pagando o pato dos esquizofrênicos há séculos.
Só que eu pude agora sair da clausura pra poder esclarecer esses
mal-entendidos. To aproveitando que o Todo Poderoso resolveu ir
pescar com Jesus, o Cristo.
A bosta é que eu não tenho mais tido tanta notícia da Terra, daí
o que eu pensei que era um lago cristalino (maldita miopia) era
uma droga de um vidro! Agora foda-se.
==== / ====
Esta Coluna Não
Prestes
o Melhor do Mulatas
(na minha opinião, é claro...)
O texto re-editado de hoje saiu
originalmente no Mulatas número 33, o primeiro depois de minhas
férias ( tão merecidas férias ). Tava eu de bobeira e comecei
a colocar piadas de sites em inglês pra serem traduzidas pelo
tradutor do Google. Olha no que deu:
"Hey, '' Do Laço De Nice
Um homem anda em uma barra, senta
para baixo, e requisita uma bebida.
"hey, laço agradável!" sai em nenhuma parte. Olha acima no bárman
para ver se disser qualquer coisa, mas desde que estava no outro
lado da barra o homem ignora-a apenas.
"hey! Camisa de Nice!" O homem olha acima mas, outra vez, o
bárman é acoplado em outra parte.
"hey! Terno de Nice!" O homem chama então o bárman sobre e pergunta-lhe
se se mantiver lhe falar.
"não é mim, ele é os amendoins complimentary."
°°°°°
Um Humor Pequeno De Lysdexic
Você ouviu-se sobre
o insomniac dyslexic, agnostic?
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
>
Permaneceu acima de toda a noite que quer saber se houvesse
um cão.
°°°°°
Uma tonelada da compressão
Que pesa 2.000 libras
e pinches?
Um elefante que desgasta um tuxedo apertado!
°°°°°
Alexander e Kermit
Que Alexander o grande e o Kermit
a râ tem na terra comum?
Seu nome médio.
==== / ====
Cartas
Senhor redator
Conheço pessoalmente a santinha, e posso assegurar-lhe
que a aparição na janela é falsa. A santinha é muito mais bonita,
aliás, é linda!!! Além disso, a auréola é oval e brilhante, com
uns detalhes azulados, ornada com lantejoulas, vidrilhos, paetês
e pesa cerca de 13,5 quilos. Tudo o que essas pessoas estão mostrando
e indo ver é um grande pecado e todos serão castigados; peço-lhe
que publique este aviso com urgência.
Da sempre sua
Indayara, um espírito de luz.
Senhor redator
Posso garantir que a aparição da santa na janela é falsa.
Digo-o com a mais pura convicção e certeza, mas, sobretudo, com
grande magnanimidade e ternura. Os que crêem hão de saber o que
os que não crêem também cedo ou tarde saberão na glória do Senhor.
Da sempre sua
Santinha, a própria.
Senhor redator
Tenho a informar-lhe que proibi, recentemente, aparições
em janelas, razão pela qual posso assegurar-lhe que a manifestação
da santinha no vidro é absolutamente falsa. Orai e vigiai e não
tomeis o meu santo nome a não ser em cálices apropriados de puro
estanho e ouro.
Do sempre seu
Eli, aquele que é.
Senhor redator
Cumpro o dever de informar que a aparição na janela é absolutamente
verdadeira. Aqueles que não crerem e não tiverem fé serão terrivelmente
castigados com um dilúvio de água, fogo, enxofre e absinto; e
esse será somente o primeiro dos milagres da santinha, que muitos
mais e terríveis haverá.
Da sempre sua
Santinha, a própria (a de cima é falsa)
Senhor redator
Cumpro o dever de informar que estou em dúvida quanto à
verdade ou falsidade da aparição. É que passo por uma séria crise
de identidade e ando muito angustiada.
Da sempre sua
Santinha, a da janela.
Senhor redator
Minha gente
Creiam na Santinha, que ela salvará o Brasil.
Do sempre seu
Fernando Collllor de Melllo
Señor redator
Puedo
garantizarle que la aparición es de La Virgen Sancta de Guadalupe,
que por todos nosotros tiene mucho amor
De la que jamás será suya
Talia, la de la Piel Morena
Senhor redator
Tenho um hino composto para a santinha e espero
que o senhor o publique
"Ave santinha, Mariazinha, tão bonitinha, na janelinha.
A ti rezamos, a ti rogamos, a ti imploramos, também oramos.
Ave Maria, Maria Ave, ave Maria, Maria ave." (repetir 347
vezes)
Senhor redator
Cá em Berto Círio apareceu um Cristo azul muito parecido
com a santinha da janela; só que ele apareceu na porta. Peço-lhe
que divulgue esta importante informação para que as pessoas venham
pedir milagres.
José de Arimatéia Vergastel Cardozonline da Silva, sempre
seu (?!!);.
Çenhor redatôr
Eu vi a çantinhia e é ela mezma porqe aparesseo em fatima
e lurdis e vai dizê todas as coiza qe aspeçoa não çabe e fazê
os mil agre qe todos perciza.
Çempreçua
Rodineide aparessida di fatima i lurdis cardosonline
====
/ ====
De Supetão
Roberto "Yellow" Moschen Jr
A lembrança veio impregnada de
cheiros. Ela passava a mão em meus cabelos, longamente, mãos de
lavanda e sabão de soda, eu olhando para longe, rosto sério. Ela
mantinha os olhos semi-cerrados, como a tentar adivinhar-me, então
a face entristecia e ela me beijava.
Eu nunca lhe prestara atenção.
Eu nunca prestara atenção a nada, na verdade. Passei pela vida
amuado, seco. Minha mãe entendia, agora vejo em seus olhos, os
olhos no reflexo da vitrine da loja, irreais no padrão estilizado
que eu apreendera como sendo os dela.
Fiquei chocado, penso, olhando.
Nunca ficara chocado antes. Por que vira os olhos dela? Justo
os dela?
Voltávamos da minha escola todo
dia de ônibus. Meu olhar perdido na paisagem que passava indiferente.
Ela, a meu lado, me olhava. E passava as mãos com cheiro da lida
doméstica nos meus cabelos soltos. Eu tinha cabelos finos, caídos,
mas ela insistia em ajeitá-los para, logo em seguida, voltarem
a cair. O olhar triste, o beijo, morno, que eu ignorava, preferindo
a paisagem.
No shopping movimentado não notavam
a mim, ali, parado, inerte, o olhar preso à vitrine, aos olhos
de minha mãe, ao cheiro da lavanda e do sabão de soda. O que teria
ela imaginado de mim quando crescesse?
Num estremecimento, percebi a
falta que tinha sido para ela. Eu nunca fôra um filho, fôra uma
ausência, um cabelo que ignorava seus gestos carinhosos tentando
arrumá-los. Nunca senti sua falta, ou de quem quer que seja, ou
do que quer que fosse. Segui em frente com a face séria, me despedi
dela sem lágrimas quando fui morar sozinho, segui o caixão dela
incólume até seu destino final.
Mas não importa, não agora. A
mão em meus cabelos, a face séria e depois triste, o olhar na
vitrine, nada disso importava mais, nada disso jamais significara
algo.
A faxineira passou limpando o
vidro com detergente. A imagem sumiu com o rodinho dela. Os olhos
de minha mãe... que viagem.
***
Eu acho que aquela imagem na
janela é a de um dedão levantado.
O Grande Dedão, só esperando
os crentes se ajoelharem para enfiar-se cus adentro.
***
Esta é para ser uma edição especial,
com direito a coral da Ospa e vidros sagrados. Por isso aqui vos
anuncio que para mim foi revelada a imagem do Sagrado Oboé na
janela da casa da Salete, minha vizinha, que simplesmente o ignorou
(e há de pagar caro por isso). Não sei o significado disso, talvez
seja um aviso para continuarmos com nossa campanha de doação de
oboés em nome daqueles menos favorecidos que não possuem o sacrossanto
órgão.
Por favor, caso tu vás a nossa
festa neste sábado, não esqueça, traga seu oboé, tá bom, Miltinho?
[nota do editor: quem não tiver
oboé pra levar pra festa pode ir igual, afinal de contas foda-se,
né?]