::: AS MULATAS DE JESUS CRISTO :::
As Mulatas de Jesus Cristo
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As Mulatas de Jesus Cristo    
nº 53 - Canoas - 05/07/2002
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SUMÁRIO
 
EDITORIAL  Fábio Luis Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS  Fábio Luis Emerim
COLUNA NOSTÁLIGA  Mulata's Greatest Hits
DE SUPETÃO  Roberto Moschen "Yellow" Jr.
ANIMÚNCULOS VORAZES  Borvaz Sarsa
FANFARRAS ABISSAIS  Demétriu Antenna, ou eu mesmo...
A CONTRIBUIÇÃO VOSSA DE CADA DIA  textos de Telmo dos Santos Abech e Julián Catino
VERSOS SOLTOS  Fábio e seus alter egos
 

 
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EDITORIAL
Fábio Luis Emerim
 
Bem, bem, bem, bem, bem, a Copa acabou e o Brasil papou o quinto título. Não ganhei porra nenhuma com isso, somente noites mal-dormidas. Ah, também foda-se, eu curto um futebolzinho.
 
....
 
Outra coisa. A BAND fez o favor de mudar o horário do College na TV, da Ipanema FM, pra colocar no lugar uma porra de um programa da Igreja Universal com aqueles pastores insuportáveis entrevistando aquela gente coitada falando de como era desgraçada sua vida "antes de conhecer Jesus".
Segundo a matéria de capa da revista Veja dessa semana, os evangélicos estão crescendo cada vez mais no Brasil.
Aí não bate o desespero? Entre as pérolas do programa de TV, aparece exorcismos, um bando de demente escalando um monte em Israel, e propagandas sobre os cultos e sua "corrente dos 318 homens de deus". Agora, somando isso a um Senador da república querendo legalizar e profissionalizar a astrologia, e um candidato a presidência que se afilia ao partido da igreja do Edir Macedo, a mim não resta mais nada a não ser continuar a ser um ateísta militante que luta pelo laicismo do Estado e pela desinfetação de tudo que é tipo de crendice da nossa sociedade a partir da divulgação da educação e do pensamento crítico e científico.
Estou realmente indignado com tamanha enxurrada de merdas religiosas que diariamente inundam nossas casas inadvertidamente através da televisão. Quero que fodam-se todos que se sentirem ofendidos pela minha condição, uma vez que vivemos em um País de liberdade de credo, mas que não respeita a liberdade de não-credo, que nos moldes da incapacidade de aceitação da ausência de preferência clubística no futebol, impondo àqueles que não torcem para nenhum time por simplesmente não gostar, que participem da euforia em massa pela conquista de um título, impõem que temos que acreditar em um "ser superior" invisível, intocável e desassociado - no meu ponto de vista - a qualquer evento natural que temos ciência. Quero mostrar minha repugna por toda mídia que, irresponsavelmente, endossa todo tipo de manifestação sensacionalista traduzida em cultos evangélicos, aparições de santas, supostos milagres, rabdomancia, quiromancia, astrologia, e quaisquer outras, mas não menos revoltantes, "mancias" que contribuem para o processo de debilitação mental da maioria da nossa sofrida e injustiçada população.
Enquanto os irresponsáveis que estão no comando continuarem a isentar os templos de suas obrigações fiscais, cruzarem os braços quando a religião é ensinada em escolas públicas, estaremos fadados a uma possível futura teocracia, onde teremos que, ao invés de prestarmos respeito à pátria - se é que alguns o fazem - rezar sob pena de prestarmos satisfações caso recusarmos tal incumbência.
 
.......
 
É incrível como aquela carta para o Senador Artur da Távola, de autoria de José Colucci Jr, da Sociedade da Terra Redonda, que eu publiquei aqui no Mulatas passado, causou furor entre certas pessoas. Pra quem tá pegando o bonde agora, o acima citado Senador, do PSDB-RJ, fez o favor de criar um projeto de lei para a regulamentação da astrologia como profissão legal no Brasil. A coisa é que, além do absurdo da lei, ainda temos que nos virar com as pessoas que defendem passionalmente que essa pseudociência abanque-se no quadro de profissões no Brasil. A exemplo, abaixo segue um mail de um agora ex-assinante do nosso zine que se pudesse, acho que teria jogado uma bomba aqui na minha casa/redação do Mulatas:
 
"É o seguinte, não sou ateísta, digamos que sou
agnóstico. Estou apenas mandando este e-mail, para
avisar que odiei o comentário na última edição do
mulatas. Pois acho que todos tem o direito de ter suas
crenças e vocês não são tem o direito de julgar, ou até
recriminar uma ciência que vocês nem ao menos estudaram
e conheceram para falar. Qual é a de vocês, virou
nazismo essa porra? Ninguém pode acreditar mais no que
quiser. E se foi reconhecida como trabalho, é porque é
uma ciência verdadeira. Minha mãe é astróloga, e todos
os casos de mapas feitos por ela foram verdadeiras. Por
tanto cancelem essa merda de e-mail, que eu não tenho
mais estômago para ler as idiotices ditas por vocês.
Grato. 
Leandro Cenati"
 
Hehe, legal, né? Acho que todos têm o direito de defender o que acreditam, sem a menor sombra de dúvida, mas também têm que estar dispostos arcar com as merdas que falam.
Primeiro que eu também acho que todos têm o direito de ter suas crenças (apesar de viver em um País que não me sinto com o direito e a liberdade de ser descrente) , mas também me reservo o direito de julgar sim, pois caso o brabinho acima não deve saber, "EDITORIAL" nada mais expressa que a opinião pessoal de seu autor, logo, se eu acho que comer merda é bom e considero as pessoas que bebem Yakult seres assexuados com um mau gosto do caralho, eu vou dizer e azar de quem ler (claro que eu não como merda e adoro Yakult, mas foi apenas um exemplo). E depois, quem aqui recriminou uma ciência???? Aliás, desde quando astrologia é ciência??? E eu preciso estudar aprofundadamente astrologia pra concluir que é um absurdo que a disposição dos astros no céu possam definir nossas características pessoais e ainda realizar previsões? E se a mãe do autor do texto acima é astróloga, aproveito aqui para dizer que o desavisado acabou de incorrer em uma falácia argumentativa chamada de "argumento de autoridade", ou seja, quando utiliza-se da opinião de outra pessoa por esta ser, ou graduada em algo, ou mais velha, ou famosa, o que não dá aval algum para que seja de opinião válida ou definitiva para encerrar o assunto, como o leitor quis fazer. Eu poderia chamar aqui um adepto da urinoterapia com 20 anos de dedicação à essa fina arte e impor, por suas palavras, que essa técnica funciona. Ou chamar um neto, ou filho de algum oficial da Gestapo para que ele diga que o Nazismo é maravilhoso. Isso daria algum valor definitivo e indiscutível ao assunto? Por favor...
Ah, cancelamos a assinatura do leitor - como ele mesmo pediu.
 
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Ó, incubi o Yellow de criar uma chamada pra nossa festa! Taí:
 
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FESTA DE ANIVERSÁRIO DO MULATAS!!!
 
É isso aí, fizemos hum aninho! E vamos comemorar todos juntos
reunidos juntinhos de mãos dadas com sorrisos marotos, olhos
lacrimejantes, cabelos ao vento (Fábio, leva os ventiladores), sol
trigueiro e alma lavada de amor e espúrios sentimentos!!!
 
A balbúrdia democrática se dará nos seguintes termos:
Dia 27/07 - sábado
ZELIG
Rua Sarmento Leite, 1086 - Cidade Baixa - Porto Alegre
Começa às 20:00. O andar de cima do Zelig foi reservado para nós. Vai
estar forrado com lona impermeável e coberto de lama.
(brincadeira...).
Consumação: R$ 3,00 mais um oboé.
As primeiras 329 pessoas a entrarem com um oboé levarão uma camiseta
da Dercy Gonçalves nua agarrada num destes instrumentos.
Leve sua mãe, o primo Gonçalves e a Marieta da fruteira!
Senha: O oboé ou a vida!
Tô tri curioso pra ver tua cara!
-texto: Roberto Moschen Jr
 
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Críticas, sugestões, textos, antrax: mulatas@terra.com.br
 
Lista, ou grupo, ou o que você entenda que é: mjcgroup-subscribe@yahoogrupos.com.br
 
 
 
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Casulo 14 - O Portal das Averiguações Noturnas
Fábio Luis Emerim
 
Um ano de Mulatas, hein? Meus pais são os únicos que eu conheço que me enchem o saco a respeito, e só por causa do nome, que nem o pai do Yellow! "Troca o nome desse jornal, filho.", dizem uma vez por semestre, quando entram aqui no meu quarto e estou escrevendo os textos. Mas eu entendo, creio que não parece claro pra eles que o nome é uma brincadeira. Pra eles não se brinca "com essas coisas". Engraçado...
 
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Estorietas
 
 
Fuga de Bar
 
Aconteceu às 3 da manhã de uma noite fria. Uma confusão teria gerado a situação. Hermes, o querido da dona do bar, teria sido atingido por uma cantada perdida, o que deixou Lairzinho puto da cara. Pois Thaís, a garçonete, não teria acreditado nem creditado a ele suas mais dengosas pelancas, uma vez que seu olhar não foi proposital. O alvo de sua investida era, óbvio, Lairzinho, que estava mais atrás, de camiseta bege.
Daí que o Hermes foi à luta. O que Thais não imaginava, é que seu olhar fora mal interpretado por todos.
Resultado: Hermes sendo parado por Lairzinho, que jurava o pescoço da garçonete e Vânhea, a dona do bar, correndo atrás da Thaís.
Deu-se, então, a fuga do bar. Hermes na frente, Thaís logo atrás, Vânhea e Lairzinho armados até as fuças.
 
As menininhas
 
As menininhas se encontravam todo o fim de tarde na frente da escola. Eram amigas demais. Todas as quatro. Só que cada uma delas estava em turmas diferentes. Que saco era isso. Só podiam conversar no recreio ou na saída da escola. Uma vez foram ao shopping pra ver se encontravam o Marquinhos e seus amigos do segundo grau. Elas estavam naquela fase infeliz da adolescência em que tudo é ruim, menos os meninos. Daí, naquela tarde, Pricila, Ludmila, Carmila e Joana, emperiquitaram-se dos pés à cabeça para chamarem atenção. Todas com 13 anos. Já no shopping, e depois de 50 voltas, resolveram mandar os guris à merda e tomar sorvete. Mas com uma só bola, já pensou engordarem e não conseguir mais namoradinhos?
 
Que continho mais Mickey...
 
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BIG FATHER UNIVERSAL
 
No paraíso,  na frente de vários monitores de enormes aparelhos de TV's, Deus tomava sua cervejinha ao lado de um computador e de um PABX. Era dia de eliminação, aliás, todo o dia é dia de eliminação. De acordo com as votações de vários santos e anjos on line em cima de várias nuvens ao redor do mundo, o Todo Poderoso colocaria no paredão e detonaria vários participantes do jogo da vida. A diferença é que não havia a possibilidade de comunicação do Big Father com os concorrentes. E ao invés de uma pessoa, iriam vários grupos para a berlinda.
Lá pelas 10 horas da noite - hora local - começou a votação. De uma massiva diferença de votos - 75% contra 25% -  saiu o destino de uma criança favelada no Rio, que era ser eliminada a partir de uma bala perdida. De lá de sua cabine, Deus, com todo sadismo que lhe é devido, pressiona um botão em seu controle-remoto celestial sem hesitar. Imediatamente a criança de colo tem sua cabeça esfacelada por uma bala perdida. A mãe, que segurava-a nos braços, ajoelhou-se e começou a chorar olhando para o céu. Confundia choro e oração, soluço e palavras incompreensíveis. Perguntava porquê Deus tivera feito tal coisa. Não obteve resposta, pois de sua sala de controle, Deus já estava com os olhares atentos a outro monitor que focava a Avenida Paulista. Depois de uma votação de 80% contra 20%, decidiu-se o trágico destino de uma família prestes a atravessar a rua. Ao colocarem seus pés no asfalto,  um ônibos impiedoso e desgovernado atropela mãe, pai e três filhos. No funeral, o padre tentava consolar os desesperados e revoltados familiares tentando explicar a ligação entre os misteriosos meios que Deus se utiliza para reger a vida e a paz da alma Em sua sala de controle, o Senhor já tinha desligado os monitores pro Brasil há um bom tempo. Precisava colocar seu sádico jogo em dia; para tanto, três monitores olhavam o Afeganistão. Por 60% contra 40%, seu joystick guiou e bombardeou uma festa de casamento nos arredores de Kandahar.
Ao lado, perto de sua sala, alguns anjos não podiam deixar de ouvir seus risos histéricos após cada botão pressionado. "Sabe o que mais me intriga?", perguntou o primeiro querubim que levava o engradado de cerveja pro Pai Celestial, "não", respondeu o outro, mais baixinho. "É de como ele consegue manter o mesmo nível de sadismo por todos esses anos e as pessoas lá embaixo ainda não se tocaram que estão numa bela encrenca". "Fala baixo que ele pode te ouvir!", respondeu o outro com as caixas de cigarros, ,"tu te esqueceu do que ele fez com o último que tentou desafiá-lo? Mentiu pra toda Terra que ele era o mau e até hoje o coitado do Lúcifer é o bode espiatório de todas as atrocidades que ele mesmo faz daquela sua cabine..."
 
 
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Prezados leitores, já que estamos em plenas comemorações de um ano de Mulatas, estréia hoje a...
 
Coluna Nostálgica
 
Com os melhores textos, colunas, crônicas e afins que fizeram parte de nossa fabulosa cruzada fanzínica. Ok, vamos a eles!
O texto de hoje saiu originalmente no Mulatas nº03, de 08/06/2001.
 
 
Repasso o texto tal e qual recebi:

Prezado Sr. Fábio

Viemos por meio dessa, além de agradecer mais um espaço aberto para a divulgação de boas idéias, informar que estamos abrindo no Brasil, mais precisamente em Porto Alegre, RS, a facção brasileira da organização GPSG - Green People Support Group (Grupo de apoio às pessoas verdes). Trata-se de uma ONG que hoje está em mais de 36 países e teve sua origem em Tel Aviv. Vale dizer que em Tel Aviv nossa sede é conhecida como a "Sede Flutuante", pela inviabilidade de permanência em um local fixo uma vez que nossa ONG, como é conhecida atualmente, foi fundada há 20 anos atrás por um grupo de 6 palestinos morando ilegalmente em Israel.

Seu Presidente, o Sr. Abhmul Neggir Abmail, é procurado pela ONU, só que o mundo desconhece, pois a informação é camuflada. Inclusive seu nome não é esse.

As diretrizes básicas do Grupo são:

1- Apoiar, sem distinção, todas as pessoas verdes existentes hoje no mundo inteiro;

2- Localizar, fichar e proteger todas as pessoas verdes do mundo;

3- Desevidenciar as pessoas verdes na sociedade;

4- Queimar arquivos;

5- Injetar nos governos pelo menos uma pessoa do grupo de apoio;

6- Eliminar imediatamente qualquer pessoa QUE NÃO SEJA DO GRUPO que tenha visto um cidadão verde desavisadamente;

7- Negar, veementemente para todos os meios de comunicação de massa que existam pessoas verdes.

8- Fazer plantão em TODOS os hospitais e maternidades para checar nascimentos de pessoas verdes.

Vale dizer que esse mail tornar-se-á totalmente desconexo caso o Sr. dê "forward" para tentar divulgar essa idéia sem a devida permissão do Grupo.

Aguarde maiores informações

Grato

Bendt Alweolah (meu nome não é esse) Green People Supporter Manager for Latin America.

 

 
 
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De Supetão
Roberto Moschen "Yellow" Jr.
 
 
Coceira no períneo
 
A mulher andava de um lado para o outro na sala do seu apartamento no
subúrbio, arrastando os chinelos e o roupão cor-de-rosa, segurando um
copo cica de uísque caro e esquecendo um pouco seus 48 anos.
Seu marido chegaria em 1 hora e 32 minutos. Não que isso fizesse
alguma diferença na frieza da casa, mas era justamente esse o
problema. Nem a grande e estúpida barriga dele a incomodavam mais,
nem seu hálito de cigarro com café, nem o óleo em sua testa, nem a
secura do "oi" dado com os olhos já voltados em direção ao quarto
onde iria despir-se rapidamente e jogar-se no seu banho
pré-televisão/pré-cama.
Andava murmurando algo para si mesma, mas nem ela ouvia mais o que
dizia.
Preferiria olhar a novela que olhar seu marido despir-se, pensou. A
novela ainda guardava algum segredo... e o cuidado com a estética era
desigual entre as duas partes.
Sentou-se de pernas abertas e coçou o períneo. Será que tava com
fungos, meudeus?
Bebeu o resto do uísque caro no copo cica, saiu do apartamento e foi
até a entrada do prédio segurando o cartaz previamente preparado.
Postou-se em frente a porta, do lado de dentro (estava frio lá fora),
o roupão entreaberto deixava um dos seios parcialmente à mostra. No
rosto, um sorriso fixo, ingênuo e mórbido. No cartaz, lia-se: Quero
fuder!
 
***
 
Astrologia
 
E continua a celeuma da astrologia.
Sinceramente, convenhamos, que merda isso. Não sou a favor de proibir
isso, quem quiser, que pague por seu mapa astral. Mas legalizar,
criar cursos universitários e permitir que até concurso público se
faça para astrólogo é demais! Qual o critério? A astrologia sequer
tem comprovação científica, é baseada em crença, sendo assim, até
copromancista tem direito a profissionalização!
E a educação, ó...
 
***
 
Estou de bem com a vida, e no próximo dia 27 tem festa do Mulatas. É
isso aí, festa do Mulatas, comemorando um ano dessa merda! ÊÊÊÊÊ!!!
Meu pai disse para mudar o nome do zine que a gente não ia se
arrepender. É que ele agora é evangélico... hehehe
 
Ah, tô com gripe! Dóem até os dentes, saco! Nunca mais tinha tido dor
de ouvido... até essa gripe. É de levantar morto e matar Highlander.
Deixa eu ver um texto idiota e estranho pra fechar a coluna...
Ah, olha esse:
"La gripe es una enfermedad contagiosa causada por un virus. Un virus
es un germen que es muy pequeño. Los virus de la gripe afectan muchas
partes del cuerpo, incluyendo los pulmones."
 
Cya later, alligator!
 
 
 

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Animúnculos Vorazes
Borvaz Sarsa
 
Retorno hesitante: Coluna de Borvaz Sarsa
por Borvaz Sarsa [como Ermenegildo Fontana]
 
Interlúdio em zigue-zague
"Puta merda! Tu aqui!!!."
1 Cerne
"O acaso não existe", ela dizia. Talvez com algum conhecimento, pois mesmo quando perambulava passava firme noção de propósito, de saber aonde ia. No momento as palavras não significavam nada, era uma dessas frases que saiam rotineiramente de sua face magra, através de sua boca nervosa e quase sem lábios. Enquanto caminhava de uma lado a outro do pequeno JK, volta e meia bisbilhotando a tela do computador para ver o que ele escrevia, Helena soltava essas frases curtas, como pequenos socos, sua forma particular de se expressar. Já era habitual, uma cerimônia diária. "Como vai indo o livro", costumava ser a fala seguinte.
Emílio resolveu se adiantar: "Hoje terminei um capítulo" Disse sem tirar os olhos da tela, como não houvesse resposta, voltou-se para fitá-la. "Acho que consegui definir o porquê da imagem recorrente do guindaste no porto. Se encaixou legal."
Helena, com ambos os braços para trás, escorada na pia, tensa como uma mola, ouvia-o de olhos todos. Como uma criatura acuada esperando o tempo certo para reagir, acompanhava cada palavra. Observava-o enquanto começava a falar mais devagar, mais hesitante e finalmente, desviava o olhar. Sua deixa.
"Tu já não havia definido que isso reportava a conversa anterior dele com a Luísa? A referência ao ´gancho-do-céu´... você sabe... o supremo apelo a autoridade, o deus ex-machina que parecia iminente no final do capítulo anterior, que validava moralmente a repetição dos mesmos erros..." Ela se detêm, a suaviza o rosto (Haveria um traço de carinho na voz?), e diz: "...acha que o prazo vai ser o bastante?"
"Vou tentar", ele quase que nem fala, quase que zumbe, quase que nem abre a boca. Pode ouvir o ventilador do micro zoando seus minutos embora. O silêncio é como a tubo cinzento de uma tevê desligada.
"Hoje é dia..." ela começa a dizer.
"Eu sei!", interrompe seco.
"...de receber a pensão" ela termina, olhar acuado.
"Eu já disse que sei!". "Mas...". "Eu vou buscar...tô indo." Ele levanta, um tanto subitamente, para deixar claro o que diz.
No caminho para o banco nota que não há ninguém nas ruas.
 
2 Trâmites
Helena acompanha enquanto Emílio desaparece na esquina. Ele deve ficar pelo menos uma hora no banco, pensa. Olha para a cama desarrumada e, por uns momentos parece titubear sobre o que deve fazer. Em um movimento único, joga-se sobre a cama e pega o telefone sobre a mesinha de cabeceira. Disca um número apressadamente com o telefone no pescoço, enquanto, com a mão esquerda tira o remoto de baixo do travesseiro e liga a TV.
"Oi... Agora?", diz a voz do outro lado.
"Ele saiu.", ela conta, sua voz abafada pela do vilão de desenho animado, que na TV esbraveja ameaças aos heróis enquanto pacatamente flutua em pleno ar.
 
3 Miolo miojo
Emílio caminha, a luz do sol perturbando seus olhos, constantemente a lembrá-lo do tempo que tem passado trancado no apartamento. Tem que terminar o livro. Caso queime mais um prazo, o pouco interesse atual da editora se converterá em nada. Não se pode dar a esse luxo. Sabe que mesmo a atual proposta foi excessiva sorte. Deve ter tido um empurrão de alguém. Após quase um ano sem trabalho, o calhamaço debaixo do braço, batendo com a cara na porta. Recusa após recusa. Então o aceite. Então a revisão, e agora quase três meses depois ele pode desperdiçar a chance porque não consegue parar de mudar o texto.
Se fosse apostar diria que foi o pai. O velho sempre teve seus contatos. E também nunca se conformou em ver o filho vivendo da pensão que o sogro deixou para a mulher. 
Helena! Tinha tido tanta sorte em conhecê-la. Se encontrando por acaso em uma festa de família. Quase não tinha ido na festa, mas não podia faltar, aniversário do velho.
Depois quase perdera a chance com ela, quando ela começou a namorar aquele tal de Ricardo. Um cara endinheirado que, como é usual, trabalhava com dinheiro. Algo a ver com a bolsa.
Emílio sabia que, apesar de terem terminado, ela e esse tal ainda eram amigos. Não tinha mais nada a ver, era o que ela dizia. Abutre. Sempre em volta. Ele que descuidasse!
Com todos os problemas que estavam tendo, às vezes, Emílio se questionava. Era para isso que ele havia tirado ela daquele cara? Para ficar sustentando ele em um JK minúsculo?
Vira a esquina e entra no banco lotado, fechando, com força a porta atrás de si.
 
4 Repique
"Que coincidência você aqui..."
"Nem sabia que tinha conta nesse banco!"
Havia encontrado Ricardo no ziguezague do caixa. Tendo chegado depois, Ricardo ficara em uma perna da fila anterior a dele e assim se aproximavam e afastavam a medida que a fila andava, dificultando a conversa. Pequenas trocas de palavras amarelas e longos silêncios chatos.
 
5 Concerne
No caminho de volta Emílio ainda estava confuso. Ricardo havia lhe pedido um favor. Explicou-lhe por vários minutos em jargão financeiro, mas ele havia entendido muito pouco. Tratava-se de uma "operação", era assim que Ricardo chamava: "operação" Como se fosse médico ou coisa parecida, pensou com algum desdém.
Não custava nada, e ele havia entendido o bastante para saber que não era algo ilegal. E como resultado havia agora na sua conta no banco, ao invés do habitual rombo mensal, um saldo razoável, e este permaneceria assim pelo menos por mais um ano.
Melhor ainda, aquele grandessíssimo babaca ficara lhe devendo um favor. Realmente, tinha sido uma grande sorte.
Voltou pensando nos personagens de seu livro, presos em seus ciclos obsessivos de comportamento. Teria que rescrever alguma coisa, mas sabia que tinha o enredo final.
 
"A inteligência é um bem efêmero, que diminui de importância com a idade." (Bradley Reynolds)
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Informações: borvazsarsa@zipmail.com
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Fanfarras Abissais
Demétriu Antenna ou
Fábio Luis Emerim

Teve um dia em que a empregada não veio. Daí a família inteira ficou louca. A mãe na cozinha, o pai no banheiro reclamando da toalha. Os irmãos brigando pelo bico do pão. Foi a mãe que, em um determinado momento, estourou:
- Cheeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeegaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!
Um grito de ódio e de loucura misturados que ecoou casa a fora e bairro adentro. O pai, pelado e cheio de espuma, veio cambaleando e tropeçando para ver quem tinha morrido.
- Quem morreu???, perguntou sério (juro)
- Todos vão morrer caso não pararem de me foder a paciência!!!, gritava com a colher de pau em riste.
Todos entreolharam-se. A mãe? Uma mulher tão calma e amorosa, dizendo aquela palavra horrível?
- Mamãe! Você disse um palavrão?, perguntou a menorzinha.
- Claro, sua puta!!!! Por acaso nunca ouviu não??? , disparou para o pavor de todos.
- Alto láááá!!!!, disse o pai batendo na mesa. - Tu tá louca, mulher?????? Tá com o demo no corpo??? Isso são maneiras de se falar na frente das crianças? E até longe delas???
A mãe, com os olhos arregalados e com os dentes à mostra vai em direção do marido e grita:
- VAI TE FODER, SEU BOSTA, BROXA PAU NO CU, FILHO DA PUTA!!!!!!
Um silêncio terrível tomou conta da cozinha, quando a do meio fala:
- Papai, você é broxa?

Teve um dia em que o pai não veio. Daí a família inteira ficou estranha. A mãe na cozinha, o banheiro vazio. Os irmãos brigando pelo bico do pão. Foi a mãe, que num determinado momento, disse:
- Crianças, parem, por favor. Papai ainda não veio...
- Não veio????, todos em coro.
- desde ontem à tarde, quando saiu pra comprar cigarro...
- Mas eu já tinha comprado o cigarro pra ele!, exclamou Inércia, a empregada, para a surpresa de todos.
- Já???, perguntou a mãe.
- Sim, dei na mão dele...
- Se ao menos tivesse deixado o carro...

Teve um dia em que a mãe não veio. Daí a família inteira ficou gozada. O pai no banheiro reclamando da toalha. Os irmãos brigando pelo bico do pão. Foi Inércia, a empregada, quem alertou:
- A mãe de vocês foi embora.
- Hein???, todos em coro.
- A mãe de vocês. Pegou as trouxas e foi embora hoje lá pelas cinco da manhã. Deixou um beijo.
As crianças se abraçaram e começaram a chorar. Foi a menorzinha quem olhou pra empregada e perguntou:
- Onde tu vai, Inércia?
- Vou levar a toalha pro teu pai no banheiro, cuida do leite no fogo., disse arrumando a mini-saia e colocando perfume...

 

Teve um dia que ninguém veio.

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A Contribuição Vossa de Cada Dia...

COM TEMPERO INDIANO

        Enquanto grassam por toda a parte, e em nauseante
profusão, as infindavelmente repetitivas, criativamente
nulas, enjoativamente insossas e insuportavelmente
certinhas produções cinematográficas hollywoodianas e
afins (começo/meio/fim, bem versus mal, sabe esse
esquema?), cada vez mais interessante, instigante e
prazeroso se torna o encontro que algumas poucas salas
ainda tornam possível com o cinema dos países integrantes
do que arrogante e pejorativamente se convencionou
batizar de Terceiro Mundo.
        "Um Casamento à Indiana", cujo título
original, "Casamento de Monção", continha uma
significativa referência - que o tradutor, com a
sabedoria costumeira, decidiu amputar - à exuberância e
impetuosidade da estação das chuvas, é mais um brilhante
exemplo da diferença de postura e de resultados que
distingue uma arte digna de tal nome do reles e chinfrim,
mas não menos presunçoso, artesanato estadunidense que
diuturnamente nos bombardeia, uma eloqüente mostra do
abismo que separa quem, infantilmente crendo que
embalagem reluzente e lucro desmesurado suprem falta de
conteúdo e de qualidade, vive da eterna apologia aos
efeitos especiais que utiliza e aos milhões de dólares
que gasta e fatura e quem ainda acredita em que o ser
humano, com a emaranhada complexidade e contraditoriedade
de seus sentimentos, remanesce como insubstituível medida
de todas as coisas.
        O filme em questão, produção indiana desde a
última sexta-feira em cartaz no Cine Guion 1, em Porto
Alegre, é um poema visual alegre, barulhento, brincalhão,
mas também é um olhar contemplativo, por vezes
melancólico e intimista, a retratar com aparente
descompromisso, mas com intensa e tenaz vitalidade,
flagrantes domésticos de uma família relativamente
abonada de Nova Delhi no curto período de tempo
transcorrido entre os preparativos e a celebração do
noivado e da cerimônia de casamento da filha do chefe do
clã.
        O que poderia limitar-se a uma curiosa e
superficial incursão num universo pitoresco e exótico
para olhos ocidentais vai, pouco a pouco, transformando-
se em uma sutil provocação para que o espectador,
encantado e conduzido pela galeria de tipos e de
situações que com habilidade e maestria se lhe vão
gradualmente dando a conhecer, vá começando a refletir e
questionar.
        A apaixonada declaração de amor que a diretora
Mira Nair faz a seu povo e a seu país é, antes de tudo,
uma declaração de amor por aquilo que o ser humano tem de
melhor, pelas tradições que são repositório de nossa
história como seres pensantes e morais e cuja preservação
reforça a convicção de que a vida neste conturbado
planeta ainda vale a pena; na colcha de retalhos que é o
universo humano do filme, semelhante ao caótico trânsito
da populosa Delhi ou às quase infinitas nuances melódicas
e rítmicas que se entrelaçam na inebriante música que
desde o começo toma de assalto a sensibilidade do
espectador, os símbolos de status e de sucesso
profissional que a modernidade e a globalização criaram,
como o pager e o celular, embora tenham lugar, não
impedem a delicadeza, o importar-se com o outro, o
acabrunhar-se até a depressão pela só suspeita de ter
causado uma ofensa à pessoa amada; a bem-administrada
assimilação do contemporâneo e dos recursos tecnológicos
sem perda da identidade cultural e da espiritualidade é
que propicia, enfim, um dos mais tocantes momentos do
filme, em que o mesmo rude empreiteiro que se vale dessas
engenhocas para ostentar a eficiência e importância que
seu trabalho parece exigir se prostra, humildemente, num
improvisado mas belo e mágico ritual, celebrado em meio a
altar de flores e de luzes, para, empunhando um buquê em
formato de coração, apenas e tão-somente implorar perdão
pela suposta mágoa ocasionada.
        Flores, aliás, são referências que invadem a tela
por todos os lados e que aparecem do início ao fim do
filme como difusa mas impressionante e marcante presença,
e que estão também ali, a pretexto de servirem de
ornamentos da festa, como sugestão visual dessa
amorosidade transbordante, multifacetada e colorida,
imanente à natureza do povo indiano, nunca exteriorizada
por poses estudadas ou rasgos grandiloqüentes e de efeito
teatral para as câmeras, mas em suaves gestos, olhares,
palavras, em atos pequenos, discretos, sutis, mas, por
isso mesmo, de uma autenticidade e de uma verdade
contagiantes, dando a constante impressão de que os
atores estão a encenar fragmentos de sua própria
experiência existencial.
        A situação mesma do casamento arranjado, que, de
início, parece um tanto chocante para nossa presunçosa
convicção de que o modo como regulamos esse tipo de
relação é superior e o único admissível, acaba revelando,
para quem tem a manha de ler nas entrelinhas, uma faceta
surpreendente: sinceridade, respeito e confiança, que boa
parte dos matrimônios ditos por amor esquece ou perde com
o tempo, são justamente ponto de partida para que o par
da história aborde e tente superar as contradições e
impasses que a condição de praticamente desconhecidos e
os rumos diferentes até então seguidos por suas vidas
lhes impõem, o que infunde a suspeita de que talvez haja
mais sabedoria do que pode à primeira vista parecer em um
sistema onde as relações econômicas conjugais são
previamente acertadas e em que as de estima, amizade e
consideração recíproca se vão paulatinamente construindo,
do que naquele em que dois seres se unem às vezes às
pressas, impelidos por uma paixão irracional que vão,
depois, gradativamente destruindo para, a final, quando
acaba a centelha, se verem a braços com ódio, desprezo,
desrespeito e, além de tudo, com aflitivas questões
patrimoniais
         Ao mostrar o penoso, dolorido, atormentado, mas
por fim decidido e firme triunfo da dignidade, do apreço
à família e do respeito aos compromissos éticos sobre o
interesse e a necessidade econômica, triunfo que se
materializa pela atitude do patriarca de romper
publicamente, em pleno momento da celebração do
casamento, com o amigo rico cujos favores em muito lhe
fariam falta, mas que descobre ser indigno dessa amizade,
o filme constrói uma metáfora de si mesmo, mostrando que
seu recado tem a ver, sem maiores concessões, com a
essência, e não com a aparência, e que, por isso, não
importando o resultado comercial que atinja, o
compromisso assumido único é com a missão artística
superior de enlevar, produzir beleza e despertar
inquietação em torno da sempre fascinante experiência
humana.

TELMO DOS SANTOS ABECH, colaborador

                28 de junho de 2002

 

.......

 

Um oceano vermelho
A imagem do deus-menino é original dos rituais pagãos pré-cristãos, do
culto de Mihtra, do culto ao deus das colheitas, que nascia no solstício de
inverno, nos dias mais frios, para governar na primavera até o verão, e ser
morto, e começar tudo de novo. Mas aqui nos trópicos isso não faz sentido, pois
as estações estão invertidas com respeito ao hemisfério norte. Assim, podem
nascer outras interpretações. 


Já havia feito muito calor ao meio-dia, mas ainda o sol brilhava implacável. As
roupas folgadas da fantasia começavam a incomodá-lo, e sentia que seus pés,
cheios de calos, estavam fervendo dentro das botas. 

Mas faltava uma entrega, e não queria se atrasar. Na verdade, aquelas velhas
tinham doado o que já tinham demais: brinquedos velhos, roupas usadas, que nem
tinham limpado; dinheiro trocado, com o que mal tinha alugado essa roupa
ridícula e quente, mais para o Pólo Norte do que para as letais florestas dos
trópicos. 

Havia começado a se perguntar se não havia alguma coisa errada nisso tudo: se a
perpetuação do Natal não era a perpetuação da hipocrisia, da opulência que se
desfaz do velho aproveitando para contentar as massas, naquele velho
assistencialismo de entregar presentinhos para acalmar a própria consciência de
culpa. 

Por que não ser justo e bom o ano todo ? Por que perpetuar as diferenças ? Para
chegar o Natal e fazer de conta que estava tudo bem ? Não era a confirmação do
ciclo de calamidades e desastres, ao invés de sua rebelião ? 

Sempre chega fim de novembro e até os porcos mais sanguinários eructam seu
"quero mais" e dão renda solta à hipocrisia geral instalada, promovida pelo
Estado Maior, incentivada pelas igrejas ávidas de almas rastejantes; e os
bispos saem a pedir dinheiro, a TV fica insuportavelmente repleta de
mensagenzinhas caras-de-pau de paz e alegria. Os sorrisos falsos são uma
afronta ao pensamento crítico, a repetição do nascimento do deus-menino é
exaltado das formas mais banais, repetindo a adoração pagã que a igreja do
Estado apropiou para se popularizar entre as camadas baixas do exército, mil e
setecentos anos atrás. 

Assim como o bobo da aldeia era pego uma vez por ano para ser rei por um dia,
quando o rei tolerava suas esquisitices, os mesquinhos se travestem de santos e
abraçam um deuzinho inocente como se fosse sincero arrependimento, quando na
verdade são sinais de que, amanhã, tudo voltará tudo exatamente na mesma. 

T color=#007f7f size=4 face="Courier">Havia perguntado isso tudo ao pároco, claro que numa linguagem que não fosse
ofensiva a tal irado senhor: mas a resposta ríspida o havia convencido de que
objeções não eram bem-vindas, e ele não discutiu mais. 

Assim chegou até o aglomerado de casinhas de papelão na beira do rio. Mais de
setenta casas havia na beira do rio pestilente, talvez esse ano mais pestilente
e amarelado que os outros. A primeira baforada entrou com agulhadas no nariz,
mas ele foi forte e deu seu "Ho-ho-hoo" como a tradição mandava, mas teve que
tossir depois. Primeiro ninguém apareceu, somente a menina que vinha seguindo-o
desde que havia atravessado o campinho de futebol improvisado. 

Depois apareceram três crianças. Uma, de chupeta e carregando a mão de uma
boneca quebrada, sorriu e disse automaticamente "Babai Noeeeeel", o que foi seu
único prêmio do dia. Os dois outros meninos estavam sérios e seus olhos negros
o fitavam com desconfiança. Apareceu um jovem com cara enrugada, de facão,
perguntando o que queria, e ele manteve a calma e foi tirando os presentes da
bolsa. 

Assim algumas outras crianças apareceram, como se a bolsa vermelha fosse
magnetizada. Ele acho que havia alguma coisa errada quando percebeu que os
meninos lhe arrancavam os presentes das mãos, e que nem esperavam que os
tirasse. Até que o jovem de facão arrancou a bolsa sem cerimônias e a
arremessou longe, com o que os meninos correram até ela, empurrando-se pela
visão de um brinquedo mais bonito e brigando por eles, rosnando-se uns aos
outros. 

Sentiu-se idiota no seu "Ho-ho-hoo, feliz nataaal". O jovem não só não mudou
seu rosto sério como seus olhos ficaram mais negros e apertados. Os lábios
ficaram como um só, e um assobio de alarma saiu deles. Abriu-se a porta da casa
mais próxima. três homens e uma mulher saíram dela, caminhando para ele no
mesmo passo constante e demencial. Antes da porta fechar, pôde ver que alguém
assistia uma TV onde o programa infantil estava invadido pelas mesmas caras,
mas todos com aqueles chapeuzinhos vermelhos de pompom branco. Quis negar a
realidade à sua frente por um momento, e cantou com a TV "cheio de paaaz". 

"Paz o caralho", ouviu. E o facão desceu no seu ombro como um míssil. 

Um oceano vermelho. O oceano o banhou inteiro enquanto nadava com uma dor
insuportável no antebraço direito. Com tremendo esforço viu a si mesmo saindo
do oceano vermelho, em braçadas que deixavam a água mais agitado e vermelho.
Quando acordou, o pavor quase o faz desmaiar novamente: estava porcamente atado
a um carro queimado, com um torniquete improvisado no ombro; e coberto de
sangue, viu seu braço sendo assado metros adiante. No seu delírio não sabia se
alguém gritava, ou murmurava, porque não o matavam, e outro contestava que
assim era melhor, senão iria apodrecer antes do tempo. 

Gritou mas sem muita força quando o jovem lhe retirou o antebraço esquerdo com
precisão, e os homens e mulheres reunidos celebraram o churrasquinho. Passou a
madrugada do vinte e cinco acordando, gemendo baixinho e voltando a desmaiar,
enquanto três mulheres, uma grávida de vestido azul e as outras duas de short e
camiseta curta, as três absolutamente bêbadas, festejavam a celebração pela TV.
Até que antes do sol sair deu um grito entrecortado, cuspiu algumas palavras
finais e morreu de olhos desorbitados. O jovem então carneou lentamente a perna
esquerda, a limpou cuidadosamente e a levou ao assador. 

Eructou um pouco. "Obrigado, Papai Noel", disse, e foi tambaleando passar o
facão na água do rio.

 

Julián Catino    

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Versos Soltos
(poemas para amputar membros de clube)
 
 
Vamos vomitar...
 
...Paulo Maluf / Fernando Henrique Cardoso / Rogério Mendelski / Antônio Brito / Edir Macedo / Lasier Martins / Antônio Carlos Magalhães / Roseana Sarney / Pedro Américo Leal / Datena / Belo / Chitãozinho e Xororó / Sandi e Jr / Gugu / Fausto Silva / Xuxa / Roberto Marinho / Marcos Mion / ...chega, ninguém quer vomitar os intestinos...
 
 
I don't like mondays...
 
...quero disponibilizar as idéias para uma póstuma digestão / e enfim enviar em dízimos a minha contribuição / pelo que temo ser certeiro e pelo pó sobre o dinheiro / quero também parabenizar as nuvens pela bela apresentação em pleno dia de votos / em noite de agradecimentos pueris voltaria a pedir uma leve predileção / pela volta do espasmo procriado e pela lenta divergência da infantil inteligência a quem me acolho às vezes / recolho-me em orgasmos ao meu insignificante casco de fungos envelhecidos / recrio asmas e espanto fantasmas em mãos magras e pálidas na calçada / assusto crianças más e as afasto do convívio social / quero espaço / quero ar / oxigênio em Si Bemol / uma lápide azul para escrever meu diário / minha epígrafe e minha hipófise / minha seringa e minha bexiga / inflam inocentes egos em pastagens distantes / dura é a vida de um estudante de momentos...
 
 
De nada em nada, vamos a nenhum lugar...
 
...agrida a possibilidade de ter a melhor vista da sua mocidade /  em vãos conselhos vão-se os espelhos / imagem deturpada por pegadas na madrugada / pela sombra da inquietude que te ilude / por poucos instantes ultrapassada e transpassada pela afiada plenitude / estampada em olhares medrosos dentro de um trem / fora de um si proposto pelo pós-posto de um vocativo aposto ao que lhe é oposto / brincar com palavras pode ser, às vezes, perigoso...
 
 
Olhava-me de tal maneira...
 
que a pequena menina morena fingia até ser eterna / em perna e nariz, veias e quadris / queira ser a melhor medíocre mudança que pode ambientalizar em uma atriz / a pestilenta perfuração d'alma que em grãos e em gotas distorcem o suco da fruta / em suma: refuta / e em luta, abre o celeiro, filho da puta.
 
 
Poucas e Roucas...
 
...as tuas palavras / que soam como maldições dançando música sacra / ninguém percebe a aproximação da foice e da faca / do câncer e da vaca / que te corrói por dentro, desde a boca até a cloaca / abre as asas bentas sobre o berço da criança / sobre a lenta lente que queima a tua pança / que nada despreparada dentro do rio de leite azedo / que, por vezes / por medo / media colocações livres em devaneios como este / triste / com o dedo em riste fazia / abençoando com perfume a tua mais iconoclasta coprofagia...
 
 
Contato com o real...
 
...na vida irresponsável de um mendigo / nascido de coito interrompido, digno, bentido / afoito como cão sedento / inúmeras vezes caído, lento / aos que respiram as águas e transpiram mágoas / açoitam as negras pálidas / calvas de tanta leitura / põem-se e opõem-se ao que indica ser de serventia iludida / incitando ao crime perverso do roubo de um verso / verso solto, envolto em cobre / raptado e arrancado da mesa de um pobre / a alma ferida que propõe a comida / corrida pela vontade perdida / de ser e ter / um capricho sem ser definido...
 
 
A pedofilia da arte...
 
...atrás dos muros da responsabilidade julgas / com podre habilidade / imunda / a tua corcunda que já rasga a camiseta / a tua barba que transpõe a costeleta / os dias em que a primavera parece pouca / e os cabelos ralos e gastos, que te servem de touca / com vã erotização sacra / de sagrada criatura como o axioma sexual atual / dos dias de hoje / das noites de ontem / quem quebra a barreira da infante obra-prima / que nem a censura refina / sobre a tinta ainda fresca deturpas o que ainda é inocente / novo / diferente / porém de igual mente / igualmente...
 
 
Uma cena cruel do dia-a-dia...
 
...o que te arrepias, oh pessoa vadia / que te enrugas por bobagens ao meio dia / e foges durante as temáticas alforrias / embora jogado ao acaso, como o caso que avalias / busco-te anuviado / sem preço e sem melodia...
 
 
 
 
 
 
 
                                       ==== / ====
 
 
 

"A Argentina é uma das minhas favoritas para ganhar a Copa"

(Pelé, em entrevista ao jornal inglês Daily Express 25/05/02)
                                           
 

              ***** As Mulatas de Jesus Cristo - número 53 - 05/07/02 *****

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