|
As Mulatas de Jesus Cristo -
32 - Canoas 28/12/2001
Sumário
EDITORIAL - Fábio Luis
Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS - Fábio
Luis Emerim
DE SUPETÃO - Roberto Yellow Moschen Jr
VERSOS SOLTOS - Fábio e seus alter egos
BIBA NEWS - Ivanor Valente
COLUNA DO BORVAZ SARSA - Borvaz Sarsa
***
EDITORIAL
Pô, Frank Jorge, ficamos
só na vontade? Ainda na espera, falow?
Fim-de-ano, greatest hits e oboés...
Pois é, caros assinantes, estamos aí encarando a entrada
do ano 2002. Grande merda, afinal de contas, o que são números?
Mas é legal anyway, e já que estamos nessa fim-de-ano nada
mais justo do que todo o staff do Mulatas ter sua coluna nesse número
32, uma vez que já passou o Natal ou navidad ou christmas ou o
solstício de verão, e esse é o último Mulatas
do ano e a última edição antes das minhas tão
merecidas e esperadas férias. Durante o mês de janeiro não
estaremos editando o zine, mas você poderá conferir a página
nova do Mulatas no www.mulatascristo.cjb.net que o Yellow reformulou e
pirou num visual maluco. Ali na página terá todas as edições
até a última e uma edição especial com os
melhores artigos.
Ah, e muito obrigado pelos vários oboés doados à
redação para serem levados a instituições
de caridade!!!!!!!!
Falow.
Obs.: é o que eu sempre digo: aquele que com afagos resolve os
problemas, apequena-se em questão da vida morena....
***
Casulo 14 - O Portal das Averiguações
Noturnas
Fábio Luis Emerim
Aqui, ó, alguém
já teve a sensibilidade de perceber que o The Strokes é
a melhor coisa que apareceu em 5 anos? To sendo bonzinho, hein? Eu não
me canso de ouvir Last Nite, meu, que vício. E o clip? É
muito legal, uma coisa tipo The Who, sei lá. E olha que é
uma banda de 5 capangas, hein, hein? Ainda bem que de tempo em tempo surge
uns salvadores do rock assim pra despoluir a mídia dessas boys
band do caralho e dessas frescas pós Britney Spears, que coisa!
E é sempre assim; no fim dos anos 70 apareceu o Sex Pistols pra
matar aquela disco que, ta, era legal, mas já tava se excedendo;
no começo dos 90 surgiu a melhor banda de rock da década,
o Nirvana, e acredito que vai erguer a bandeira por um bom tempo. A não
ser que o Strokes se supere.
Outro lance muito legal é aquela sacada do Damon Alrbarn (leia-se
vocalista do Blur) e mais uns cabeças lá em fazer o Gorilaz.
Aliás, duas músicas que eu ouço direto: Last Nite,
do Strokes e Clint Eastwood, do Gorilaz. Banda virtual. O desenho é
muito bem feito. Melhor que esses mangás de merda que as crianças
digerem todas as manhãs na TV.
A propósito de bandas virtuais, aguardem a SECOND, hehehe....
........
Poemão
Assuma a responsabilidade de ter uma idéia presa / no momento da
reflexão / no momento da comida na mesa / posta para o jantar /
jantar, ludibrioso jantar / que agonia antes de estar / que é antes
de ser estar / o verbo que passa voando pode pousar na pose da tua fala
/ a fala que é de espécime rara / menstrua na salada da
tua sala / a mulher que ouve os gritos que saem do poleiro / engasga-se
de tom bom, rude e em timbre faceiro / a estrela pode vigiar as tuas mãos
/ mas nunca porá a mente em lugar de usar uma frase evidente /
e as fantasias que encostam à suas costas / que povoam as mais
distantes encostas / que formam perguntas para encaixar em respostas /
juntas são nada mais do que ataques impessoais às pessoas
verbais / aos tempos e aos ventos / aos lapsos morais / e àqueles
de cujo sangue corrente em veia quente / caem aos pés da criança
mais desobediente...
...e se em pó te desfazes / carente de elogios e de bobagens /
anda em meio a todos com a própria coragem / a carruagem vazia
da mente que extorquia conteúdo / estava estacionada à garagem
defronte ao rio / que rio? / o que esvaziava-se como a mente do que escreveu
/ ou a futura questão eufemística de que tua coragem bendiz
/ martírio de teu âmago / amarga pessoa que és hoje,
de bom estômago / enforca tua criatividade para correr na frente
e esquecer da liberdade / o que hoje é decorrente de uma pequena
estupidez verdade / liberdade?
...e que possa ser sereno enquanto estiver pleno / e que possa ser verdadeiro
por ser o primeiro / que venha em tintas e cores, ao invés de monocromáticos
ardores /
.....
Parece que eu to vendo: eu sentado na varanda lá no Rosa, pode
ser na rede, ouvindo um Mobi no som e escrevendo pra caralho. No caderno,
não tenho notebook. Eu sou inquieto e odeio me ver em uma situação
contraproducente. Ok que férias são férias e temos
mais é que ser contraproducentes mesmo, mas e daí? Sou hiper-ativo,
caramba! Será que vai dar tempo de comprar encordamento pro violão?
Será que tá caro? Putz, to mais por fora que umbigo de vedete,
mas tenho que dar um jeito. Já viu coisa mais tudo-a-ver que isso:
beira da praia, fazendo um som na viola, curtindo uma onda com a mulher
do lado. Que coisa mais hiponga!
Praia é engraçado porque tu acaba sendo aquilo que sempre
quis ser e só não o é porque na cidade tu morre de
fome se o ser! E o mais estranho é que na última semana
tu mescla uma burra vontade de voltar, de freqüentar Porto Alegre,
ir no Garagem, tomar umas com os amigos e pegar um cinema com uma dor
no coração de deixar o paraíso pra trás! Mas
tudo bem.
Espero emagrecer uns 5 quilos lá. To com uma certa barriga que
já ta começando e me dar medo. Sabe cume, 28 anos, nada
de exercício, vida desregrada e regada à porcarias bebíveis
e digeríveis. No heavy drugs at all, but light little green stuff,
you know whatamean????
Mas que tudo seja perfeito. Que não chova sempre e, se chover,
que seja no meio da noite.
Saravá...
...ando meio pai-de-santo ultimamente...
A propósito, alguém já ouviu falar em pai-de-santo
adotivo? Bahhhhh que merda....
.......
Silvana tinha atitudes delirantes. De repente acordava no meio da noite,
se vestia de homem e saía rua afora assoviando o hino do Grêmio.
Os vizinhos já tinham se acostumado. Os pais só comentavam
baixinho na cama: espero que dessa vez ela não volte com um grupo
de drag queens como da última vez.
Silvana tinha disparates. De repente, no meio do almoço, subia
na mesa, descalça, empunhava o garfo, sempre cravado num pepino
e gritava: "Parem! Parem tudo. Estão filmando nosso almoço!",
e jogava o copo contra o forno de microondas. Tinham comprado sete.
Silvana tinha hábitos estranhos. Pintava-se para ir à padaria.
Normal? Seria, se não pintasse a barba falsa. Chegava lá
e os balconistas já começavam a se cotovelarem discretamente.
Uma vez tinha um atendente novo que vomitou.
Silvana tinha um namorado gay e uma namorada lésbica. O que fazia
dela um ser desconcertante nas noites de Natal em família. Mas
todos a amavam. Todos menos Érica, a prima que ficava sempre atrás
de Silvana. Seus pais usavam a prima como exemplo pra tudo que Érica
tinha tentado e não dava certo. Sabe aquelas observações
infelizes que somos obrigados a ouvir citando parentes próximos
como exemplos? Daí acaba que a gente fica odiando os primos, tios
ou quem quer que seja sem que eles soubessem? Pois é. Érica
odiava Silvana. Só que Silvana cagava e andava pra Érica.
O engraçado era que Érica sabia das viagens alucinantes
da prima e não se conformava que ela servisse de paradigma para
qualquer coisa na vida.
Daí, um dia, teve uma janta de Páscoa.
Todos na casa de Érica. Umas quinze pessoas. Brindando e festejando
os chocolates e caixas de bombons. Crianças correndo pela sala
com as cestas cheias de ovos pequenos e grandes. Érica, puta da
cara, sentada na poltrona, olhando pro celular esperando uma ligação
do Davi, que sairia com ela mais tarde pra farrear com os amigos. Joanete,
a mãe da Érica, de cujo nome pavoroso queria ser conhecida
apenas por Jôa, dizia: "Que coisa feia e desagradável,
Érica! Você sempre querendo ser diferente de todo mundo.
Vem pra mesa que a gente vai começar a comer agora! A Silvana já
está sentada ao lado dos pais dela e você esperando a ligação
daquele judeu!". Érica levantou-se e, com o dedo em riste
disse: "Pára de falar assim do Davi! Sua anti-semita! Sua
racista!", correu pro quarto. Silvana, que assistia a tudo de longe,
pediu licença e foi atrás da prima.
No quarto, Érica agarrava-se ao travesseiro chorando. Olhava para
a foto de Davi, que ele mesmo tinha dado a ela. Silvana bate na porta.
"Quem é?", grita Érica histérica, "É
a Sil!", responde a prima. "SAIA DAQUI!". Silvana, calmamente
se retira e vai ao lavabo. Lá de dentro pega o celular e começa
a ligar. "Preciso de ajuda, estou no ponto do GPS!"
Em poucos segundo a porta da cozinha é arrebentada. Gritos na casa,
pavor, susto. Aproximadamente 30 malucos vestidos de preto com uma pena
na cabeça e com escudos onde se lia: "SDJNSB" (sociedade
defensora dos judeus na sociedade brasileira). Todos morreram. Menos Érica
que, ao ver a cena de morte, começou a rir histericamente gritando:
"VOU NO BAR MITZVAH, VOU NO BAR MITZVAH!!!!!!"
...é o que eu sempre digo: aquele que aos outros quer só
o bem, só ao seu coração é refém da
bondade alheia.
***
De Supetão
Roberto Yellow Moschen Jr
Hanging around
Nothing to do but frown
Rainny days and Mondays always get me down...
Época triste, o Natal, com toda essa alegria e convívio
familiar.
Triste porque, para mim, traz recordações de pessoas com
quem convivi e de quem gostava muito e já não convivo mais.
Ok, meio brega, meio óbvio etc. Mas é uma festa que tem
toda uma carga emocional atrelada que nos foi incutida e de que é
difícil escapar. Penso nos natais da infância, com a parentada
toda, aquela sensação de proteção que perdemos
quando crescemos e vemos que o mundo nada tem de seguro. As brincadeiras
com os primos, o dia seguinte em que saímos para a rua e estreamos
os brinquedos novos, a comilança da ceia e no dia seguinte, quando
comíamos os restolhos da ceia e ainda se fazia mais comida para
alimentar os 20 parentes que tinham dormido lá em casa, uma criançada
infernal... meus pais devem ser loucos, eu jamais teria tanta paciência
assim.
Lembro de pessoas a quem enviava cartões e a quem hoje já
não envio mais. O que aconteceu? Lembro de pessoas de quem eu lembrava
e telefonava desejando "um feliz natal e um próspero ano novo",
e hoje sequer as vejo, mas, de certa forma, continuam presentes, como
parte daquilo que eu era naqueles dias.
Mas também não posso reclamar deste natal. Tenho amigos
tri bons, a família cresceu, pessoas especiais dividindo seu tempo
comigo... meu círculo de amizades apertou, mas também o
que sobrou tá pra lá de bom :O)
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Esse é o último Mulatas do ano. Cara, quem diria que chegaríamos
tão longe. Eu sei que não fui o colunista fixo mais assíduo
daqui, mas gostei muito da forma como aconteceu. Meus parabéns
ao Fábio, por ter mantido a coisa quente por tanto tempo e por
seus toques geniais em todas essas edições. E meus parabéns
a todos os contribuintes que ajudaram a tornar esta PbEM tão comentada
a ponto de virar ponto de referência das conversas de tanta gente.
Descobrimos juntos uma nova maneira de comunicar, praticamente esquecendo
o conceito de linha EDITORIAL hehehe. Parabéns a todos os que se
superaram e conseguiram traduzir em texto parte de suas vidas, e tiveram
a coragem de trazer isso a público, expondo-se de tal forma que,
se não fosse o MJC, talvez isso não acontecesse tão
cedo.
Porque a caneca com café requentado lhe queimava as mãos.
Já não havia mais aba onde segurá-la (alguma vez
houvera?). Olhava pela janela de seu quarto de pensão no centro
e observava o viaduto, embaixo do qual alguns trabalhadores tardios aguardavam
seus ônibus para irem ao encontro de suas famílias que lhes
esperavam com a mesa já posta para a ceia.
Tentava lembrar das ceias que tivera na infância que passara no
interior, na estância de seu avô, a família reunida
que chegava a cavalo e carroça, o boi assando no fogo de chão.
Lembrava do cheiro, das vozes, do movimento, da tarde acabando fria enquanto
se abrigavam do sereno debaixo do caramanchão para esperar a carne
que vinha estalando no espeto, a boca cheia d'água, as mães
que não davam conta de atender a tanta criança berrando
por comida e por traquinagem. Lembrava do cheiro dos palheiros dos homens
e das águas de colônia com que as mulheres se banhavam para
ser perfumarem para o natal e disfarçar o cheiro do pó da
viagem. Ainda lembrava do pião colorido que ganhara certa feita,
e do seu pai que lhe ensinara a jogá-lo...
Largou a caneca, a mão lhe doía. O peito também.
Mexeu na antena da tevê, arrumou o bom-bril sem o qual nada veria
senão formigas na tela. Estava passando um especial de natal, mas
não prestava muita atenção. Não sabia se deveria
ser natal para ele ou não. Não sabia acontecer o natal sem
ter com quem... não, resolveu ir até a geladeira e retirou
a garrafa de cidra que achara num despacho na noite passada. Jogou o café
fora, passou uma água na caneca e encheu-a com a bebida gelada.
Bebeu tudo de um gole só, foi até a janela e gritou "
Feliz Natal, seus filhos da puta!".
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Feliz Natal e que 2002 lhe traga muitas Mulatas para ler. Ah, que tu sejas
muito feliz.
***
Versos Soltos
(poemas para serem lidos da esquerda para a direita)
Mediocricidade...
...ai de quem tentar esquecer a quem eu tentei envolver no último
verso solto a que me referia um outro dia / e que se for perfeita a definição
traçada de uma risada amarga na madrugada / que pese todas as humilhações
ríspidas como pisadas mudas em calçadas íntimas pavimentadas
em nossas paredes estomacais / e se porventura não entenderes o
que disse e o que hei de dizer / que todas as letras mudem e acotovelem-se
ao redor do seu ser / que todas as frases soem gastas para aqueles que
não puderem nascer / e que todos os amigos perdidos voltem antes
do anoitecer....se anoitecer...
Ambulância de Mim Mesmo...
...sou uma ambulância de mim mesmo/ atrofiado na esquina do supermercado
/ como um poema urbano conturbado / perdido e largado a esmo / procurando
o que fazer e matando o tempo com um cigarro / paro por entre os carros
e ajoelho-me ao meio fio / desviando de catarros duros do frio / seguro-me
com toda a força / aperto-me em lembranças toscas / vou-me,
afastando-me e deliciando-me / tentando esquecer o conto urbano conturbado
/ parado e jogado com a página dez aberta / na esquina do supermercado...
Sejas feliz Enquanto Viveres...
...à própria sorte fora abandonado / esquecido e desfigurado
pela idade, que é maldosa / que é impecável e de
constante atividade / assim como para os seios da mulher é injusta
a gravidade / a possessividade impõe os riscos da mediana fácil
sociedade / o sociopata nega a intuição de ser o bobalhão
que mata / as estátuas dormem durante o dia / à noite acordam
/ mas ninguém as via / formigas que trabalham no verão para
festejar o inverno sabem que se assim não fosse, suas vidas seriam
um inferno / tirando o guri imbecil que pisa nas pobres para fingir de
gigante / sem saber que por cima de sua cabeça tem uma nuvem constante
/ nuvem de dor e de dilúvio / que chove sobre a memória
/ apagando toda uma história...
Calor d'alma...
...joguei pedra em sete sapos / quebrei o vidro da casa / sou criança
inocente / não sei de nada / penso ser o futuro que vem rapidamente
/ às vezes nem tanto / cadê meu repelente? / devo sair pela
manhã bem cedo, para pescar com o Zé e o Capitão
Feio / acho que vai dar tudo certo, combinamos ontem no recreio / levarei
sanduíches e uma vara de pescar / o Zé disse que ia levar
as iscas e até molinete, se precisar / o Capitão Feio não
vai levar nada, mas falou que ia roubar do irmão umas revistinhas
de mulher pelada / tudo na infância é perfeito / mas a gente
sempre reclama / reclama de ser criança / reclama / que será
que tem pra comer?
Pra quem acha que os versos soltos ficaram muito grandes...
...eis um poema com o título maior que o texto...
Acabou Chorare...
...antes que digas algo, respires / antes de respirar, arregale os olhos
/ antes de arregalar, dê um giro / antes de girar, dê um suspiro
/ antes de suspirar, dê tchau / antes de abanar, caia no chão
/ antes de cair, olhe se tem alguém por perto pensando que tu é
louco / se tiver, faça tudo isso....
Ando meio cambaleante...
...ultimamente nada mais faz sentido / tudo que leio foge correndo / os
lugares onde ando parecem estar derretendo / os sonhos são cristalizados
e pendurados na parede do bar / as palavras que vomito ficam flutuando
no ar / as serenas roupas pequenas que usavam ao luar agora são
peças rasgadas / as letras que eu encaixava parecem volúveis
/ os lençóis sobre os quais eu dormia parecem despertos
/ não me acompanham mais por entre os desertos...
O Ano-Novo de Yolanda...
...família à mesa pronta para gentilezas / têm fome
de amor, carinho ou apenas esperam pela sobremesa? / uns rezam, outros
desprezam / e Yolanda olha de longe o bolo que fez com carinho / ser devorado
antes do cafezinho / é comido, digerido e destruído no meio
do caminho / sua mãe, pintada, baba sobre as sobras dos canapés
/ o pai, com sono, mal suporta-se em seus próprios pés /
a árvore de natal perto da porta e um tapete persa no meio / crianças
correndo pela sala, adultos rindo de bobagens, todos com o bucho cheio
/ a noite de um dia pleno / e Yolanda espera, paciente, o efeito do veneno...
2002...
...na praia, lendo uma revista inútil / Jorge fuma um cigarro e
ouve um reggae / nas pedras, mais ao lado, a esposa pega um sol / mas
é só o começo, foda é voltar pra cidade e
começar tuuuuuuuuuuuudo de novo...
Basculante balouçante...
...de dentro do navio espiava as ondas que iam até a praia / no
vaivém da brisa / do vento que bate nos cílios / do pai
da janela esperando os filhos / que leitura louca / que despertar esperto
/ de costas e de membro ereto / queria ser do dilúvio a chuva e
do cortejo o féretro / mas que vida inútil / pensando e
pensando o que havia de pensar / o que a via fazer / o que há,
via de fato? / vias de fato / vias de falo / boneca / galo / coisas da
noite / coice de mula em dia de luta na mata / boi-bumbá e folia
regueira / maconheira...
Bolsa de plástico...
...que vinha noite e dia / dia e noite de mãos dadas / com as mulheres
pagas / com as donas da noite / que vontade / a benção que
vinha de dentro pra fora morava n'alma de Djalma / que dormia de pijama
e com muita calma / bagunçava as letras do dicionário /
parecia parecer perante o parar perfurado dentro do armário / perene
parava desperto e dançava sob a luz das idéias que chamuscavam-lhe
o travesseiro / mamava no próprio dedo o dia inteiro / avistava
a contínua noção de que nem tudo era liberdade /
e tentava fazer sentido nas palavras que digitava...emoção
descontinuada...
Que sonho de merda...
...tive essa noite um sonho foda / me via vestido de macaco em uma roda
/ roda de cantores de polka / que caminhavam em direção
a cordilheira dos Andes / e antes que eu pudesse me dar conta da besteira
ocorrida / via-me em procissão de mães sofridas / que traziam
lenços nas mãos com fotos de filhos / eu via sem querer
ver assim, meio de soslaio / será que eram as mães das praças
de maio? / quando puxei conversa caí num precipício / me
senti destemperado / me senti num hospício / com mãos pegando
no meu joelho / tinha medo da morte e sabia que estava perdido / fugi
de um homem com cara de bandido / segurava uma vela enorme na mão
e na outra um relho / saí pela terceira porta / desci a terceira
escada / encontrei uma casa toda queimada / com corpos no chão,
até a calçada / me belisquei, não podia ser verdade
/ acordei todo suado / com os olhos arregalados e um que de tranqüilidade
/ nada melhor que a realidade...
***
Biba News
Ivanor Valente
Ai gentem... O ano já
ta no fim... "passou tão rápido".... ai que coisa...
bem papo de tia véia falando isso quando encontra aquele Clube
da Saudade de amigas na praia.... sempre dizendo a mesma coisa. Eu no
Natal passei com família de mamis... e sempre tem uma véia
que não é boba, que faz aquela perguntinha báásica:
"E as namoradas?"... e eu disse: "To sozinho no momento."
E a véia foi la e tascou-lhe a língua e disse: "Tá
sozinho porque quer." Ela falou isso pq eu tava vestido de bofe né,
tadinha... mal sabe ela da verdadeira identidade de myself. Uma das coisas
que mais me marcou nesse ano foi a minha estréia aqui no Mulatas,
ando não escrevendo muito mas ano que vem eu escreverei mais...
promessa hein... so não me peçam pra subir de joelhos a
escadaria da Penha, p
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
ooooor favor, ninguém merece isso. Bixa......
aluguei esses dias uns filmes brasileiros do gênero GLS (não
sei pq eles colocam o L e o S, pois só tem G nos filmes). Numa
cena a bixa bombadiiiissssima "atuando" né.. jurando
que nuuuunca tinha dado aquilo que Deus deu para ela, se faz que foi "forçada"
a fazer algo que ela não quisesse.. ah ta...... ela não
grita, não age pra nada, na boa.... poderia pelo menos fazer algum
gemido ou algo parecido. Ahhhhhhhhh... não posso deixar de falar
de Nany People báááásica que tava na HEBE
na Segunda após a final da tal da Casa dos Artistas. Esvoaçante,
exuberante, umas pernas... nossa... tem muita racha nesse mundo que não
tem o que Nany básica tem. Ai.... vou terminando por aqui, desejando
um ótimo FELIZ ANO NOVO para todos os nossos leitores poderosiiiiiiiiiiiissssssimos,
ano que vem vou reformular minha participação, mas isso
eu só falo com vocês no ano que vem, ok? Abraços,
beijos, lambidas.. ai... o que quiserem. Até ano que vem people....
Fuuuuuuuui!
***
Totalização
: Coluna de Borvaz Sarsa
////// Introdução
sem brilho
Com as festas, gavetas devem ser limpas. É tempo de especiais reciclados
e da completa falta de originalidade. Com Borvaz não será
diferente, de velhos artigos seremos servidos. Nesta edição
vemos a continuação de uma saga, uma referência obtusa
a aventura rodrigueana de um amigo, um plágio descarado de Seinfeld
e a reciclagem borvaziana dos clichês natalinos. Como diria o próprio
Borvaz, caso já não se encontrasse em férias:
"Confinem-se, à ferros, todas as pretensões das individualidades
chorosas de ontem. Das mensagem coletivas, da mídia crua, do meio
ruidoso construamos nossas próprias narrativas desconexas."
A todos uma boa leitura e um melhor ano novo.
A. T. Obuyo, relações públicas e especialista em
Feng Shui.
////// Fim da introdução sem brilho
Seqüência de jogo
im[restaurando...]agem aparece subitamente em uma rua comercial de bairro,
moderadamente movimentada. Pessoas passam e seguem indiferentes ao observador.
Reconhece a rua, lembra de ter passado por algumas das lojas recentemente.
Quando teria sido mesmo? Na imagem a vista se modifica e parece aproximar
das pessoas que seguem apressadas na calçada do outro lado da rua.
Mas espere! Aquele não é ele mesmo com seus trajes de trabalho,
ainda com a maleta com as amostras na mão, olhando para ambos os
lados antes de atravessar a rua?
Por algum tempo observa-se a perambular por ruas conhecidas, entrando
em lojas de clientes, pegando lotações e atendendo ao celular,
sempre com o habitual ar cansado com que enfrentava a rotina. A fita parecia
uma gravação do que ele fizera uns dias atrás. Não
conseguia ver como havia sido filmado. Ou por que motivo. Gasta algum
tempo tentando entender como tal fita poderia ter sido gravada, empacotada
e entregue na porta de sua casa sem que disso tomasse qualquer conhecimento
até que o telefone toca. Vai até a sala atender. Quando
retorna o cenário na televisão mudou.
Na tela, completamente alheio ao confuso estado de espírito com
que lhe observa sua versão de carne e osso, Marcos assiste de forma
empolgada ao desenrolar de uma corrida de cavalos. O vencedor cruza a
linha de chegada para grande alegria do Marcos televisivo que salta exultante,
comemorando a brandir um bilhete. Quando isso aconteceu? Eu nunca fui
as corridas, pensa Marcos. Tenho certeza, nunca fui ao hipódromo.
Devo ter perdido algo importante. Preciso rebobinar a fita.
Onde está o controle? Marcos olha em volta procurando ver o pequeno
aparelho largado sobre alguma coisa. Então, sem conseguir entender
o porquê de tudo aquilo, começa a vasculhar entre os lençóis
e cobertas da cama ainda não arrumada.
Apresentação de
" An Introduction to Order Inference and Contingency on Coarse Coupled
Social Sytems", por Zamsky,I. & Lefavre, O. Tradução
de Tomas Hikawa. EDUSP-1999.
"Quando se trata de determinar o comportamento de um agente autônomo
em um sistema de trocas aberto e fracamente acoplado, busca-se antes de
mais nada o estabelecimento de um subespaço que elenque adequadamente
as reações do agente estudado a um conjunto alvo de situações.
Sistemas computacionais biológicos, notavelmente os de caracter
neuronial encontrados nos animais altamente encefalizados, evoluíram
fim de maximizar as possibilidades de sobrevivência do organismo
a diversas iterações do tipo perde-ganha. A sobrevivência
dos mais aptos assegurou dessa maneira uma dinâmica de corrida armamentista
na qual predadores capazes de lançar estratégias cada vez
mais refinadas, são confrontados com presas capazes de prever de
forma mais precisa as próximas ações de seus caçadores.
A vantagem da imprevisibilidade no comportamento animal foi dessa forma
destilada, ao longo de todo o processo evolutivo. Se nos animais inferiores
e invertebrados as fontes biológicas da aleatoriedade em diversos
comportamentos já foram determinadas como tendo por base processos
metabólicos instáveis, laços de realimentação
com características pouco previsíveis do meio ambiente e,
em alguns casos, ruído eletroquímico em determinadas conexões
nervosas, para os animais mais complexos, o homem incluso, os processos
exatos ainda devem ser determinados. Na psicodinâmica humana indícios
claros apoiam a possibilidade de inferência de uma superfície
funcional com dimensão entre 12.23 e 14.5.
Nas sociedades animais fracamente acopladas como a humana, os indivíduos
tem completo controle dos mecanismos internos de seu metabolismo, sendo
as iterações com o grupo principalmente restritas a sinalização
abstrata e convenções posturais (ao contrario dos insetos
sociais, por exemplo, onde a sinalização química
é parte integrante do metabolismo dos agentes individuais). Quando
imerso no contexto social a restrição da dimensão
do canal disponível ao indivíduo para interagir com seus
pares e com o ambiente limita severamente suas estratégias de ação
futuras. Igualmente limitantes são os fatores de contorno energéticos
que na sociedade humana apresentam correlação econômica.
Essa limitação dos cursos de ação acessíveis
reduz as superfícies de probabilidade a serem preditas para ordens
bem mais baixas entre 4.5 e 7. Graus de liberdade estes dentro, portanto,
das capacidades atuais de predição computacional. Assim,
o comportamento contingêncial do homem-social não só
não parece ser aleatório como pode ser previsto, desde que
uma correta e minuciosa estimativa de ordem do indivíduo seja realizada
a priori de forma empírica."
Os ordinários
Os ordinários se encontraram num quarto de quinta. Num motel ralé,
em plena tarde de prostitutas e travestis. Ela veste seu uniforme do banco.
Ele, calça jeans e uma camiseta da empresa, ainda leva embaixo
do braço a última entrega da tarde.
Olham para trás e entram rápido. Não se falam. Somem
do sol. No recesso imundo acanalham-se com fervor. Emergirão hora
depois e, novamente, um irá para cada lado. Não falarão
nem se tocarão. Carregarão para casa consigo bens mais valiosos
que palavras: uma culpa a latejar agradavelmente entre as pernas, um semi-sorriso
irônico e cafajeste com muito custo suprimido das faces.
Com estes tão particulares pertences, voltarão a seus cônjuges,
às suas rotinas e poderão suportar a noite e o dia de torpor
que os separam do próximo encontro.
Pequeno Jimmie
Pequeno Jimmie entrou na caverna e nunca conseguirá ser salvo a
tempo. Faltam dois minutos, pequeno Jimmie! Claramente o resgate não
chegará em tão exíguo intervalo. E o urso! O urso
está voltando... Pobre pequeno Jimmie! Ficará suspenso no
limbo da grade de programação até o desfecho do episódio.
Entre telesenas milionárias e o sabão que lava mais branco,
ficará sentado na caverna. Esperando.
Talvez jogue pedrinhas. Talvez batute com os dedos. Talvez roa as unhas.
Só na próxima semana, pequeno Jimmie!
Persevere! Estaremos lá! Conte conosco! Na próxima semana
e no mesmo horário, com nossos olhos catodicamente hipnotizados
haveremos de testemunhar tua redenção.
Natalina
Imaginem-se vivendo no norte da Europa, na época dos caçadores-coletores
bárbaros que lá habitavam. Povos acostumados a poucas colheitas
extraídas a muito custo das técnicas primitivas de agricultura.
A viver principalmente da caça, da coleta, da pesca, e quando tudo
mais rareava, do saque aos eventuais vizinhos mais afortunados. Imaginem
o que o inverno era para estas pessoas.
Durante meses o frio aumentava, o manto de neve cobria tudo, apagando
todos os vestígios de verde ou vegetal comestível. A caça
rareava a medida que a noite progredia e o dia se tornava cada vez mais
curto. Imaginem a fome crescendo quando, jornada após jornada,
restavam menos horas para marchar sobre campos cada vez mais espessos
de neve procurando por um único cervo esquálido, uma única
lebre magra. Uma qualquer coisa que se pudesse matar e comer.
Pensem que não se encontra mais lenha seca, que o fogo se torna
difícil de manter, que as provisões apodrecem. E então,
que as pessoas começam a morrer. Os mais fracos, os mais velhos,
os mais novos.
Morrem de fome, de disenteria da comida estragada, de frio. E então
não é possível enterrar os cadáveres pois
o chão congelado é duro demais para as rústicas ferramentas
que possuem. E da proximidade com os mortos advém o mal-cheiro,
os pesadelos e então, as novas doenças a cobrar ainda mais
uma provação aos que persistem em viver.
Sendo um animal que veio dos trópicos o homem não está
adaptado a tais provações. Não pode como os demais
animais simplesmente deitar e hibernar esperando por dias melhores. Dia
após dia tem que resistir e tentar novamente sair de debaixo do
manto protetor de peles e do sono confortador e empreender caçadas
cada vez mais infrutíferas, coletas cada vez mais pobres e saques
cada vez mais malsucedidos a vizinhos em condição de penúria
semelhante a sua.
Mas o homem é um bicho que planeja para o longo prazo, e é
capaz de contar nos dedos. Os mais sábios percebem que o um mesmo
padrão de provações se repete, ano após ano.
Inverno após inverno a noite avança sobre o dia até
quase sufocar a todos.
Então chega um dia que é o dia mais curto do ano, um dia
em que o sol mal se eleva e, exausto, é obrigado a descer novamente
e o frio, a noite, a neve e a fome parecem ter vencido. Esse dia é
o pior de todos. Nesse dia todos querem se render ao sono e deixar que
a neve os cubra. Querem cair no oblívio e morrer e ter seus rastros
apagados.
Mas os que sobreviveram outros invernos sabem que algo sempre acontece
nesse dia: a noite para de avançar. Algo, alguém, parece
interceder e o dia seguinte já será um pouco mais longo,
e o seguinte ainda maior. O pior terá passado. A aldeia sobreviverá.
São gente simples. Acostumados a viver por seus próprios
meios e não precisar de favores de ninguém. Porém
temem. Contra a noite que avança nada podem. Temem pois sabem que
seu conhecimento é limitado. Temem pois se no próximo ano
o estranho benfeitor não intervier em tempo todos perecerão.
Temem ser esquecidos e por isso realizam um ritual.
Todo ano, no dia mais curto do ano, quando a morte parece próxima
a descer sobre todos sua foice, reúnem suas últimas forças
e saem de sob as cobertas. E festejam, e riem e dançam. Celebram
tal e qual fosse primavera. Desdenham a noite e assim esperam lembrar
seu benfeitor oculto que são fortes e que fazem por merecer viver.
Ao menos por mais um ano.
Assim o solstício vem sendo celebrado em todo o hemisfério
norte ao menos desde a última glaciação. Uma celebração
do triunfo da vontade humana frente às mais severas adversidades
e a lembrança permanente de nossas primeiras tentativas de entender
o mundo físico, tão maior que nossas pequenas escaramuças.
Que tal celebração se tenha entranhado profundamente na
cultura de tantos povos, mesmo quando os mesmos migraram para regiões
mais amenas não é, portanto de estranhar. Nem que esta data
tenha entrado nas mais diversas religiões pelos mais diversos motivos
simbolizando a renovação e nos chegue hoje nas diversas
versões das festas de fim ano. O que não se deve esquecer,
no entanto, é que ao contrario de nossos antepassados sabemos melhor
o mundo.
Sabemos que o benfeitor não existia, o recesso da noite sendo apenas
conseqüência mecânica de nosso planeta inclinado. É
fato que o solstício se repetiria mesmo sem a dança e a
festa. Mas mesmo nosso ancestrais não esperavam que a caça
viesse até eles. Dependia de seu esforço consciente. A dança
e a festa os confortavam, mostrando que compartilhavam seu destino com
amigos, que tinham a quem recorrer, que eram fortes e capazes.
Mesmo que para nós, no hemisfério sul a simbologia astronômica
do solstício esteja toda errada, o grande sentido da celebração
de fim de ano, merece ainda ser preservado. Lembremos então da
capacidade que o ser humano tem de quando unido e usando de todo seu engenho,
superar a qualquer adversidade e celebremos.
Não dependamos de benfeitores ocultos, sejam deuses, governos ou
"inexoráveis forças da história", não
nos locupletemos em simbolismo religioso vazio, não sucumbamos
ao ocultismo enganador. Que a lembrança do manto de neve que por
tantas vezes quase extinguiu uma raça primata e desengonçada
que teimava em viver em condições tão diversas das
que viram sua criação, nos ajude, todo dia, a sair de debaixo
das cobertas e persistir.
A todos vocês, Borvaz deseja, um ótimo ano novo.
"... e então, de boa vontade imolei minha dignidade no altar,
maculado pela lascívia, do teu perdão." (A Volta de
Tristan, cena III- ato 5. Osíres Varella )
***
"Fui na NEO mas não
perdi o anel!"
(Fake 28)
***
-Colaboradores dessa edição:
- Ivanor Valente
***
|