AS MULATAS DE JESUS CRISTO - 30
 AS MULATAS DE JESUS CRISTO
 Publicação via e-mail semanal

As Mulatas de Jesus Cristo - 32 - Canoas 28/12/2001

Sumário

EDITORIAL - Fábio Luis Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS - Fábio Luis Emerim
DE SUPETÃO - Roberto Yellow Moschen Jr
VERSOS SOLTOS - Fábio e seus alter egos
BIBA NEWS - Ivanor Valente
COLUNA DO BORVAZ SARSA - Borvaz Sarsa

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EDITORIAL

Pô, Frank Jorge, ficamos só na vontade? Ainda na espera, falow?
Fim-de-ano, greatest hits e oboés...
Pois é, caros assinantes, estamos aí encarando a entrada do ano 2002. Grande merda, afinal de contas, o que são números? Mas é legal anyway, e já que estamos nessa fim-de-ano nada mais justo do que todo o staff do Mulatas ter sua coluna nesse número 32, uma vez que já passou o Natal ou navidad ou christmas ou o solstício de verão, e esse é o último Mulatas do ano e a última edição antes das minhas tão merecidas e esperadas férias. Durante o mês de janeiro não estaremos editando o zine, mas você poderá conferir a página nova do Mulatas no www.mulatascristo.cjb.net que o Yellow reformulou e pirou num visual maluco. Ali na página terá todas as edições até a última e uma edição especial com os melhores artigos.
Ah, e muito obrigado pelos vários oboés doados à redação para serem levados a instituições de caridade!!!!!!!!
Falow.
Obs.: é o que eu sempre digo: aquele que com afagos resolve os problemas, apequena-se em questão da vida morena....

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Casulo 14 - O Portal das Averiguações Noturnas
Fábio Luis Emerim

Aqui, ó, alguém já teve a sensibilidade de perceber que o The Strokes é a melhor coisa que apareceu em 5 anos? To sendo bonzinho, hein? Eu não me canso de ouvir Last Nite, meu, que vício. E o clip? É muito legal, uma coisa tipo The Who, sei lá. E olha que é uma banda de 5 capangas, hein, hein? Ainda bem que de tempo em tempo surge uns salvadores do rock assim pra despoluir a mídia dessas boys band do caralho e dessas frescas pós Britney Spears, que coisa! E é sempre assim; no fim dos anos 70 apareceu o Sex Pistols pra matar aquela disco que, ta, era legal, mas já tava se excedendo; no começo dos 90 surgiu a melhor banda de rock da década, o Nirvana, e acredito que vai erguer a bandeira por um bom tempo. A não ser que o Strokes se supere.
Outro lance muito legal é aquela sacada do Damon Alrbarn (leia-se vocalista do Blur) e mais uns cabeças lá em fazer o Gorilaz. Aliás, duas músicas que eu ouço direto: Last Nite, do Strokes e Clint Eastwood, do Gorilaz. Banda virtual. O desenho é muito bem feito. Melhor que esses mangás de merda que as crianças digerem todas as manhãs na TV.
A propósito de bandas virtuais, aguardem a SECOND, hehehe....
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Poemão
Assuma a responsabilidade de ter uma idéia presa / no momento da reflexão / no momento da comida na mesa / posta para o jantar / jantar, ludibrioso jantar / que agonia antes de estar / que é antes de ser estar / o verbo que passa voando pode pousar na pose da tua fala / a fala que é de espécime rara / menstrua na salada da tua sala / a mulher que ouve os gritos que saem do poleiro / engasga-se de tom bom, rude e em timbre faceiro / a estrela pode vigiar as tuas mãos / mas nunca porá a mente em lugar de usar uma frase evidente / e as fantasias que encostam à suas costas / que povoam as mais distantes encostas / que formam perguntas para encaixar em respostas / juntas são nada mais do que ataques impessoais às pessoas verbais / aos tempos e aos ventos / aos lapsos morais / e àqueles de cujo sangue corrente em veia quente / caem aos pés da criança mais desobediente...
...e se em pó te desfazes / carente de elogios e de bobagens / anda em meio a todos com a própria coragem / a carruagem vazia da mente que extorquia conteúdo / estava estacionada à garagem defronte ao rio / que rio? / o que esvaziava-se como a mente do que escreveu / ou a futura questão eufemística de que tua coragem bendiz / martírio de teu âmago / amarga pessoa que és hoje, de bom estômago / enforca tua criatividade para correr na frente e esquecer da liberdade / o que hoje é decorrente de uma pequena estupidez verdade / liberdade?
...e que possa ser sereno enquanto estiver pleno / e que possa ser verdadeiro por ser o primeiro / que venha em tintas e cores, ao invés de monocromáticos ardores /
.....
Parece que eu to vendo: eu sentado na varanda lá no Rosa, pode ser na rede, ouvindo um Mobi no som e escrevendo pra caralho. No caderno, não tenho notebook. Eu sou inquieto e odeio me ver em uma situação contraproducente. Ok que férias são férias e temos mais é que ser contraproducentes mesmo, mas e daí? Sou hiper-ativo, caramba! Será que vai dar tempo de comprar encordamento pro violão? Será que tá caro? Putz, to mais por fora que umbigo de vedete, mas tenho que dar um jeito. Já viu coisa mais tudo-a-ver que isso: beira da praia, fazendo um som na viola, curtindo uma onda com a mulher do lado. Que coisa mais hiponga!
Praia é engraçado porque tu acaba sendo aquilo que sempre quis ser e só não o é porque na cidade tu morre de fome se o ser! E o mais estranho é que na última semana tu mescla uma burra vontade de voltar, de freqüentar Porto Alegre, ir no Garagem, tomar umas com os amigos e pegar um cinema com uma dor no coração de deixar o paraíso pra trás! Mas tudo bem.
Espero emagrecer uns 5 quilos lá. To com uma certa barriga que já ta começando e me dar medo. Sabe cume, 28 anos, nada de exercício, vida desregrada e regada à porcarias bebíveis e digeríveis. No heavy drugs at all, but light little green stuff, you know whatamean????
Mas que tudo seja perfeito. Que não chova sempre e, se chover, que seja no meio da noite.
Saravá...
...ando meio pai-de-santo ultimamente...
A propósito, alguém já ouviu falar em pai-de-santo adotivo? Bahhhhh que merda....
.......
Silvana tinha atitudes delirantes. De repente acordava no meio da noite, se vestia de homem e saía rua afora assoviando o hino do Grêmio. Os vizinhos já tinham se acostumado. Os pais só comentavam baixinho na cama: espero que dessa vez ela não volte com um grupo de drag queens como da última vez.
Silvana tinha disparates. De repente, no meio do almoço, subia na mesa, descalça, empunhava o garfo, sempre cravado num pepino e gritava: "Parem! Parem tudo. Estão filmando nosso almoço!", e jogava o copo contra o forno de microondas. Tinham comprado sete.
Silvana tinha hábitos estranhos. Pintava-se para ir à padaria. Normal? Seria, se não pintasse a barba falsa. Chegava lá e os balconistas já começavam a se cotovelarem discretamente. Uma vez tinha um atendente novo que vomitou.
Silvana tinha um namorado gay e uma namorada lésbica. O que fazia dela um ser desconcertante nas noites de Natal em família. Mas todos a amavam. Todos menos Érica, a prima que ficava sempre atrás de Silvana. Seus pais usavam a prima como exemplo pra tudo que Érica tinha tentado e não dava certo. Sabe aquelas observações infelizes que somos obrigados a ouvir citando parentes próximos como exemplos? Daí acaba que a gente fica odiando os primos, tios ou quem quer que seja sem que eles soubessem? Pois é. Érica odiava Silvana. Só que Silvana cagava e andava pra Érica.
O engraçado era que Érica sabia das viagens alucinantes da prima e não se conformava que ela servisse de paradigma para qualquer coisa na vida.
Daí, um dia, teve uma janta de Páscoa.
Todos na casa de Érica. Umas quinze pessoas. Brindando e festejando os chocolates e caixas de bombons. Crianças correndo pela sala com as cestas cheias de ovos pequenos e grandes. Érica, puta da cara, sentada na poltrona, olhando pro celular esperando uma ligação do Davi, que sairia com ela mais tarde pra farrear com os amigos. Joanete, a mãe da Érica, de cujo nome pavoroso queria ser conhecida apenas por Jôa, dizia: "Que coisa feia e desagradável, Érica! Você sempre querendo ser diferente de todo mundo. Vem pra mesa que a gente vai começar a comer agora! A Silvana já está sentada ao lado dos pais dela e você esperando a ligação daquele judeu!". Érica levantou-se e, com o dedo em riste disse: "Pára de falar assim do Davi! Sua anti-semita! Sua racista!", correu pro quarto. Silvana, que assistia a tudo de longe, pediu licença e foi atrás da prima.
No quarto, Érica agarrava-se ao travesseiro chorando. Olhava para a foto de Davi, que ele mesmo tinha dado a ela. Silvana bate na porta. "Quem é?", grita Érica histérica, "É a Sil!", responde a prima. "SAIA DAQUI!". Silvana, calmamente se retira e vai ao lavabo. Lá de dentro pega o celular e começa a ligar. "Preciso de ajuda, estou no ponto do GPS!"
Em poucos segundo a porta da cozinha é arrebentada. Gritos na casa, pavor, susto. Aproximadamente 30 malucos vestidos de preto com uma pena na cabeça e com escudos onde se lia: "SDJNSB" (sociedade defensora dos judeus na sociedade brasileira). Todos morreram. Menos Érica que, ao ver a cena de morte, começou a rir histericamente gritando: "VOU NO BAR MITZVAH, VOU NO BAR MITZVAH!!!!!!"
...é o que eu sempre digo: aquele que aos outros quer só o bem, só ao seu coração é refém da bondade alheia.

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De Supetão
Roberto Yellow Moschen Jr

Hanging around
Nothing to do but frown
Rainny days and Mondays always get me down...
Época triste, o Natal, com toda essa alegria e convívio familiar.
Triste porque, para mim, traz recordações de pessoas com quem convivi e de quem gostava muito e já não convivo mais. Ok, meio brega, meio óbvio etc. Mas é uma festa que tem toda uma carga emocional atrelada que nos foi incutida e de que é difícil escapar. Penso nos natais da infância, com a parentada toda, aquela sensação de proteção que perdemos quando crescemos e vemos que o mundo nada tem de seguro. As brincadeiras com os primos, o dia seguinte em que saímos para a rua e estreamos os brinquedos novos, a comilança da ceia e no dia seguinte, quando comíamos os restolhos da ceia e ainda se fazia mais comida para alimentar os 20 parentes que tinham dormido lá em casa, uma criançada infernal... meus pais devem ser loucos, eu jamais teria tanta paciência assim.
Lembro de pessoas a quem enviava cartões e a quem hoje já não envio mais. O que aconteceu? Lembro de pessoas de quem eu lembrava e telefonava desejando "um feliz natal e um próspero ano novo", e hoje sequer as vejo, mas, de certa forma, continuam presentes, como parte daquilo que eu era naqueles dias.
Mas também não posso reclamar deste natal. Tenho amigos tri bons, a família cresceu, pessoas especiais dividindo seu tempo comigo... meu círculo de amizades apertou, mas também o que sobrou tá pra lá de bom :O)
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Esse é o último Mulatas do ano. Cara, quem diria que chegaríamos tão longe. Eu sei que não fui o colunista fixo mais assíduo daqui, mas gostei muito da forma como aconteceu. Meus parabéns ao Fábio, por ter mantido a coisa quente por tanto tempo e por seus toques geniais em todas essas edições. E meus parabéns a todos os contribuintes que ajudaram a tornar esta PbEM tão comentada a ponto de virar ponto de referência das conversas de tanta gente. Descobrimos juntos uma nova maneira de comunicar, praticamente esquecendo o conceito de linha EDITORIAL hehehe. Parabéns a todos os que se superaram e conseguiram traduzir em texto parte de suas vidas, e tiveram a coragem de trazer isso a público, expondo-se de tal forma que, se não fosse o MJC, talvez isso não acontecesse tão cedo.
Porque a caneca com café requentado lhe queimava as mãos. Já não havia mais aba onde segurá-la (alguma vez houvera?). Olhava pela janela de seu quarto de pensão no centro e observava o viaduto, embaixo do qual alguns trabalhadores tardios aguardavam seus ônibus para irem ao encontro de suas famílias que lhes esperavam com a mesa já posta para a ceia.
Tentava lembrar das ceias que tivera na infância que passara no interior, na estância de seu avô, a família reunida que chegava a cavalo e carroça, o boi assando no fogo de chão. Lembrava do cheiro, das vozes, do movimento, da tarde acabando fria enquanto se abrigavam do sereno debaixo do caramanchão para esperar a carne que vinha estalando no espeto, a boca cheia d'água, as mães que não davam conta de atender a tanta criança berrando por comida e por traquinagem. Lembrava do cheiro dos palheiros dos homens e das águas de colônia com que as mulheres se banhavam para ser perfumarem para o natal e disfarçar o cheiro do pó da viagem. Ainda lembrava do pião colorido que ganhara certa feita, e do seu pai que lhe ensinara a jogá-lo...
Largou a caneca, a mão lhe doía. O peito também.
Mexeu na antena da tevê, arrumou o bom-bril sem o qual nada veria senão formigas na tela. Estava passando um especial de natal, mas não prestava muita atenção. Não sabia se deveria ser natal para ele ou não. Não sabia acontecer o natal sem ter com quem... não, resolveu ir até a geladeira e retirou a garrafa de cidra que achara num despacho na noite passada. Jogou o café fora, passou uma água na caneca e encheu-a com a bebida gelada. Bebeu tudo de um gole só, foi até a janela e gritou " Feliz Natal, seus filhos da puta!".
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Feliz Natal e que 2002 lhe traga muitas Mulatas para ler. Ah, que tu sejas muito feliz.

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Versos Soltos
(poemas para serem lidos da esquerda para a direita)

Mediocricidade...
...ai de quem tentar esquecer a quem eu tentei envolver no último verso solto a que me referia um outro dia / e que se for perfeita a definição traçada de uma risada amarga na madrugada / que pese todas as humilhações ríspidas como pisadas mudas em calçadas íntimas pavimentadas em nossas paredes estomacais / e se porventura não entenderes o que disse e o que hei de dizer / que todas as letras mudem e acotovelem-se ao redor do seu ser / que todas as frases soem gastas para aqueles que não puderem nascer / e que todos os amigos perdidos voltem antes do anoitecer....se anoitecer...
Ambulância de Mim Mesmo...
...sou uma ambulância de mim mesmo/ atrofiado na esquina do supermercado / como um poema urbano conturbado / perdido e largado a esmo / procurando o que fazer e matando o tempo com um cigarro / paro por entre os carros e ajoelho-me ao meio fio / desviando de catarros duros do frio / seguro-me com toda a força / aperto-me em lembranças toscas / vou-me, afastando-me e deliciando-me / tentando esquecer o conto urbano conturbado / parado e jogado com a página dez aberta / na esquina do supermercado...
Sejas feliz Enquanto Viveres...
...à própria sorte fora abandonado / esquecido e desfigurado pela idade, que é maldosa / que é impecável e de constante atividade / assim como para os seios da mulher é injusta a gravidade / a possessividade impõe os riscos da mediana fácil sociedade / o sociopata nega a intuição de ser o bobalhão que mata / as estátuas dormem durante o dia / à noite acordam / mas ninguém as via / formigas que trabalham no verão para festejar o inverno sabem que se assim não fosse, suas vidas seriam um inferno / tirando o guri imbecil que pisa nas pobres para fingir de gigante / sem saber que por cima de sua cabeça tem uma nuvem constante / nuvem de dor e de dilúvio / que chove sobre a memória / apagando toda uma história...
Calor d'alma...
...joguei pedra em sete sapos / quebrei o vidro da casa / sou criança inocente / não sei de nada / penso ser o futuro que vem rapidamente / às vezes nem tanto / cadê meu repelente? / devo sair pela manhã bem cedo, para pescar com o Zé e o Capitão Feio / acho que vai dar tudo certo, combinamos ontem no recreio / levarei sanduíches e uma vara de pescar / o Zé disse que ia levar as iscas e até molinete, se precisar / o Capitão Feio não vai levar nada, mas falou que ia roubar do irmão umas revistinhas de mulher pelada / tudo na infância é perfeito / mas a gente sempre reclama / reclama de ser criança / reclama / que será que tem pra comer?
Pra quem acha que os versos soltos ficaram muito grandes...
...eis um poema com o título maior que o texto...
Acabou Chorare...
...antes que digas algo, respires / antes de respirar, arregale os olhos / antes de arregalar, dê um giro / antes de girar, dê um suspiro / antes de suspirar, dê tchau / antes de abanar, caia no chão / antes de cair, olhe se tem alguém por perto pensando que tu é louco / se tiver, faça tudo isso....
Ando meio cambaleante...
...ultimamente nada mais faz sentido / tudo que leio foge correndo / os lugares onde ando parecem estar derretendo / os sonhos são cristalizados e pendurados na parede do bar / as palavras que vomito ficam flutuando no ar / as serenas roupas pequenas que usavam ao luar agora são peças rasgadas / as letras que eu encaixava parecem volúveis / os lençóis sobre os quais eu dormia parecem despertos / não me acompanham mais por entre os desertos...
O Ano-Novo de Yolanda...
...família à mesa pronta para gentilezas / têm fome de amor, carinho ou apenas esperam pela sobremesa? / uns rezam, outros desprezam / e Yolanda olha de longe o bolo que fez com carinho / ser devorado antes do cafezinho / é comido, digerido e destruído no meio do caminho / sua mãe, pintada, baba sobre as sobras dos canapés / o pai, com sono, mal suporta-se em seus próprios pés / a árvore de natal perto da porta e um tapete persa no meio / crianças correndo pela sala, adultos rindo de bobagens, todos com o bucho cheio / a noite de um dia pleno / e Yolanda espera, paciente, o efeito do veneno...
2002...
...na praia, lendo uma revista inútil / Jorge fuma um cigarro e ouve um reggae / nas pedras, mais ao lado, a esposa pega um sol / mas é só o começo, foda é voltar pra cidade e começar tuuuuuuuuuuuudo de novo...
Basculante balouçante...
...de dentro do navio espiava as ondas que iam até a praia / no vaivém da brisa / do vento que bate nos cílios / do pai da janela esperando os filhos / que leitura louca / que despertar esperto / de costas e de membro ereto / queria ser do dilúvio a chuva e do cortejo o féretro / mas que vida inútil / pensando e pensando o que havia de pensar / o que a via fazer / o que há, via de fato? / vias de fato / vias de falo / boneca / galo / coisas da noite / coice de mula em dia de luta na mata / boi-bumbá e folia regueira / maconheira...
Bolsa de plástico...
...que vinha noite e dia / dia e noite de mãos dadas / com as mulheres pagas / com as donas da noite / que vontade / a benção que vinha de dentro pra fora morava n'alma de Djalma / que dormia de pijama e com muita calma / bagunçava as letras do dicionário / parecia parecer perante o parar perfurado dentro do armário / perene parava desperto e dançava sob a luz das idéias que chamuscavam-lhe o travesseiro / mamava no próprio dedo o dia inteiro / avistava a contínua noção de que nem tudo era liberdade / e tentava fazer sentido nas palavras que digitava...emoção descontinuada...
Que sonho de merda...
...tive essa noite um sonho foda / me via vestido de macaco em uma roda / roda de cantores de polka / que caminhavam em direção a cordilheira dos Andes / e antes que eu pudesse me dar conta da besteira ocorrida / via-me em procissão de mães sofridas / que traziam lenços nas mãos com fotos de filhos / eu via sem querer ver assim, meio de soslaio / será que eram as mães das praças de maio? / quando puxei conversa caí num precipício / me senti destemperado / me senti num hospício / com mãos pegando no meu joelho / tinha medo da morte e sabia que estava perdido / fugi de um homem com cara de bandido / segurava uma vela enorme na mão e na outra um relho / saí pela terceira porta / desci a terceira escada / encontrei uma casa toda queimada / com corpos no chão, até a calçada / me belisquei, não podia ser verdade / acordei todo suado / com os olhos arregalados e um que de tranqüilidade / nada melhor que a realidade...

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Biba News
Ivanor Valente

Ai gentem... O ano já ta no fim... "passou tão rápido".... ai que coisa... bem papo de tia véia falando isso quando encontra aquele Clube da Saudade de amigas na praia.... sempre dizendo a mesma coisa. Eu no Natal passei com família de mamis... e sempre tem uma véia que não é boba, que faz aquela perguntinha báásica: "E as namoradas?"... e eu disse: "To sozinho no momento." E a véia foi la e tascou-lhe a língua e disse: "Tá sozinho porque quer." Ela falou isso pq eu tava vestido de bofe né, tadinha... mal sabe ela da verdadeira identidade de myself. Uma das coisas que mais me marcou nesse ano foi a minha estréia aqui no Mulatas, ando não escrevendo muito mas ano que vem eu escreverei mais... promessa hein... so não me peçam pra subir de joelhos a escadaria da Penha, p

ooooor favor, ninguém merece isso. Bixa...... aluguei esses dias uns filmes brasileiros do gênero GLS (não sei pq eles colocam o L e o S, pois só tem G nos filmes). Numa cena a bixa bombadiiiissssima "atuando" né.. jurando que nuuuunca tinha dado aquilo que Deus deu para ela, se faz que foi "forçada" a fazer algo que ela não quisesse.. ah ta...... ela não grita, não age pra nada, na boa.... poderia pelo menos fazer algum gemido ou algo parecido. Ahhhhhhhhh... não posso deixar de falar de Nany People báááásica que tava na HEBE na Segunda após a final da tal da Casa dos Artistas. Esvoaçante, exuberante, umas pernas... nossa... tem muita racha nesse mundo que não tem o que Nany básica tem. Ai.... vou terminando por aqui, desejando um ótimo FELIZ ANO NOVO para todos os nossos leitores poderosiiiiiiiiiiiissssssimos, ano que vem vou reformular minha participação, mas isso eu só falo com vocês no ano que vem, ok? Abraços, beijos, lambidas.. ai... o que quiserem. Até ano que vem people.... Fuuuuuuuui!
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Totalização : Coluna de Borvaz Sarsa

////// Introdução sem brilho
Com as festas, gavetas devem ser limpas. É tempo de especiais reciclados e da completa falta de originalidade. Com Borvaz não será diferente, de velhos artigos seremos servidos. Nesta edição vemos a continuação de uma saga, uma referência obtusa a aventura rodrigueana de um amigo, um plágio descarado de Seinfeld e a reciclagem borvaziana dos clichês natalinos. Como diria o próprio Borvaz, caso já não se encontrasse em férias:
"Confinem-se, à ferros, todas as pretensões das individualidades chorosas de ontem. Das mensagem coletivas, da mídia crua, do meio ruidoso construamos nossas próprias narrativas desconexas."
A todos uma boa leitura e um melhor ano novo.
A. T. Obuyo, relações públicas e especialista em Feng Shui.
////// Fim da introdução sem brilho
Seqüência de jogo
im[restaurando...]agem aparece subitamente em uma rua comercial de bairro, moderadamente movimentada. Pessoas passam e seguem indiferentes ao observador. Reconhece a rua, lembra de ter passado por algumas das lojas recentemente. Quando teria sido mesmo? Na imagem a vista se modifica e parece aproximar das pessoas que seguem apressadas na calçada do outro lado da rua. Mas espere! Aquele não é ele mesmo com seus trajes de trabalho, ainda com a maleta com as amostras na mão, olhando para ambos os lados antes de atravessar a rua?
Por algum tempo observa-se a perambular por ruas conhecidas, entrando em lojas de clientes, pegando lotações e atendendo ao celular, sempre com o habitual ar cansado com que enfrentava a rotina. A fita parecia uma gravação do que ele fizera uns dias atrás. Não conseguia ver como havia sido filmado. Ou por que motivo. Gasta algum tempo tentando entender como tal fita poderia ter sido gravada, empacotada e entregue na porta de sua casa sem que disso tomasse qualquer conhecimento até que o telefone toca. Vai até a sala atender. Quando retorna o cenário na televisão mudou.
Na tela, completamente alheio ao confuso estado de espírito com que lhe observa sua versão de carne e osso, Marcos assiste de forma empolgada ao desenrolar de uma corrida de cavalos. O vencedor cruza a linha de chegada para grande alegria do Marcos televisivo que salta exultante, comemorando a brandir um bilhete. Quando isso aconteceu? Eu nunca fui as corridas, pensa Marcos. Tenho certeza, nunca fui ao hipódromo. Devo ter perdido algo importante. Preciso rebobinar a fita.
Onde está o controle? Marcos olha em volta procurando ver o pequeno aparelho largado sobre alguma coisa. Então, sem conseguir entender o porquê de tudo aquilo, começa a vasculhar entre os lençóis e cobertas da cama ainda não arrumada.

Apresentação de " An Introduction to Order Inference and Contingency on Coarse Coupled Social Sytems", por Zamsky,I. & Lefavre, O. Tradução de Tomas Hikawa. EDUSP-1999.
"Quando se trata de determinar o comportamento de um agente autônomo em um sistema de trocas aberto e fracamente acoplado, busca-se antes de mais nada o estabelecimento de um subespaço que elenque adequadamente as reações do agente estudado a um conjunto alvo de situações. Sistemas computacionais biológicos, notavelmente os de caracter neuronial encontrados nos animais altamente encefalizados, evoluíram fim de maximizar as possibilidades de sobrevivência do organismo a diversas iterações do tipo perde-ganha. A sobrevivência dos mais aptos assegurou dessa maneira uma dinâmica de corrida armamentista na qual predadores capazes de lançar estratégias cada vez mais refinadas, são confrontados com presas capazes de prever de forma mais precisa as próximas ações de seus caçadores. A vantagem da imprevisibilidade no comportamento animal foi dessa forma destilada, ao longo de todo o processo evolutivo. Se nos animais inferiores e invertebrados as fontes biológicas da aleatoriedade em diversos comportamentos já foram determinadas como tendo por base processos metabólicos instáveis, laços de realimentação com características pouco previsíveis do meio ambiente e, em alguns casos, ruído eletroquímico em determinadas conexões nervosas, para os animais mais complexos, o homem incluso, os processos exatos ainda devem ser determinados. Na psicodinâmica humana indícios claros apoiam a possibilidade de inferência de uma superfície funcional com dimensão entre 12.23 e 14.5.
Nas sociedades animais fracamente acopladas como a humana, os indivíduos tem completo controle dos mecanismos internos de seu metabolismo, sendo as iterações com o grupo principalmente restritas a sinalização abstrata e convenções posturais (ao contrario dos insetos sociais, por exemplo, onde a sinalização química é parte integrante do metabolismo dos agentes individuais). Quando imerso no contexto social a restrição da dimensão do canal disponível ao indivíduo para interagir com seus pares e com o ambiente limita severamente suas estratégias de ação futuras. Igualmente limitantes são os fatores de contorno energéticos que na sociedade humana apresentam correlação econômica. Essa limitação dos cursos de ação acessíveis reduz as superfícies de probabilidade a serem preditas para ordens bem mais baixas entre 4.5 e 7. Graus de liberdade estes dentro, portanto, das capacidades atuais de predição computacional. Assim, o comportamento contingêncial do homem-social não só não parece ser aleatório como pode ser previsto, desde que uma correta e minuciosa estimativa de ordem do indivíduo seja realizada a priori de forma empírica."

Os ordinários
Os ordinários se encontraram num quarto de quinta. Num motel ralé, em plena tarde de prostitutas e travestis. Ela veste seu uniforme do banco. Ele, calça jeans e uma camiseta da empresa, ainda leva embaixo do braço a última entrega da tarde.
Olham para trás e entram rápido. Não se falam. Somem do sol. No recesso imundo acanalham-se com fervor. Emergirão hora depois e, novamente, um irá para cada lado. Não falarão nem se tocarão. Carregarão para casa consigo bens mais valiosos que palavras: uma culpa a latejar agradavelmente entre as pernas, um semi-sorriso irônico e cafajeste com muito custo suprimido das faces.
Com estes tão particulares pertences, voltarão a seus cônjuges, às suas rotinas e poderão suportar a noite e o dia de torpor que os separam do próximo encontro.

Pequeno Jimmie
Pequeno Jimmie entrou na caverna e nunca conseguirá ser salvo a tempo. Faltam dois minutos, pequeno Jimmie! Claramente o resgate não chegará em tão exíguo intervalo. E o urso! O urso está voltando... Pobre pequeno Jimmie! Ficará suspenso no limbo da grade de programação até o desfecho do episódio. Entre telesenas milionárias e o sabão que lava mais branco, ficará sentado na caverna. Esperando.
Talvez jogue pedrinhas. Talvez batute com os dedos. Talvez roa as unhas.
Só na próxima semana, pequeno Jimmie!
Persevere! Estaremos lá! Conte conosco! Na próxima semana e no mesmo horário, com nossos olhos catodicamente hipnotizados haveremos de testemunhar tua redenção.

Natalina
Imaginem-se vivendo no norte da Europa, na época dos caçadores-coletores bárbaros que lá habitavam. Povos acostumados a poucas colheitas extraídas a muito custo das técnicas primitivas de agricultura. A viver principalmente da caça, da coleta, da pesca, e quando tudo mais rareava, do saque aos eventuais vizinhos mais afortunados. Imaginem o que o inverno era para estas pessoas.
Durante meses o frio aumentava, o manto de neve cobria tudo, apagando todos os vestígios de verde ou vegetal comestível. A caça rareava a medida que a noite progredia e o dia se tornava cada vez mais curto. Imaginem a fome crescendo quando, jornada após jornada, restavam menos horas para marchar sobre campos cada vez mais espessos de neve procurando por um único cervo esquálido, uma única lebre magra. Uma qualquer coisa que se pudesse matar e comer.
Pensem que não se encontra mais lenha seca, que o fogo se torna difícil de manter, que as provisões apodrecem. E então, que as pessoas começam a morrer. Os mais fracos, os mais velhos, os mais novos.
Morrem de fome, de disenteria da comida estragada, de frio. E então não é possível enterrar os cadáveres pois o chão congelado é duro demais para as rústicas ferramentas que possuem. E da proximidade com os mortos advém o mal-cheiro, os pesadelos e então, as novas doenças a cobrar ainda mais uma provação aos que persistem em viver.
Sendo um animal que veio dos trópicos o homem não está adaptado a tais provações. Não pode como os demais animais simplesmente deitar e hibernar esperando por dias melhores. Dia após dia tem que resistir e tentar novamente sair de debaixo do manto protetor de peles e do sono confortador e empreender caçadas cada vez mais infrutíferas, coletas cada vez mais pobres e saques cada vez mais malsucedidos a vizinhos em condição de penúria semelhante a sua.
Mas o homem é um bicho que planeja para o longo prazo, e é capaz de contar nos dedos. Os mais sábios percebem que o um mesmo padrão de provações se repete, ano após ano. Inverno após inverno a noite avança sobre o dia até quase sufocar a todos.
Então chega um dia que é o dia mais curto do ano, um dia em que o sol mal se eleva e, exausto, é obrigado a descer novamente e o frio, a noite, a neve e a fome parecem ter vencido. Esse dia é o pior de todos. Nesse dia todos querem se render ao sono e deixar que a neve os cubra. Querem cair no oblívio e morrer e ter seus rastros apagados.
Mas os que sobreviveram outros invernos sabem que algo sempre acontece nesse dia: a noite para de avançar. Algo, alguém, parece interceder e o dia seguinte já será um pouco mais longo, e o seguinte ainda maior. O pior terá passado. A aldeia sobreviverá.
São gente simples. Acostumados a viver por seus próprios meios e não precisar de favores de ninguém. Porém temem. Contra a noite que avança nada podem. Temem pois sabem que seu conhecimento é limitado. Temem pois se no próximo ano o estranho benfeitor não intervier em tempo todos perecerão. Temem ser esquecidos e por isso realizam um ritual.
Todo ano, no dia mais curto do ano, quando a morte parece próxima a descer sobre todos sua foice, reúnem suas últimas forças e saem de sob as cobertas. E festejam, e riem e dançam. Celebram tal e qual fosse primavera. Desdenham a noite e assim esperam lembrar seu benfeitor oculto que são fortes e que fazem por merecer viver. Ao menos por mais um ano.
Assim o solstício vem sendo celebrado em todo o hemisfério norte ao menos desde a última glaciação. Uma celebração do triunfo da vontade humana frente às mais severas adversidades e a lembrança permanente de nossas primeiras tentativas de entender o mundo físico, tão maior que nossas pequenas escaramuças.
Que tal celebração se tenha entranhado profundamente na cultura de tantos povos, mesmo quando os mesmos migraram para regiões mais amenas não é, portanto de estranhar. Nem que esta data tenha entrado nas mais diversas religiões pelos mais diversos motivos simbolizando a renovação e nos chegue hoje nas diversas versões das festas de fim ano. O que não se deve esquecer, no entanto, é que ao contrario de nossos antepassados sabemos melhor o mundo.
Sabemos que o benfeitor não existia, o recesso da noite sendo apenas conseqüência mecânica de nosso planeta inclinado. É fato que o solstício se repetiria mesmo sem a dança e a festa. Mas mesmo nosso ancestrais não esperavam que a caça viesse até eles. Dependia de seu esforço consciente. A dança e a festa os confortavam, mostrando que compartilhavam seu destino com amigos, que tinham a quem recorrer, que eram fortes e capazes.
Mesmo que para nós, no hemisfério sul a simbologia astronômica do solstício esteja toda errada, o grande sentido da celebração de fim de ano, merece ainda ser preservado. Lembremos então da capacidade que o ser humano tem de quando unido e usando de todo seu engenho, superar a qualquer adversidade e celebremos.
Não dependamos de benfeitores ocultos, sejam deuses, governos ou "inexoráveis forças da história", não nos locupletemos em simbolismo religioso vazio, não sucumbamos ao ocultismo enganador. Que a lembrança do manto de neve que por tantas vezes quase extinguiu uma raça primata e desengonçada que teimava em viver em condições tão diversas das que viram sua criação, nos ajude, todo dia, a sair de debaixo das cobertas e persistir.
A todos vocês, Borvaz deseja, um ótimo ano novo.

"... e então, de boa vontade imolei minha dignidade no altar, maculado pela lascívia, do teu perdão." (A Volta de Tristan, cena III- ato 5. Osíres Varella )

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"Fui na NEO mas não perdi o anel!"
(Fake 28)

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-Colaboradores dessa edição:
- Ivanor Valente

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