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As Mulatas de Jesus Cristo -
31 - Canoas 21/12/2001
Sumário
EDITORIAL - Fábio Luis
Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS - Fábio
Luis Emerim
VERSOS SOLTOS - Fábio e seus alter egos
COLUNA DO BORVAZ SARSA - Borvaz Sarsa
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EDITORIAL
Ta chegando o Natal e com ele
todas as porcarias colaterais que a gente se vê, mais cedo ou mais
tarde e quase que inevitavelmente, incluso.
Amigo secreto, por exemplo! Assim como o Natal, eu odeio amigo secreto!
Primeiro porque normalmente só participo de amigo secreto compulsório,
ou seja, aquele amigo secreto que a maioria maldita do teu local de trabalho
resolve aderir e tu, pra não ser o "soldado do passo certo"
(na visão deles, é claro, pois nada mais imbecil que amigo
secreto), acaba participando para o seu desespero.
Daí sempre tem um que diz que tem que ser presente de 1,99! Ah,
não! Gritei e disse que era pra aumentar, pois, se era pra participar
contra a vontade, que eu ganhe algo decente (claro que essa última
parte eu não disse)...
E, óbvio, o que também faz parte, e que não foi diferente,
tu acaba tirando uma guria que pede roupa. E dá detalhes da roupa!
Agora imagina a cena: eu na Renner, setor feminino, procurando uma roupa
de mulher. Entendam uma coisa, eu fujo de loja de roupas assim como o
FHC foge do Vicentinho, ou seja, vou uma vez por ano pra comprar roupas
pra mim e faço cara feia cada vez que tenho que entrar no provador!
Bem, o palco estava montado: Renner + semana de Natal + de tarde em dia
de semana...cadê meu calmante? Vê-se crianças no chão
berrando porque querem alguma coisa e as mães com um fleuma invejável,
enquanto você, na fila, morde as roupas e rói as unhas! Ah,
a fila, evidentemente, enorme, maior impossível. As vendedoras,
coitadas, tentam ser 10 ao mesmo tempo. No chão a criançada
berra desesperadamente. A mãe resolve dar uma bofetada, para o
íntimo deleite de todos. Eu, óbvio, não achei a roupa,
daí fui numa loja de CD e comprei um cheque presente. Foda-se!
E alguém, peloamordedeus, pode me dizer por quê sempre que
vou pegar meu chinelo, um dos pés está sempre mais embaixo
da cama que o outro e tenho que me abaixar pra pegar?
***
Casulo 14 - O Portal das Averiguações
Noturnas
Fábio Luis Emerim
Voyeurismo em Rede Nacional Não
adianta dizer que não! Você viu o último "Casa
dos Artistas"! Viu porque o Silvio Santos é foda, meu filho,
não tem como negar! O cara faz dinheiro onde e quando ele quiser!
Matou a Globo de 50 x 15!
Agora, o programa é bom? Sabe que até agora eu não
sei? Eu evito em ser preconceituoso e começar a debochar dos programas
que caem no gosto popular, por isso devo dizer que a última sacada
de gênio do "é com você Lombardeeeeee" ultrapassou
todas as expectativas. Para quem pensava que "o Show do Milhão"
seria o último suspiro do já setentão homem do baú,
eis que o cara surge com essa "idéia" de colocar um bando
de artistas (uns mais conhecidos, outros nem tanto) dentro de uma casa
maravilhosa lá no Morumbi. Será que as pessoas já
estão de saco cheio de ficção e novelas com finais
óbvios? Ou será que todo mundo gosta de futricar na vida
alheia (e isso inclui eu e você).
Quando eu era piá, ficava com meu padrinho em cima do telhado,
cada um com uma luneta, bisbilhotando os apartamentos dos edifícios
vizinhos. Gastávamos horas lá. E era a melhor coisa do mundo.
Nem sabíamos quem eram as pessoas, azar, o importante era que olhar
a intimidade dos outros, saber quantas vidas de diversificadas visões,
expectativas, sonhos, brigas com a diferença de apenas um andar
para o outro nos valia como uma novela ou uma sessão de cinema.
Daí acho que o criador dessa onda do reality show tinha esse mesmo
hobby e sacou que as pessoas são iguais e gostam sim de saber o
que se passa quando alguém não precisa se vestir de "sociedade"
para driblar os problemas da vida. Claro que lá as pintas sabem
que estão sendo filmadas, o que tira um pouco a naturalidade das
ações, mas é curioso e intrigante dar uma de, digamos,
vigia desse povo. É bom porque o tiete acaba descobrindo que seu
ator favorito, seu ídolo, também faz, veja você, cocô
e xixi! Que todo mundo é chato, pelo menos em um momento do dia,
todo mundo é bacana, pelo menos uma vez por semana, e, ao mesmo
tempo que é praticamente insalubre viver isolado sem contato com
ninguém, é um saco morar durante 60 dias dentro de uma casa
com tantas pessoas com idéias diferentes.
Eu, sinceramente, acho que nada na vida é realidade, tudo não
passa de um filminho de quinta categoria e dirigido pelo Ed Wood...
Agora, que foi muito bom ouvir o Silvio Santos falando "putaria"
foi, ah foi.......
.........
MOMENTO DO ANÚNCIO
Anúncio para loja de espelhos:
"O NATAL É UM MOMENTO PARA REFLEXÃO, ENTÃO,
COMPRE ESPELHOS MIRAMAR"
FIM DO MOMENTO DO ANÚNCIO
.....
Da série "Essas pessoas estranhas e suas páginas
bizarras":
"Nós acreditamos que podemos eficazmente causar a destruição
dos ateus criando um sistema para fazer a raça deles sumir. Os
homens escolhidos por nós são inteligentes, viris e Cristãos
devotos e acreditamos que os descendentes deles podem formar uma vanguarda
e conseguir o controle de todos os aparatos do Estado em nome de Jesus.
Assim que isso acontecer, eles poderão liquidar os não-Cristãos."
Acredite, está na página da "Associação
de Brasileiros Católicos Conservadores"
http://www.geocities.com/abccjesus/
***
Versos Soltos...
(poemas para serem lidos debaixo da árvore de Natal com uma garrafa
de steinheger em uma mão e a calcinha de alguém na outra)
Bala de Natal...
...deu-se um tiro / arrebentou-se a têmpora / acreditava ser o natal
uma época de emoção efêmera / e era / mas todos
o odiavam / matou-se numa segunda-feira...
É Natal, é Natal, pega no meu...
...ingênua criança manca / que anda pra cima e pra baixo
na rua da Alavanca / que sonhos trazes de dentro do peito? / que favores
de nós que te dizem respeito? / ó dor / ó vida dilacerada
/ ó inutilidade / ó, ó, pão de ló...
Âmago...
...amargo como o âmago amigo do amigo âmbar / me prendo em
correntes de prosa e verso / de verso e prosa / de vento em popa / de
sopa fria / de lento alento / tento e invento / violar o sofrimento /
açoitar o cata-vento / embebedar-me pestilento / como se fosse
uma auto-destruição nata / na nata /
Ilusão Devagarinho...
...ilusão devagarinho / que devagarinho vem de encontro ao meu
eu sozinho / colidindo com meu esguio corpinho / dilacerando minha carne
aos pouquinhos / me transformando de águia em passarinho / acorrentando-me
ao pesadelo mais mesquinho / entregando meu domínio ao de um vizinho
/ concordado com a falácia mais bobinha / e projetando minha cabeça
contra o pelourinho...
Bonde ...
...de onde vinha o bonde que outrora passou pela Rua Aurora / trazendo
pessoas ocupadas que vinha pro trabalho ou iam embora / passando por entre
avenidas pequenas, íngremes e esburacadas / durante as manhãs
chuvosas e as escuras madrugadas / levando meretrizes adocicadas e atrizes
lambuzadas / advogados preocupados com tantas papeladas / crianças,
velhos e mulheres aprisionadas / gente que contava dinheiro ao final do
mês para ter a ceia farta / guardas que trabalhavam de segunda a
segunda só com folga na quarta / de vez em quando um vira-lata
desavisado que morria por entre as rodas / um padre, algumas freiras que
desviavam os olhares das modas / bonde esse que fazia parte da vida da
Inês, Maria e Diocleciano / trabalhava 7 dias da semana, 30 dias
de um mês e 365 dias no ano / se foi / deixou somente os rastros
pela cidade menina / e deu lugar ao sentimento pobre de uma lotação
clandestina /
***
Coluna de Borvaz Sarsa
Sétima Iteração:
////// Uma sugestão amiga
Essa é aquela época do ano em que as pessoas se despedem
e os parentes dizem oi. Enquanto estiverem na praia a ultravioletar as
barrigas imagino que uma leitura agradável seja um tanto dispensável.
Porém se quiserem garantir seus dias chuvosos, procurem nos sebos
da vida por qualquer cosia escrita por Phillip K. Dick. De preferência
da época de Three Stigmata..., God Irae, Flow my Tears the Policeman
Said e The Man in the High Castle. São difíceis de achar
e muito sujos, às vezes somente são vistos em traduções
absurdas (para português de Portugal, para italiano, para alemão,
para russo). Mas para nós, que não vivemos realmente os
setenta, valem o esforço.
Antônio Túlio Obuyo
////// Fim da sugestão amiga
Seqüência de jogo
A roleta determina o destino
completamente aleatório, ou não. A cada repetição
novo número, nova sorte. A exibição da seqüência
em uma tela. A projeção de uma realidade, e de novo, e de
novo. Você olha uma janela, nesta vê alguém a jogar
dados. Será realmente alguém? Não será uma
gravação? Uma imagem projetada, deterministica, sem vontade?
Olhe de novo! Olhe bem. Observe bem os resultados! Conte os pares e ímpares!
Não serão novamente os mesmos numeros? Você já
não viu essa cena antes? Essa mesma exata seqüência
de movimentos? Talvez você esteja enganado... a memória a
lhe pregar peças. Ou talvez seja eu que não tenha entendido
bem do que se trata tudo isso. Explique-me, meu amigo, como é mesmo
isso de fenômeno imprevisível? Como você expressa isso?
Como você registra que tal e qual eventos devem ser de tal sorte
volúveis? Me escreve aí de tua própria matemática,
de teu próprio pulso e com tua própria caneta o que é
a tal fortuna, de que falam magos, adivinhos, poetas e políticos.
...
Marcos está deitado na sua cama, as mãos pressionam as têmporas,
os olhos rolam nas orbitas. Tudo o que tinha se foi, o que possuía
já era. Evaporou-se. Em breve os tubarões estariam ali para
faze-lo em pedaços, rasgar dos ossos o que lhe restara da carne.
Isto ele sabia, era certo. O ponteiro do relógio se inclinaria
um pouco mais e produziria magicamente os capangas que dele dariam cabo.
A porta de seu quarto como um relógio cuco, cedendo passagem à
demais marionetes, seus algozes. Como podia uma coisa insignificante como
um ponteiro de relógio armazenar tamanhas energias? Ser capaz de
conjurar tão grande má fortuna?
Tudo o que o separava de uma cova rasa em algum ponto de Alvorada era
a roda dentada, a evitar que as molas afoitas se adiantassem e consumissem
tudo. Não fossem os pequenos engates o girar do relógio
já tinha levado a todos, a ele e aos demais. Aos incautos na rua
também. Levado as casas, consumido os prédios, apagado as
montanhas. Do mais leve ao mais pesado, tudo carregado embora.
Mas de nada adiantaria se rebelar e quebrar o relógio, ou os relógios.
Nem puxar ponteiros para trás. Os pobres aparelhos também
eram como ele, vitimas. Moviam-se e desgastavam-se e um dia seriam pó.
Ao contrario dele, entretanto, isso se daria em tempo vindouro, não
naquela mesma noite. O verdadeiro carrasco, sabia Marcos, era intangível,
porém conhecia sua sorte e ria, uma larga risada plena de dentes.
Eram 7h18. Em menos de uma hora viriam cobrar sua dívida. O dinheiro
que havia evaporado na roleta, na pista do jóquei, na mesa de cartas.
Que havia gasto e do qual não restara cheiro. Já se esquivara
da divida antes. Ofendera o banqueiro mais de uma vez. Sabia que dessa
vez nem que o dinheiro magicamente surgisse em revoada pelas janelas e
lhe retornasse aos bolsos ele se veria livre do castigo. Exemplar.
Não deveria ser assim. Não deveria ser assim! Como fui tão
estúpido? O que deu errado? O que fiz errado? Não apenas
as apostas. Talvez algo anterior. Bem mais cedo. Alguma escolha errada.
Alguém talvez que eu tenha cumprimentado errado u dia a caminho
do trabalho. Os relógios de todos os tamanhos não esperavam
parados enquanto pensava. Marcos ainda estava deitado, com o olhos fixos
muito além do teto mofado, quando, de súbito, a porta se
abriu.
...
- E aí? Como termina dessa vez? - A voz cava partia de algum lugar
oculto pela fumaça que saia das narinas da face mal escanhoada
de um homem de meia idade. Parcialmente calvo, claramente cansado. O interesse
na pergunta parecia periférico. Pró forma.
- Diferenças periféricas no modus-operandi. Queima de partes
do corpo. Tortura. Mas nada que fuja do convencional por muitos desvios.
O homem que responde é magro. Usa óculos protetores e jaleco
displicentemente amarrotado e se move de forma peculiar, como se não
conhecesse seus próprios músculos.
- Já passou para a base de dados?
- Hmmhum, mesmo um sobre xis de sempre em vários domínios.
Existe um ciclo limite claro nos modelos particulares mais a seqüência
geral...
- Pode extrapolar para as próximas ocorrências?
- Já fiz. Mas ainda não fecha. Ainda não fui capaz
de inferir a ordem do gerador utilizado.
- Diacho! - Coloca ele mesmo óculos de proteção.
- Vamos de novo!
- Certo! Seqüência 19.735, gravando.
...
Marcos abre curiosamente o pacote que recebeu no correio. Estranho, sem
remetente. Um pequeno embrulho de papel pardo, amarrado com barbante.
Sem selo. Alguém deveria ter entregue. Enquanto desembrulha revê
mentalmente as datas importantes, pensa quem poderia ter sido e em nome
de que evento. Dentro do embrulho uma fita VHS comum, sem qualquer identificação.
Colocando de lado o papel, levanta-se da poltrona e se dirige para o quarto
onde esta o vídeo cassete. Que raios de gravação
pode ser essa! Pensa, a cabeça cheia de dúvidas.
O vídeo estala alto enquanto engole a fita, na TV a im...[interrompido!]
Constatações de
ano novo
Bete vomitou do corpo as tristezas do dia
E aconchegou a cabeça em braços amigos
Agora dorme.
Excerto de 'Aeon Redux: Grande
Médiuns Encontram Grandes Nomes da MPB'
Coleção Sphinx. Ed. NovaTlön, 1995-RJ
Ester fazia oscilar o tronco lentamente, em movimentos circulares, hipnóticos.
Mãos espalmadas aos lados da cabeça, dedos estendidos, nas
têmporas, a famosa Ester Bianchini falava: "Carl! Carl! Volte
Carl! Fale comigo Carl!". No silêncio constrangedor da sala
os repórteres esperavam apreensivos. Talvez o fato não se
repita, talvez tenham perdido seu tempo. "Estou recebendo algo!"
fala por fim Ester - "Tenho certeza! Uma mensagem se aproxima..."
A tensão construiu-se e amplificou-se no recinto, corria de olhos
em olhos, refletia-se em paredes, em expressões constritas. Todos
aguardavam. Álvaro finalmente irrompe afoito: "Diga-me, madame,
tens a resposta? A explicação?" Seu rosto é
uma súplica. Ester permanece em silêncio, sabia que o esforço
a derrotara. Mas precisava dizer algo, não poderia decepcionar
a todos! Meditou muito e, por fim, declarou: "Apenas ouço
uma palavra..." Imediatamente a interrogação preencheu
o ar. A pergunta na mente de todos era a mesma, e o silêncio de
Ester apenas fazia aumentar a urgência com que se necessitava da
resposta. Antes que o inevitável imperativo fosse vocalizado, ela
finalmente disse: "Borvaz! A palavra, é sempre Borvaz."
"Imperativos são subjuntivos mal-amados." (V. de Morais)
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"Deus não existe,
mas castiga"
Telmo Abech
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