AS MULATAS DE JESUS CRISTO - Ed. 23
 AS MULATAS DE JESUS CRISTO
 Publicação via e-mail semanal

As Mulatas de Jesus Cristo - 23 - Canoas 26/10/2001


***Sumário***

EDITORIAL - Fábio Luis Emerim
CASULO 14 - O PORTAL DAS AVERIGUAÇÕES NOTURNAS - Fábio Luis Emerim
VERSOS SOLTOS - Fábio e seus alter egos
DE SUPETÃO - Roberto Moschen Yellow jr
COLUNA DO BORVAS SARSA - o próprio


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EDITORIAL

Até domingo eu tinha NET em casa.

Foi eu sentar na frente da TV com uma latinha de cerveja e com uns lances pra comer que eu percebi que não poderia ver o jogo do Grêmio com o Corinthians, pois só seria transmitido naquela PORRA do pay-per-view!!!!!

Eu não quis acreditar quando liguei praquela merda e a coitada da atendente me falou que o jogo QUE ESTAVA ACONTECENDO EM SÃO PAULO, não seria transmitido aqui pra Porto Alegre.

Será que ninguém vai fazer absolutamente nada quanto a isso????? Quer dizer que eu, que já pagava por uma programação diferenciada via NET, ainda tenho que pagar pra ver um jogo do meu time que está acontecendo a mais de 1200 quilômetros daqui de casa? Será que a porra da ganância por dinheiro está superando todos os limites do bom senso?

Tudo bem: quem não quiser, não pague. Só que um merda de um empresário quis fazer esse tipo de palhaçada para transmitir a Fórmula 1 e levou um pé na bunda que nem tocou mais no assunto.

Cancelei a assinatura da NET e ouvi no rádio mesmo. E espero que você, leitor, que, acredito, tem certas afinidades ideológicas com este que vos escreve, faça o mesmo e mande esse bando de sanguessugas filhos da puta pro inferno! Não vejo a MENOR necessidade do pay-par-view, a não ser para rechear o cu de meia dúzia de empresários espertinhos que enfiam essas idéias mirabolantes goela-a-baixo da população, que engole quietinha!

Você vai engolir também?

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Quem conseguir falar com o suporte do Terra pelo 080071777 vai ganhar um doce!

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Fui num show da banda de um amigo meu lá no Garagem Hermética nessa sexta. A banda, CFC (Cash From Chaos), tocou numa noite de hard core violenta que há tempo não via. Não sou muito de hard core, mas o som dos caras é muito bom. Faz parte do clima. Claro que depois teve uma banda que eu não entendia absolutamente nada que o cara cantava, (isso se ele estivesse falando algo) e tu tinha a nítida impressão de que cada músico tocava uma música diferente. Enfim, o que vale é o clima o garagem, que é muito bom mesmo. Lá tive a oportunidade de pegar um fanzine muito legal, o MISCELLANEOUS, que trata de música, skate, entrevistas e miscelâneas em geral. Bem legal mesmo, mais porque a edição que eu peguei traz o Harold Loyd na capa, pendurado num relógio, em um dos seus vários filmes onde ele está sempre em uma situação apertada.

Enfim, o e-mail do zine é miscellaneous@miscellaneouszine.com.br e viva a produção independente.

Aliás, tava no Miscellaneous:

Huevo – desenhos, fotos, textos e quadrinhos - www.huevo.es.vg

Brujeria – fanzines, sons e desenhos - www.geocities.com/soho/3521

Freakworld – quadrinhos Zé Colméia – caixa postal 130 ag. Central Rio de Janeiro – RJ 20001-970

O Capital – textos diversos – av. Ivo Prado 984, 49015-070 Aracaju – SE

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Ai, meus pêlos pubianos! Já tem gente achando que sou um guerrilheiro de esquerda por causa do meu texto do Mulatas passado! Que mania de exagerar na leitura! Argh! De uma vez por todas: não sou guerrilheiro de esquerda. Mas acho tri massa...

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*********Da Série: Frases Que Eu Queria Ouvir O Henry Sobel Dizer:

“O rato roeu a roupa do rei de Roma e eu era irrepreensivelmente contra a sua erradicação para a comunidade Araraquarense empregadora de urubus irracionais.”


Colaborações literárias? Mande a sua para mulatas@terra.com.br

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()()Casulo 14 – O Portal das Averiguações Noturnas()()

por Fábio Luis Emerim

One Hit Wonder é aquela denominação que os caras lá nos EUA dão pras bandas ou solos que aparecem do nada e têm somente um hit que toca exaustivamente nas rádios e depois somem. Hollywood fez um filme com essa temática chamado “The Wonders” (aqueles daquela chata “That Thing You Do”). Ontem comecei a me lembrar quem que eu conheço, ou até tenho CD, que se encaixariam nessa definição. O Fastball é uma banda assim, lembra? Os caras que estouraram cantando o rock emboleirado “The Way”. Eu comprei o cd jurando que a banda era futuro e me fodi! Me fodi porque todo o disco é bom, mas acho que não venderam tanto assim. Decepção...Uns engraçados até, que eu não cheguei a comprar nada, mas eram divertidos, foram (caralho, eu odeio quando acerto a tecla “insert” sem querer) os carecas do Right Said Fred com o hit gay “I’m Too Sexy”. Fala a verdade, quem não dançou essa música mesmo pra se arriar? Eu nunca!

Bahhh, lembrei do Extreme. Que foi? Não acha que os caras tiveram só um hit? Tiveram sim, os posteriores foram mais jabá de rádio pra manter o nome deles na mídia e vender discos. “More Than Words” foi o único verdadeiro sucesso dessa banda, que trazia na guitarra o sensacional Nuno Bettencourt! O Pavement também foi abduzido! Po, aquela música era muito legal...nem me lembro do nome, mas...

Agora, tem também aquelas bandas que a gente não entende como foram pra frente. Eu, pelo menos não entendo. Babas como o Sugar Ray, por exemplo. Ouvi o primeiro trabalho deles e a única música que achei legal é uma pauleira desenfreada que abre o disco e que, óbvio, passou batida pelas rádios daqui e de lá. Outra é a Los Hermanos. Puta que pariu! E dizer que o George Harrison gravou “Ana Júlia”, ah meu! Tá todo mundo retardando...

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E o Herbert Vianna, hein? O cara tá recuperado, pronto pra outra! Confesso que nunca fui um fã dos Paralamas. Pra dizer a verdade eu só gostei do “Big Bang”, que acho o melhor trabalho do trio de Brasília, mas que foi emocionante ver o carequinha a mil, putz, claro que foi! É iffffaêêêêê!!!!

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Eu tava vendo aquele programa do David Letterman, o tal americano cujo talk show foi copiado pelo Jô Soares aqui no Brasil, e fiquei com medo da cabeça humana depois que vi um senador estado-unidense dizendo pro entrevistador que nunca sentiu tanto orgulho de ser um “cidadão americano” quanto nesses últimos dias em que os ianques começaram a bombardear o Afeganistão, aquele país miserável que, com bombas ou sem bombas, estava com sua população condenada à extinção seja pela fome, ou por frio. O cara teve ainda a cara dura de fazer gracinha com uma piada. Perguntou pro David Letterman:

- Você sabe como o bin Laden vai aparecer pro Halloween?

- Não – respondeu Letterman.

- Morto!!

(aplausos e gritinhos histéricos da platéia)

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Vi na TVE nesse domingo o show novo do Gabriel o Pensador. Gostei. Ele voltou à temática do primeiro álbum! Largou aquelas bichices Lulu Santianas e está, de novo, com aquela verborragia contestadora e ácida que o pôs em evidência no início dos anos noventa. Digam o que quiserem, ele escreve muito bem. Foi legal ver o Gabriel cantando com uma banda pesada e um DJ nas pick up’s mandando ver nos scratches e samples! Hip hop puro! To quase comprando o cd novo dele! Só se, óbvio, eu achar por menos de 15 pila!

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Pausa para a futilidade....

ou

Para aqueles que ainda levam a vida à sério:

Olha que cara mais inútil:

http://nsyncworld.tripod.com.br/nsyncworld/id9.html

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Acordou e foi pra geladeira...

Levou um susto porque não havia nada lá. Virou-se para a pia, donde vinha uma luz ofuscante, caminhou até a luz e viu que era boa, daí pegou com a mão, levou um queimão. Embaixo da luz havia um bilhete, havia um bilhete embaixo da luz, mas resolveu apagá-la primeiro, para evitar maiores dores. Leu. Releu. Treleu. Voltou a ler . Olhou pra cima. Assoviou. Sussurrou alto. Amassou o bilhete e pôs-se a correr. Saiu porta a fora...

...No centro da cidade, precisamente na praça, resolveu ir ao banheiro público. Não dentro, mas na porta, que estava torta. Esperou, esperou...

...Na sua casa, seu irmão o procurava na cozinha. Pegou do papel e leu. Estranhou a luz sobre a pia, que estava apagada, viu que não era boa e acendeu. Jogou sobre a mesa, o bilhete, e correu porta a fora. Sem bater...

...No centro da cidade, encontrou o irmão, ao lado do guarda da praça, em frente ao banheiro público. Fez gestos desconexos, prontamente respondidos. Sentou-se ao lado...

...Na sua casa, sua mãe os procurava. Estranhou a porta aberta e um papel amassado no chão. Pegou a porta e fechou o papel. Leu o que estava na mesa. A lâmpada estava semi-quente. Apagou. Suspirou tremendo, balançou as tranças. Fechou a porta da geladeira vazia e pôs-se a correr, porta a fora...

...No centro da cidade, precisamente na praça, o banheiro era guardado pelos irmãos e o guarda público. Pulou 3 vezes em sinal de ameaço, correu em direção dos três. O guarda estava com medo. Os irmãos abraçaram a mãe, que ficou ao lado, aguardando...

...Na sua casa, o pai reclamava para o gato, que não entendia nada, como o próprio pai e a empregada, que lhe acordara com o bilhete achado em cima da mesa vazia. O velho pegou do bilhete e leu à luz da geladeira, pois a lâmpada em cima da pia não funcionava. Leu, treleu, e correu. Porta a fora...

...No centro da cidade, na praça, no banheiro, os três mais o guarda aguardavam o que estava por acontecer. Nada mais poderia ser diferente do que parecia. O pai, acenando de longe, os filhos e a mãe gritando e pulando. O guarda já ensaiava seus pulinhos e ria disfarçadamente. Era um dia diferente...

...Na cozinha da casa, o gato e a empregada revezavam, entre papel/geladeira/lâmpada queimada, pra entender aquela madrugada.

Amanhecera o dia e a família na praça aguardava quem faltava. Era uma família feliz.

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Versos Soltos (poemas para serem lidos em um volume ensurdecedor no meio de um velório)

Paixão Azeda...

...que fim o da Teresa / ruminando sobre a mesa / não tenho certeza, era um fim com sutilieza / toda a gentileza pedia calma / todo rato comia a cauda / toda cautela e toda cuia pra chimarrão / evidenciava a família cristã gaúcha / com suas soberbas sobras de comunhão / hóstia-pão

O Féretro de Yolanda...

...lá vinha o cortejo / por entre o corredor de azulejos / evidenciando soluços e beijos / lágrimas e dores à mostra / durante a missa de pessoa exposta / muitos refletiram a resposta / dada às circunstâncias do fato / do falo / do facto / quantos amigos e irmãos / ouvi...

Perdão, Sogra, Mas peidaste?...

...dissera na hora do bolo / de bacalhau com vinho Miolo / a bendita reunião de família / tanto tempo adiada por Emília / e sua prima Dionéia / que lembrava o perfil de Odicléia / irmã de Denise Laus / caçula da mãe viúva / que viu a uva / que bebeu da vulva / que se matou com requintes de crueldade / vaidade...

O Violão de Yolanda...

...que pena que cai da perna a pena / que pena ao tentar penalizar Helena / pela idéia plena da cintura-esquema / do poder de fogo da literatura Romena / da missão embriagada da formiga pequena / do aleitamente materno da filha da Moema / que enfeitiçou seus penteados de forma amena / de dúvidas estapafúrdias de uma mente serena / e de cálidos verões na lúgubre sociedade em Viena...

Ao Passo que Marca o Marca-Passo...

...vou-me / com ou sem meu disfarce / que me põe de alface em todas as saladas / onde sou devorado pelas mais belas filhas-mimadas / prestando atenção em todas as mastigadas / mesmo quando sou cuspido pra fora / devido às exageradas / a calúnia é a resposta a todos teus anseios / seios / um umbigo revela a libido no meio do recreio / que feio / as palavras que soam fortes ao longo da minha vida / em primeira pessoa colocam toda mestre-ferida...

Palavras que Matam...

...pavor que toma conta do corpo / que destrói todo e qualquer porto / ensolarado, ou mesmo de clima morto / de barcos encalhados, ou mesmo de iates demorados / vazio como a mente de um fantoche / que move as faceiras crianças a deboches / que insulta o mendigo em tom de ilusão / que come o diabo que o pão amassou / dominó...

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DE SUPETÃO - por Roberto Moschen Yellow Jr

Após algumas edições ausente, eis que retorno, magnífico, cheiroso e bunitim.

Quanto à caça ao terrorismo, que saco, só dá isso nas manchetes, não se ouve falar noutra coisa, tá me enchendo, matem logo esse Osama, o Bush, os EUA, o Afeganistão, mas parem com isso duma vez!

Fui numa festa no Buda Bar. Direto dentro da coluna do Gasparotto. Toca só techno, e, no início, techno ruim. Era engraçado ver a pista cheia de cima do mezanino e todos lá parados, esperando começar alguma música que prestasse... mas depois a festa engrenou e a música ficou boa, ou eu fiquei bêbado, sei lá.

Siririca

Vera varou a vulva

Sacudiu-se só, soprano

Remexeu a racha recheada

Intumesceu o androceu

Invaginando...

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Vera era um gozo infinito com cheiro de flor de manhã de sol com brisa fresca. Vera sacudia as toalhas brancas da mesa da sala de janelas escancaradas por prazer.

Vera adoçava o suco de laranja.

Vera embebia a bolacha Maria no café com leite e soltava risadas gostosas contando coisas da infância.

Vera deleitava-se e deleitava.

Vera... putz, a Vera!

Fumava maconha para jogar War II e jamais terminá-lo. Andava de pés descalços.

Conseguia sentar na grama, tomar chimarrão, segurar os dedos dos pés e contar um filme, tudo ao mesmo tempo.

Adorava o sol. Adorava os primos. Adorava. Vera adorava.

Vera às vezes até sofre, mas todos dizem que ela não merecia aquilo. Não a Vera.

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Minha Primeira Redação

Eu fui no parque com papai porque era sábado. Tinha sol e ele me comprou um guaraná mas o guaraná ficou quente e tive que botar fora quase todo. Brinquei com o cachorro do Fabinho, que é marrom. Mas com o Fabinho eu não brinquei porque ele era chato e queria que eu brincasse só do que ele queria. O meu papai me empurrou no balanço e eu quase caí mas ele me segurou. As flores brilhavam por causa do sol. O parque estava muito colorido. Eu fui embora porque estava muito cansada.

Vera dos Santos (minha mãe ajudou)

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Diário de Vera

§ Levianamente impus-me um acordo com o mundo. Agora padeço de uma eteriedade amorfa, suspensa na Humanidade, sem esperanças de raízes, invejando os ajustados.

§ Sou o reflexo de um passado inconstante. Meu futuro só é incerto porque jamais espero o pior. Nunca me conformei em saber o mundo um lugar tão chato.

§ Nunca repeli um amor. Mas sempre acabaram me causando nojo.

§ Hoje fui à feira, depois passei no banco, deixei as compras em casa, fui ver um filme, jantei e fui dormir. Se não fosse o sorriso do cobrador do ônibus, teria me matado.

§ Hoje no trabalho, descobri que seria capaz de odiar a todos. Sem exceções. Mas escolhi o sorriso e a indiferença, não quero estragar meus sábados.

§ Meu nome é Vera. Falei isso na frente do espelho quando acordei, como faço todos os dias. Acho que tento me identificar com algo, sei lá. Depois coloquei a louça branca e azul na mesa de toalha branca com o sol batendo. Pus pães, bolachas, o leite e café fumegantes (tão estéticos...), sentei e passei margarina num pãozinho, tentando me lembrar daqueles comerciais felizes. Cantei enquanto tirava a mesa, como de costume. Enquanto lavava a louça ficava imaginando a cidade explodindo, as pessoas gritando, até não sobrar nada além de crateras no lugar do cotidiano. Isso sempre me conforta.

§ Às vezes tento fazer a diferença entre o trágico e o patético. Acho que depende do diretor do filme.

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Borvas Sarsa: Terceira Iteração.

>>>>COMUNICADO IMPORTANTE
Na condição de mulo e advogado de Borvaz Sarsa, venho a
expressar meu repúdio público pela forma desatenta com que
seus textos foram tratados no passado. Também renego a
veracidade da autoria de toda e qualquer nota a este
atribuída nas últimas semanas.
É fato conhecido que as emanações inadequadas do éter neste
conturbado período tem impedido a transmissão flogitica e
conseqüentemente a presença de Borvaz. Tendo isso
esclarecido tenho o prazer de retomar o envio de textos de
tão aclamado cronista para esta pobre-porém-limpinha
publicação semanal.
FIM DO COMUNICADO IMPORTANTE <<<<<


Mar de Sargaços

“- Limo!” – pensa, “a coisa verde no fundo da canoa por
certo é limo!”. Verde sobre marrom - sobre preto, talvez.
Alguma cor de coisa que se rendeu para a morte, esperando
lodosamente a desintegração. Não inspirava firmeza, decerto,
precário agregado em forma de canoa.
Balouçavam sobre a água: ele, Cila, a canoa e o limo. Isso
tomava por certo, concedendo fosse água aquela coisa inerte
sobre a qual se apoiavam: lamina preta recoberta por fiapos
sonâmbulos de condensação.
Cerração.
Debaixo do espelho, vultos ocres, verdes, marrons, réstias e
réstias de coisas mortas-vivas, colunando o mundo de
profundidades insondáveis... ou não. Talvez apertando o
olho, talvez forçando a mente a ver a emergência dos
padrões....
“- Eu tô entediada”- Cila enfim declara, mão na cara, cara
no chão.
Tomado como que de surpresa pela constatação de sua
presença, Deão com renovada energia a ela se dirige: “Sei
onde estamos! “ – declara – “Definitivamente sei... É o tal
do Mar de Sargaços, aquele onde as coisas velhas,
desprovidas de função, ou esquecidas há tempo se reúnem para
morrer!”.
“E daí ?” - indiferente, “ainda assim é um saco”. Balança a
canoa e olha, procurando na paisagem por algo que não
encontra. Por fim, nitidamente chateada, senta novamente.
“Não tem ninguém aqui! Ninguém! Saco.”
“Tu não entende Ci...”- Deão fala compreensivo – “... claro
que não tem ninguém! Não tem ninguém nem nada. Esse lugar
não é físico, é uma projeção arquetipica onde tudo o que é
representado tem valor simbólico. Vê aquilo ali, parece um
vulto de navio abandonado e decaído, mas apenas parece. Em
uma segunda análise, a hidrodinâmica está toda errada: o
casco é pequeno demais e aquelas projeções que se assemelham
a equipagem, também se assemelham demais. Não tem uma função
clara, exceto talvez a de se assemelhar a equipagem.
Percebe? E o navio aderna, parcialmente suspenso pelos
sargaços. É como uma metáfora para o fracasso da visão
tecnológico-industrialista do início do século. Sua
capitulação frente a entropia...”
Cila está de pé de novo, absorta em espanar as calças –
“Droga! Droga de Canoa imunda! ‘Tá me sujando toda!”
Fuzila-o com os olhos:” E ainda tenho que te ‘guentar o
tempo todo matraqueando.”
Deão continua, absorto: “E aquilo, naqueles bancos de algas
mais acolá, é uma igreja barroca? A submissão e o temor
frente a um deus rancoroso em conflito com a natureza
carnal... E logo ali? São ogivas, como palitos, como uma
cerca a apontar para o céu, dividindo em dois o futuro? Me
pergunto quantos mais desses vultos escuros, embaixo desse
espelho d’água são ainda outros símbolos... que somos
incapazes de compreender...” - a expressão é vaga, perdida.
“Mas...se tudo são arquétipos, que papel metalingüistico
desempenhamos nessa farsa? Qual a nossa função aqui !?!”
“Tá, Deão, tudo bem essas coisas que tu tá falando, mas
como a gente sai daqui? Meu cabelo está ficando uma droga
com esse fedor de pântano...”.

Movimentos minúsculos: (Matinal, por Ynne e Dana).
- Hoje é meu dia quente...
- È verdade... Poxa! Eu não tenho um!
- Quié que tu vai vestir?
- ...
- Ah não! Preciso um mapa astral!!


Revelação Couve-flor

Maria Berenice, filha de Dona Cota, assomada de amor louco
por Fulvídeo José, com ele, fugir planejou, e com esse tento
em mente atravessou o mato alto, saltou três cercas-farpadas
e acabou por se acomodar, agachada feito bola no canto de
trás da escola abandonada de traças das Irmãs Caçulinhas de
Caridade.
Seu intento de olhos febris rebrilhava dentre folhagens.
Mãos úmidas de antecipação, observava esperançosa, a cada
passo que vinha ou ia a sumir de ouvido, anunciando-se de
ecos longe nas ruas desertas de gente. Exultava - ou
exsudava, em perspectivas de dias dourados visados
vindouros. E, em cada golfada de ar, consumia as modorrices
da rotina previvida, já de ímpeto deposta em sua hormonal
debandada.
A noite lhe orvalha os olhos. E Maria Berenice, a menina
sonsa e vaga, que na lida é repreendida pela falta de
energia, pela malemolência vazia com que agenda seus dias,
hoje é só resolução. Há de ser – repete para si – senão no
dia de agora, no que a esse se sucede, ou no outro, ou no
depois.
E embora povoe o futuro com sonhos de roupa passada, de
toalhas alvejadas, de rotina chá das cinco, não se importa
realmente, não busca visceralmente a sua meta-fim. Não
analisa sentimentos, não os alfineta e olha, não os
escrutina e mostra, não os disseca e define, não os precisa
e classifica, e anuncia: com eles dá pulso ao sangue, anima
de força as vísceras. Ali premida, qual mola, surcircundada
de noite, de sumo de mato incensada, cardiacamente atenta,
Maria Berenice espera.


Um velho de vida perplexa impressa na testa em sulcos
profundos.

Pitando, pensando, pesadamente matutando estava o velho. O
ar amarelo pulvico lhe aureolava as idéias. Olha par

a você,
as rugas arqueando-lhe a face, os olhos se comprimem,
declara:
“- Tá naquilo que tu viu... “- falou de súbito e estancou.
“ ...o sentido, ‘cê sabe?” O ar lhe sibilava das narinas.
“... e também no que achou que tinha ‘vistado mas só estava
aqui ó...” – Falou apontando a cabeça.
Olha para baixo, ajeitando o tabaco no cachimbo, continua,
as palavras se enrolando e perdendo volume no fim: “ E, no
que os outra’chava, e nas concepção que se fazia, e na
maneira que as opinião passava pra lá e prá ca ...”
“- O resto...”- recomeçou – “o resto, eu num peguei não.
Não concebi muit’direitinho ainda...
”É a tal da base...” – resume, num esgar.


Kinotropia: Moldura oito por oito.

Primeiro fragmento recebido as 12h45:
// Zero; sessenta; noventa; cento e oitenta e nove; cento e
oitenta e nove; noventa; sessenta; zero.//

Segundo fragmento, sucedendo o primeiro de exatos
12.3427seg:
file://Sessenta; sessenta e seis; sessenta e seis; dois; doze;
dezesseis; zero; dezesseis.//

file://DYC?//


Chega por agora!!!

Elogios, críticas sinceras, garrafas de vodca e e-mails
cheios de dinheiro podem ser enviados diretamente a:
borvazsarsa@zipmail.com
“Toda resposta é uma eventualidade epidérmica!” - B.S.
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"Toda busca desenfreada pela verdade acaba, mais cedo ou mais tarde, na puta que o pariu!"


*****As Mulatas de Jesus Cristo - número 23 - 26/10/01 *****

-Staff:

-Fábio Luis Emerim
-Roberto Yellow Moschen Jr.

Colaboradores dessa edição:
- Borvas Sarsa

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