MJC - 1
 AS MULATAS DE JESUS CRISTO
 Publicação via e-mail semanal

 

As Mulatas de Jesus Cristo - 1 - Canoas 29/05/2001


Sumário


EDITORIAL - Fábio Luis Emerim
MANUAL DA REVOLUÇÃO DOMÉSTICA- Fábio Luis Emerim
A ORDEM UNIVERSAL DO INCONTESTÁVEL INCALSTRO DEPURACIÒ- Fábio Luis Emerim
CABE A MIM OS RESPIROS DA LIDA - Fábio L. Emerim
O PIOR DO MILÊNIO - Fábio Luis Emerim, Roberto Moschen Jr.
ENGANADORES - Telmo dos Santos Abech


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Editorial...

ACM, O Apagão, Dois Anos Sem Comer e Outras Porcarias...

Surreal é o que vivemos hoje em dia. Às vezes me pergunto se estou no meio de uma alucinação, ou se a realidade sempre foi essa bobagem. O fato é que tenho comigo a idéia de que o mundo acabou há muito tempo! E foi quando o Papa colocou aquele cocar quando esteve no Brasil! Desde lá o universo desandou, travou, pendurou! No Senado, para evitarem ser cassados, ACM e seu galho de Arruda renunciam - o "Malvadeza", até o fechamento desse Mulatas, não o tinha feito. O Jô Soares cagou no pau duas vezes em menos de um ano, e, na minha opinião, vai ter que ralar um francês e um italiano por um ano inteiro pra limpar a cagada de ter entrevistado uma imbecil que diz estar sem comer há dois anos, fazendo de sua base alimentar a luz do sol. Imagino quantos gordos já queimaram a retina desde então! A primeira cagada foi de ter entrevistado duas vezes em uma semana um tal de Omar Kayan, um vigarista de décima categoria que colocou o gordo no bolso. Mas o mais engraçado é poder encontrar todos aqueles conhecidos que levantavam a bandeira da privatização para o alto como a panacéia para todos os males, se cagarem de medo do apagão. Eu até estou afim de fazer um movimento "contra-movimento-contra-racionamento de energia"!!! Durmam com as luzes acesas, liguem o chuveiro elétrico e dêem uma boa cagada lendo qualquer revista anters de entrar para o seu banho de meia hora! Provoquem o caos! A conta nem aumenta tanto! Por que temos sempre que pagar pela irresponsabilidade daqueles que tratam o Brasil como tabuleiro de War? Me causa câimbras estomacais, e isso sem contar que eu odeio War!

Fábio L. Emerim

Colaborações literárias? Mande a sua para mulatas@terra.com.br

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Manual de Revolução Doméstica Parte I

O tédio pegou? Está de férias ou desempregado e de saco cheio porque sempre tem um infeliz querendo lhe citar Kafka?Diga BASTA a isso tudo e siga esse manual prático que fará com que as pessoas larguem do seu pé um pouco. Ou para sempre.

Nada como iniciar a sua revolução pessoal de uma maneira repentina. Claro, pois toda revolução que se preze não precisa de aviso.Aproveite os momentos comuns, bobos, rotineiros e insuportáveis. Um jantar em família, por exemplo, tipo aniversário de tio ou Natal. No momento em que estão chegando os convidados, nada como deixar um pé de meia usado em cima do abajur da sala de estar. E, antes que a sua mãe , ou o pai, ligue a sirene, desça pelado até onde todos estiverem - atenção para o detalhe da cara ensaboada e olhos cerrados - dê um peido e grite: "MANHÊÊÊ!!! CADÊ MINHA MEIA QUE EU TO USANDO ESTA SEMANA?"

Depois do atraso para a mesa, e de pedir desculpas pelo quase infarto da sua vó, impeça que os demais convidados comecem a se servir e peça permissão para ler uma "pequena oração" de uma seita nova que você começou a participar há dois dias. Pegue do bolso um papel - previamente preparado - e comece a ler a tal oração. O texto pode ser de sua própria autoria, desde que tenha exatos 45 minutos e contenha sons e palavras indecifráveis no meio. Termine em cima da mesa, com a mão direita no peito, cantando Kombaua My love em um tom acima. Pode ser dois.

Em meio ao jantar, e com um sorriso de indiferença ante as caras de espanto, vire-se para a sua prima gostosa e tasque-lhe um beijo daqueles de virar as amígdalas do avesso. Se ela tiver namorado é melhor, porque namorado de prima gostosa tem que se fuder mesmo. Antes que institua-se o terror, levante-se e diga que aproveita o momento para declarar que, a partir daquele dia, está preparando as malas para fazer uma viagem. Irá se juntar à uma excursão promovida pelo fã-clube do filme Edward Mãos de Tesoura.

Enquanto seu irmão menor estiver explicando para o avô quem é Edward e o porquê das mãos de tesoura, vá até o aparelho de som e coloque um CD de New Age. Pode ser um CD da Tênia. Desnecessário dizer que o volume tem que ser aquele que extrapola os limites do convívio social. Vá para o seu quarto.

Alternativo a isso, para o Natal, a todo "Feliz Natal" cheio de dentes que você receber, pergunte: "por quê?". E não libere a pessoa até que essa lhe dê uma explicação plausível. Se ela começar a rir, encare-a com mais seriedade e faça cara de que não está entendendo a graça. Depois de concluir com todos, e de encher os olhos de lágrimas, vá para o seu quarto.

Uma boa pedida também é chamar a telepizza para chegar na hora em que o jantar for servido. Peça três enormes. Faça questão que todos comam - o que não vai ser difícil, pois pizza é muito aceita - reparta em pedaços iguais e dê um pra cada um, menos pro namorado da prima, que tem que se fuder mesmo.

No relax de pós-jantar, onde todos na sala olham para você fingindo não estarem olhando, vá até a garagem e traga um pneu velho cheio de água e comece a discursar sobre a importância do mosquito para a cadeia alimentar. Chegue perto dos convidados e peça para que relatem histórias de experiências com mosquitos, se a casa em que vivem tem muitos insetos, etc. Quando estiverem todos começando a ver algum fundamento na sua explicação, comece a rir e apontar para todos histericamente.

É importante já ter um esconderijo para onde correr.

Ao final dessa reunião histórica, não deixe que os parentes deixem a casa sem que levem com eles uma foto - previamente copiada para todos, menos pro namorado da prima - de sua aura e digam que vai dar sorte. Pode ser mais prático, se tiver dinheiro, e aproprie um imã à fotografia. Diga que, se posta sobre a geladeira, todos os alimentos triplicarão seus graus protéicos.

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Prepare-se....aí vem...
...A ORDEM UNIVERSAL DO INCONTESTÁVEL INCALSTRO DEPURACIÒ
Reconhecida escola filosófica-religiosa criada no ano de 23.000 AC na distante Érpide (atual Egito) por Deus em pessoa.

Desde então seus ensinamentos resistem intocados e imutáveis por todos esses séculos, agregando discípulos, iniciados e ortodoxos-flexíveis nos quatro cantos do mundo. Tais ensinamentos são transmitidos através das Três Grandes Chaves: os Mistérios de Eleusis, os Mistérios de Lindomar e os Mistérios de Décius.

Primeira Grande Chave: Os Mistérios de Eleusis
Aqui começa a grande jornada do iniciado.

Nessa Grande Chave, o iniciado é apresentado aos Mistérios de Eleusis em sua totalidade (cujo conteúdo não pode ser divulgado aqui). Esta fase dura três meses de ininterrupta delegação do conhecimento em um nível básico e leve, pois no começo, “tudo é impossível de se entender”, como dizia o Grande Mestre Adohp.

Logo após a apreciação final e de perceber as grandes diferenças, é mostrado ao iniciado os Dezesseis Meses do Bazanza, período onde haviam celebrações de cunho espiritual totalitário e seus iniciados bebiam uma poção milagrosa que os permitiam chegar ao Bazanza Supremo em poucos minutos. Nos tempos atuais, essa poção existe em uma forma somente reconhecida pelos depuracionistas. No mercado tradicional, é vista apenas como uma simples cerveja: Kaiser Summer. Durante os dezesseis Meses de Bazanza, o iniciado celebra os signos correspondentes a cada mês depuracionista sempre sorvendo do Santo Líquido Que Se Liquefaz (Kaiser Summer). A seguir os 16 meses, seus respectivos signos e significados:

Janeiro - Anigav , A Grande Mãe. Celebra-se o Engravidar dos Puros.

Fevereiro –Avluv, mês das águas. Celebra-se o Umidificar dos Eixos .

Março – Adnub, onde é celebrado o Mistério de Uc, que é um Sub-Signo de Adnub.

Abril – Assip, O Grande Pai. Celebra-se a Virilidade Mor.

Maio – Atehnup, mês da reflexão. Celebra-se o onanismo desenfreado.

Junho – Arrop, Distribuição da Vida. Celebra-se o Leite de Minhápica.

Julho – Am Gems, A Grande Limpeza. Celebra-se o Odor Supremo.

Agosto – Aciríris, O Grande Toque. Celebra-se somente às sextas.

Setembro – Atup, A Grande Questão. Celebra-se todas as perguntas do mundo.

Outubro – Adrem, O Mês Nefasto. Celebra-se a Verdade do Outro.

Novembro – Adnused’Ailatineg, O Mês do Desencontro. Não se celebra nada porque nunca se encontram. Expressamente proibido.

Dezembro – Adohp, O Grande Conhecer. Celebra-se o Perecer do fauno.

Mês Omlet, o grande juízo.

Mês Ocram, o informador.

Mês Naibaf, a grande cruzada.

Mês Oibaf, enfim o lar.

Feito todos os meses e suas celebrações. O iniciado passa à segunda fase da primeira Grande Chave, que é a

Reconstrução Pessoal, onde toda a vida do iniciado é contada a partir dos dezesseis anos de idade e sua pessoa é reabilitada para o bem eterno.

Depois disso, vem a última fase da primeira Grande Chave que é a chamada Eternas Lágrimas. Nessa fase o iniciado lamenta por não quatorze, nem dezessete, mas dezesseis dias e dezesseis noites determinadas situações que são divididas em não treze, nem dez, mas dezesseis sub-classes de informações indivisíveis, mas visíveis e impertinentes a ele e ao clero depuracionista.

Ao terminar exitosamente essa fase (mas somente exitosamente) o iniciado receberá o título de Eleusiano em Desabuso e completará a Primeira Grande Chave do Incalstro Depuraciò. Imediatamente é passado para a ...

Segunda Grande Chave: Os Mistérios De Lindomar
Aqui as fontes que informaram o iniciado por toda a chave anterior são reveladas e o iniciado fecha um pacto chamado Pacto de Âmber, que faz com que o já Eleusiano em Desabuso seja imolado caso toda e qualquer informação passada a ele na Chave anterior e em todas as Chaves seja revelada para os impuros (pessoas não depuracionistas). O Pacto de Âmber consiste em uma celebração arcaica e secular que tem como ápice a Leitura de Melzedeque, ou seja, o iniciado é colocado em um altar lúdico de mármore medieval sagrado ao centro do Miasma (templo depuracionista) e este lê as passagens de Curió como segue:

“Ao indulto prestigiado e aclamado

Me suporto apenas em dois pés.

E peço encarecidamente

Que me responda sem interferir nas páginas (todos: Amém Abijhr)

E, se, sem querer, ao Mestre passar,

Que seja lindo.”

Neste emocionante momento, o iniciado passa imediatamente à fase de 3 Anos de Poder, onde lhe é oferecido um cargo de poder, muito importante em alguma companhia, empresa ou força armada (o iniciado escolhe). E este tem que exercer o cargo com toda a sua plenitude sem desperdiçar o dinheiro ganho em bobagens.

Ao concluir com êxito a fase acima citada, o iniciado entra imediatamente no Desvio Proposital, uma fase onde o novo depuracionista esquece propositalmente todos os ensinamentos das Grandes Chaves até então e viaja para um país oriental para se envolver em orgias infindáveis por 16 dias e 16 noites.

Imediatamente após isso, o iniciado entra na última fase dessa Grande Chave que é a chamada Eternos Prazeres, onde a ele é apresentado 16 moças de 16 anos com as quais permanecerá em concubinato por 16 meses. Nesse período o novo depuracionista deve ter relacionamento sexual com duas por noite e faze-las chegar ao orgasmo não é necessário.

Terceira Grande Chave: Os Mistérios de Décius
Enfim a última grande (a maior de todas) Chave da Ordem Universal do Incontestável Incalstro Depuraciò. A partir dessa Chave, o agora entitulado Eleusiano Libertador já pode começar a passar o conhecimento nas primeiras duas Chaves aos novos iniciados. Passa a ser um Depuracionista Didático.

Imediatamente vai para a fase mais demorada de todo processo de iniciação, que é a chamada Decênio do Desperdício, onde o iniciado passa pelo período não de 9, nem de 11, mas de dez anos gastando como perdulário tudo aquilo que conseguiu nos 3 anos de poder da Chave anterior. Nesse período o iniciado não terá apoio ou subsídio da família depuracionista. Muito menos será reconhecido e sempre terá sua participação negada pelos irmãos depuracionistas. Todo e qualquer envolvimento com o movimento será negado pela Grande Ordem em qualquer momento nesse decênio.

Após o término desse difícil processo, o iniciado será recolhido onde estiver e entrará na fase do Processo Diferencial, onde participa como Mestre Recolhido nas celebrações dos dezesseis Meses do Bazanza.

Daí, finalmente, o iniciado entra na fase da Confirmação Plena, onde lhe é passado o título de Il Supro Longânime Di Orden , a plenitude total, o nirvana ideal, o paraíso, o Buda, o Cristo Ideal, o Krishna Fundamental. A ele é oferecido tudo e todos. Pode agora o ISLDO ter todo o respeito e todas as honras da Santa Ordem.

Bazanza

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Cabe a mim os repiros da lida!

E aos exaustos a questão do saber...

Que em profundas tigelas escritas com "g"

Resdacourizam malfedêires ao luar

Embustam fridorrâncias para criancinhas indefezas

E escojuram hústias em nome de Gelkebém

Houve um tempo na antiga aldujia de Fresér, perto do Rio Daslipo, em que as moçoilas eram amarradas em ocre para serem derretidas em fleumas grandes e médias. O rei local, Tupor, O Dáfne, gostava de vislumbrar com alveras aquela beretías cenas. Corria um boato, que toda noite antes do piorélio (típica ceia da região), Tupor chamava sua rainha, Fédes A Laçopa, e imitavam brincadeiras esquecidas de pic-nic de fim-de-ano oferecido pelas empresas aos empregados. Quem torcia o nariz era Prodérrida, a protegida do Rei (naquele tempo, pois três anos após a queda e a ascenção do Dobrevê no alfabeto muçulmano, o rei protegia duas aldeâs tuiaras de dar nó!), filosofava maneiras de acabar com aquelas ferretices.

Já longe do afago real e das doidices de Fédes, o príncipe Mazder Tas Dam (odiava seu nome) cavalgava em sua zebra dourada em direção a Canoas (Um bairro de Porto Aleggro con Brio) quando teve um estranho momento com um cigano errante a qual relatarei agora:

- O que fazes ao ir a essa direção, ó filho do rei?

Mazder quase enforca a zebra para freiar. Não consegue. Puxa mais uma vez os arreios. A zebra freia de sopetão. O príncipe cai. O cigano tapa os olhos. A zebra ri. O príncipe mata a zebra.

- Podeis repetir?- Pergunta Mazder batendo a terra da veste real.

- Claro...O que fazes ao ir a essa direção, ó filho do rei?

- Vou à casa de Gretchen, o pastor alemão amigo.

- Seria um cão?- Pergunta novamente o cigano coçando a longa barba.

- Não...por que a pergunta?- pergunta o príncipe olhando calmamente o cadáver da pobre zebra no chão.

- Esqueça...Bem, faça uma boa viagem!

Dizendo isso, o cigano se aproxima da zebra, entoa um pequeno cântigo de louvor e se retira. O Príncipe vai até a beira da estrada, abre sua sacola de mantimentos, tira um cartão telefônico e liga pro tele-caronas. Começava a era do 0900.

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O Pior do Milênio
Eis minha lista:

1– Ivon Cury cantando (e declamando) “O Retrato de Maria”.

2- Os cabelos do Luiz Caldas.

3- Sérgio Chapelin apresentando qualquer programa de pé.

4- Cristina Ranzolin.

5- A Inquisição Espanhola.

6- A Reforma de Lutero.

7- Igrejas evangélicas.

8- Bispo Edir Macedo.

9- Roberto Carlos com aquela pena no cabelo.

10- Adolf Hitler.

11- George Bush.

12- George W. Bush.

13- General Custer.

14- Família Lima.

15- Todas as entregas do Oscar.

16- “A Voz do Brasil”

17- McDonald’s.

18- Videokê.

19- “Independence Day”

20- AI-5

21- Mickail Gorbachov

22- Boris Yeltsin

23- O filme “Corcel Negro”

24- “Se Meus Fusca Falasse”

25- Walt Disney

26- Mickey Mouse.

27- Todos os Papas da igreja Católica.

28- Paulo Francis.

29- Os Mórmons.

30- Filmes do Van Dame.

31- O calção do Rocky, o lutador.

32- A música-tema do filme Rambo II, A Missão.

34- Mary Poppins.

35- Barbara Streissand.

36- Santo Agostinho.

37- Chico Xavier e aquela peruca dele.

38- Constantino.

39- Mariah Carey chorando num clipe, cantando, enquanto passa numa TV histórias de pessoas que venceram na vida, mesmo sendo deficientes físicas.

40- Yoko Ono.

41- Os paramentos maçônicos, usados até hoje, com direito a espadas, inclusive...

42- Paulo Coelho.

Eu sei que tem mais! Muuuuuito mais! Só que enjoei de escrever...ah, dá um tempo...

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ENGANADORES

Telmo dos Santos Abech

Há uma enorme resistência das pessoas a acreditar na verdade, e parece, até, que quanto mais óbvio o fato, maior é a desconfiança. Li, sobre o tema, não faz muito, em duas ótimas crônicas.

A primeira trata do marido que, tendo, a caminho de casa, perdido a aliança num bueiro, não ousou, por ser exímio conhecedor dos intrincados meandros da alma humana, em particular da feminina, dizer a verdade.

Interpelado pela mulher, que, antes mesmo de lhe dirigir um cumprimento, já notara a falta do simbólico objeto, dispara, curto e grosso: — Tenho uma amante; deixei a aliança em casa dela! Ao que, instantaneamente tranqüilizada, a zelosa esposa, às gargalhadas, retruca: — Que amante, que nada! Distraído como és, deves ter deixado a aliança cair na rua, talvez num bueiro!

A segunda é a do marido que, saindo do trabalho sob chuva torrencial, tendo dado carona à secretária de transbordantes atributos, acaba, encharcado, no apartamento dela, envolto numa toalha, enquanto, penalizada com o incômodo que lhe havia causado, a solícita moça promove uma secagem de emergência de suas vestes. Não rola nada entre ambos, mas, antes de sair, o cauteloso cidadão pede um aparentemente mínimo favor: um simples pedaço de giz, com o qual, ato contínuo, se põe freneticamente a traçar caminhos de direções aleatórias nas mangas do paletó e na parte dianteira da calça. Entrando em casa, questionado à queima-roupa sobre se sabia que horas eram e já por antecipação confrontado com a inutilidade de invocar o pretexto de estar, até tão tarde, ainda trabalhando, conta, tranqüila e candidamente, a verdade toda, sem nada omitir, exceto o detalhe final do giz. Ao que a esposa, apontando os poeirentos vestígios, revida, triunfante: — Mentiroso! Só se eu fosse idiota não saberia, vendo o estado de tua roupa, que ficaste até agora jogando sinuca com aqueles teus amigos desocupados!

A diferença entre as duas historietas é sutil. Na primeira, a mentira serve à precisa intenção de que o interlocutor (a interlocutora, no caso) não acredite e acabe espontaneamente deduzindo a verdade, que é o que, em última análise, interessa transmitir-lhe. Na segunda, ao contrário, conta-se a verdade para que a pessoa nela não acredite e prefira, intencionalmente instigada por uma pista falsa, adrede deixada bem à mostra, crer em sua intuição e perspicácia, assim chegando a aceitar como verdade um fato inexistente. Mas a identidade entre ambas é ainda maior do que a sutil diferença, porque, independente dos caminhos pelos quais conduzem a vítima, levam a um mesmo e igual propósito. E poderiam, exatamente por isso, servir para, ao invés de encobrir verdades inocentes, mas inacreditáveis, mascarar o que deveria, mesmo, ser subtraído ao conhecimento do outro.

‘Os fatos se poderiam, assim, ter passado de maneira diametralmente oposta à narrada. O primeiro de nossos personagens, tendo, realmente, perdido a aliança na casa da amante, contou a verdade nua e crua, confiante na incredibilidade do óbvio; o segundo, por sua vez, tendo-se, após dispensar a toalha enquanto as roupas secavam, saciado nas transbordâncias da secretária, mentiu deslavadamente ao dizer que nada se passara, igualmente confiante de que a história que seria levada em conta não seria, de qualquer modo, a da carona, mas sim a lida nas pegadas deixadas pelo giz. E um e outro, como já se sabe, tiveram pleno êxito.

A moral da história (ou das histórias todas, com suas variantes e subvariantes) não é só que já não se fazem maridos como antigamente, mas que um razoável conhecimento da psicologia do destinatário e um bom uso da teoria de que ninguém crê no óbvio permite que, mentindo ou dizendo a verdade, se possa enganar permanentemente, enquanto o enganado continuará ac

reditando que tem o domínio e pleno conhecimento da verdade dos fatos.

E ninguém tem, presentemente, melhor domínio dessa técnica do que os homens do poder: as ditaduras, com seus sombrios generais, eram a própria face da culpa; fosse quando torturavam e matavam nos porões, fosse quando erguiam criancinhas no colo e as beijavam em solenidades patrióticas, os ditadores pareciam maus e não inspiravam confiança. Nossos democratas de hoje, ainda quando afundados em falcatruas, exibem o ar vestal que faz crer piamente que nada daquilo tem a ver com eles, e, mesmo quando nos enganam descaradamente, parecem apenas crianças tentando ocultar só ingênuas travessuras.

Talvez seja por isso que, ao tomarmos conhecimento, pelos jornais, do diário e inesgotável fluxo de rapinagem, cujos protagonistas são, sem tirar nem por, aqueles mesmos que ajudaram e continuam ajudando a erigir o sistema que lhes torna públicos os vícios e os “denuncia”, nunca nos ocorra que eles são o próprio sistema e que este não existiria sem eles, e que, ao parecer crucificar como malfeitores e corpos estranhos aqueles que lhe deram e dão vida, só busca nossa condescendente credulidade para preservar a si próprio, perpetuar o engano e institucionalizar a enganabilidade como método.

A nova democracia tornou obsoletas as ditaduras porque descobriu não só que pode, pelo engodo metódico, servir aos mesmíssimos propósitos destas, com total eficiência, mas também, mais do que isso, que, por não gerar antagonismos violentos, pode, com a cumplicidade das próprias vítimas, ir aonde os totalitarismos jamais sonharam.

É por isso que nada nem ninguém, senão essa nova democracia, teria podido, em tempo tão breve, eliminar o patrimônio público, transferindo-o, com o aplauso de todos à saudável tarefa privatizadora, para as mãos de vorazes grupos econômicos multinacionais; ou teria, com a admiração geral pelo empenho em eliminar ‘privilégios’, se dedicado a suprimir tão completamente direitos e garantias sociais, políticos, trabalhistas; ou erguido, sob geral entusiasmo, a bandeira de um reformismo cujo propósito manifesto é o de enfraquecimento, com fins óbvios, dos poderes da República, particularmente do Judiciário; ou teria, enfim, sob o disfarce do louvável combate sem tréguas à inflação, conseguido, de modo tão pleno, implantar estranguladora recessão, aumentar ferozmente a miséria, o desemprego e a carga tributária do particular para atender, com subserviência absoluta, os ditames do seleto grupo de investidores estrangeiros que comandam o capitalismo, orientados pelo dogma mais sagrado da religião neoliberal, que é o da asseguração, a qualquer custo, de uma margem de lucro eternamente crescente.

Mas não teria, sobretudo, essa nova democracia, não fora o domínio magistral da ciência da suprema enganação, feito tudo isso através, justamente, de um ícone das esquerdas; depois de terem impingido às massas as “diretas já”, feitas sob medida para resultar em Sarney, e este para resultar em Collor, e este para resultar no “impeachment” e em Itamar, mudando tudo a cada vez para deixar cada vez mais igual ao que estava antes, chegaram os ideólogos disso que está aí ao paroxismo do deboche, superando a si próprios e a toda a capacidade de escárnio, dando-nos o mais feroz capitalismo por intermédio do mais bajulado dos teóricos do socialismo caboclo.

E como não cremos no óbvio, seguimos confiantes, como o Candide de Voltaire, em, a despeito das aparências de estarmos sendo impulsionados para o abismo, estarmos sendo guiados para o melhor dos mundos.


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"Mais vale apenas tecer comentários bonzinhos do que, de uma vez só, posicionar o teclado naquela merda de palco!"

Staff

-Fábio Luis Emerim

Colaborador

-Telmo dos Santos Abech

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