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As Mulatas de Jesus Cristo - 0 - Edição especial
- Canoas 25/05/2001
Sumário
EDITORIAL - Fábio Luis Emerim
O APOCALISPE SEGUNDO A REVISTA CARAS - Fábio Luis Emerim
DIZEM... - Fábio Luis Emerim
VIAGEM LITERÁRIA ABUSIVA - Fábio L. Emerim,
Telmo dos Santos Abech e Roberto Moschen Jr
OLHOS ESBUGALHADOS - Fábio Luis Emerim, Roberto Moschen
Jr.
O GURI E O CACHORRO - Fábio Luis Emerim, Roberto Moschen
Jr.
ARTE E SOCIEDADES GLOBALIZADAS - Telmo dos Santos Abech
CONSUMIDORES E CONSUMIDOS - Telmo dos Santos Abech
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Editorial...
Como prometido, se é que eu prometi alguma vez, eis
que surge o e-zine As Mulatas de Jesus Cristo, cuja idéia
inicial foi
parida há uns cinco anos atrás por mim e pelo
Fabian, um carinha que toca na minha banda desde que me conheço
com buço
e que tem cara de Leopoldo.
As Mulatas de Jesus Cristo, de agora em diante chamado de
AMDJC, leva esse nome por uma razão dogmática,
ou seja,
porque sim! Pois tudo que é porque sim é dogma.
Além do que não sou mulato - muito menos mulata
- e tampouco sou de
Jesus Cristo.
Aqui estarão textos como crônicas, ensaios, contos,
críticas, informações sobre shows, peças
de teatro,festas, manifestos,
desaforos, testes de DNA e desinterias em geral.
Estou aceitando colaborações, para isso mande
a sua para mulatas@terra.com.br
URGENTE
O Apocalipse Segundo a Revista Caras
Ocorreu na semana passada o início do fim. O Apocalipse
começou às 20 horas de Brasília e contava
com a presença de
colunáveis, socialites e gente de expressão.
No coquetel de abertura estavam o Presidente Fernando Henrique
Cardoso (63),
sua esposa, a Primeira Dama dona Ruth Cardoso (60) e o vice-presidente,
senhor Marco Maciel (36 Kg).
Deu-se o ápice com o chique Sig Bergamin (50) abrindo
champanhe francesa com Jesus Cristo (2001) em um altar todo
decorado com motivos que lembravam todas as religiões
cristãs no mundo. No palco central, os convidados se
deliciavam
com uma bela apresentação da Família
Lima. Fafá de Belém (48) não cantou,
mas encantou charme e sorrisos com Ângela
Maria (110), sua cantora preferida. A segunda etapa ficou
por conta de Jesus chamando seus asseclas para a batalha que
duraria noites e dias de terror, até que a besta sucumba
e deixe livre a Babilônia para os homens-de-bem. Dentre
os
seguidores de Cristo estavam Baby do Brasil (53), Clóvis
Bornay (532) e Walter Mercado (230). Do lado do mal estavam
João Gordo (36), o Bispo Edir Macedo (57) e o papa
João Paulo II (87), para a surpresa de todos.
A festa acabou em uma imensa bacanal onde só se ouvia
a voz, claramente moribunda, de Fafá de Belém
entoando o hino
nacional antes do tiro....
___________________
Dizem...
...que certa feita no reino de Wernélides da Poliça,
Grão Ducado de Lergenton, houve uma aposta entre três
boêmios muito
conhecidos na região: Fécio, o alto e beberrão,
Câncio, o adorável leproso e Guido, o ferrenho.
Eis o que aconteceu naquela noite na taberna de Madame Astínia,
a gorda, e foi tudo assistido pelo bando de saqueadores do
chefe Titálio, o verme.
-Proponho um desafio! bradou Fécio empunhando
o que uma vez teria sido um frango.
Todos fitaram-no de pronto, menos Jésio, o cego, que
virou-se para o lado contrário.
-Proponho não somente um desafio, mas aquilo que definirá
o resto da vida de cada envolvido.
Aquilo provocou no pequeno lugar um misto de aflição
alegria, devido a curiosidade provocada por aquelas palavras
de Fécio.
O desafiador levantou-se e apontou com uma faca os desafiados:
-Câncio e Guido!
O chamar daqueles nomes provocou um silêncio ensurdecedor
na taberna.
-Onde foram todos?- perguntou o cego Jésio.
Os donos dos nomes aproximaram-se da mesa de Fécio
e interrogaram-no cada um com um olhar.
-Sentem-se. Astínia gritou o beberrão
Mais cerveja!
Rapidamente a gorda veio com três jarras cheias de cerveja
gelada para os envolvidos no caso.
-Tá, Fécio...hic...d-diz aí o que é
que..hic tu quer! perguntou o já alcoolicamente
afetado Câncio sob os olhares de Guido
que bebia mais. Este, por sua vez só concordava com
a cabeça e o polegar pra cima.
-Seguinte. Wernélides, o Conde desse Grão Ducado...hic,
desculpa, coleciona turfílios, c-certo?...Desculpa!
-Sim. concordou Câncio entre-goles. Guido só
concordava com a cabeça e o polegar.
-E vocês sa..hic...sabem por acaso o que são
turfílios? Pergunta com a cabeça levantada
e os olhos abaixados em direção
dos seus interlocutores.
-Não. respondem os dois com a cabeça,
Guido com o polegar a meia altura.
-Pois é i-isso...hic...ninguém sabe!
-E daí? Perguntou Câncio secando a cerveja
e já pedindo outra com o braço livre.
-E daí que desco...hic...briremos. Me dá mais
cerveja!
Os dois aproximaram-se quase caindo para ouvir melhor Fécio.
-Nos faremos passar por vendedores de turfídios. Mas
só venderemos ao Conde se ele nos mostrar os dele primeiro.
-E se ele não quiser? Perguntou A gorda de trás
do balcão.
-Diremos que venderemos a outro, que poderá se gabar
de ter a coleção mais completa de turfílios
de todos os tempos.
-Como faremos? Perguntou Câncio sempre apoiado
por e em Guido.
-Simples. Chegamos os três vestidos de forasteiro no
castelo do Conde, entramos. Guido traz uma sacola de areia
para dizer
que é ouro em pó conseguido nas vendas. Eu e
você ficamos sempre à frente tentando persuadi-lo.
Quando conseguirmos
entrar na sala dos turfílios. Guido joga a areia nos
olhos do Conde. Eu pulo à frente tiro as fotos.
Todos entreolham-se
-Fotos? Estamos em 1203 da era cristã ! Afirma
Guido cuspindo cerveja.
Fécio coça a cabeça e olha para o chão.
O silêncio toma conta da taberna de novo.
Menos Jésio perguntando onde foram todos.
____________________
Viagem Literária Abusiva
por Fábio L. Emerim, Telmo dos Santos Abech e Roberto
Moschen Jr.
Bibiana estava na beira da estrada! Olhava para o relógio,
suspirava e arrumava o cabelo. Nada de ônibus, caminhão,
nem
harley-davidsons. Naquele deserto infernal, só o calor
a acompanhava.
Não tanto o calor externo, mas um calor interno, ardido,
sôfrego, uma coisa-de-não-sei-que-nem-como-explicar,
um ardor
inquieto, igual ao que talvez tinha sentido uma única
vez, num país de que não mais lembrava, numa
noite esquecida, com
cheiro de tâmaras maduras e de suor fresco, à
beira de uma piscina tingida de luar.
No horizonte iniciava-se um vulto trêmulo pelo calor
no asfalto. Alguém, finalmente se aproximava. O calor
a levava a
devaneios. Podia quase sentir, não! na verdade sentia
o perfume do... homem! Definitivamente um homem se aproximava.
Sabia a tâmaras... ah, as tâmaras....
Então fechou os olhos. Pensava ser mais apropriado
assim para a aproximação do homem. O que
ele falaria?, pensava.
Boa tarde, a senhora quer comprar uma rede?...não
era isso que ela imaginava. Ficou atordoada, mas era isso
o que ele
realmente tinha falado.
Um tremor atravessou-a obliquamente. Não era à
toa que se chamava Bibiana, fruto de indeclinável devoção
de seus pais a
Bibi Ferreira (ah, a grande Bibi!) e à vizinha e parteira,
dona Emerenciana, por cujas mãos viera ao mundo. E
agora, aquele
estranho, o tremor oblíquo e as redes, talvez as redes
em que se iria enredar....
Ele veio. Bibiana sentia suas coxas suarem (mais ainda). Ele
era alto, tez oliva, olhos amendoados, barba rala, ainda curta.
Na
mão, três ossos pequenos, uma caneca e uma fitinha
do Senhor do Bom Fim. Já tens uma fitinha?,
perguntou, a voz áspera
da secura da estrada, os olhos cheios de lágrimas de
quilômetros de pó e solidão. O quê?,
titubeou Bibiana. Não ouviu.
Tinha o nariz preenchido pelo inefável cheiro de tâmaras
que, se não era dele, era bom assim mesmo. Ele pegou
a mão dela,
segurando a fitinha, pronto a lhe amarrar o pulso.
Cagou tudo, pensou Bibiana. Agora, além
do fato de estar em pleno Sahara, nossa heroína se
via numa cena escatológica
com um desconhecido que lhe empurrava, goela abaixo, miscelâneas
totalmente inúteis, principalmente naquele momento.
Aconselhada pelo seu bom senso, Bibiana pegou o celular e
fingiu ter recebido uma ligação. O homem, não
se dando por
vencido, fingiu estar tendo um ataque de asma, Onde
está a minha bombinha?, gritava.
Era o fim, tudo indicava que era o fim. As tâmaras maduras
de dona Emerenciana mesclavam-se subitamente à fitinha
de Bibi
Ferreira e ao suor fresco do estranho; o tremor balouçante,
a rede oblíqua, o celular transbordando aquele calor
asfáltico e
antigo. De repente, nada mais do que fazia algum sentido;
o pó, nuvens de Harley Davidsons, o pó, a cólica,
a voz do estranho
diluída em fatias de frases desconexas; não
era mais ali; aliás, nunca fora ali, e nem nada daquilo
acontecera. Pareceu
acordar.......
Bibiana estava na beira da estrada! Olhava para o relógio,
suspirava e arrumava o cabelo. Nada de ônibus, caminhão,
nem
harley-davidsons. Naquele deserto infernal, só o calor
a acompanhava.
Resolveu andar.
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Olhos Esbugalhados de Terror, Sangue.
Que merda de vida..., pensava Zé João,
merda, merda e merda.
Mas o que ele podia fazer? Estava tudo já arranjado:
as malas, os bonés (detestava os bonés) e os
telefones em um caderninho
devidamente separado no bolso externo da mochila.
Se fosse de avião, né Zé? Mas era ônibus.
36 horas de viagem. Fazia aquelas paradas de três em
três horas para espichar os
pés e comer algo.
Frederico não ia. Tinha quebrado o pé um dia
antes. Cara de sorte!, pensava.
Olhando no relógio de cinco em cinco minutos (para
o seu desespero), Zé do Apito , como chamavam
os mais chegados,
acendia um cigarro no outro.
Aí veio o ônibus! Ficou na janela. Lá
atrás, perto do banheiro.
Tomara que não sente ninguém do meu lado!
Pobre Zé. Teve que desfrutar a viagem toda ao lado
de uma testemunha de
Jeová. Não foi tão doloroso, ...para
o Zé, pois o pobre crente ficou calado a viagem inteira
após um enfia essa bíblia no
cu!!! raivoso e baixinho do nosso herói.
E a família do Zé?
Não estavam na despedida, mas estavam na da Cíntia
(?). Zé tinha uma irmã caçula que já
estava grávida, uma mais velha que
também já estava grávida e um irmão
que não estava grávido, mas tinha retirado o
pênis. Erivaldo, ou melhor, ex-Erivaldo,
agora Talita Becker (nunca entenderam o porquê do sobrenome)
até poderia se passar por uma mulher, em Bangladesh.
Não
precisamos dizer que Zé não chorou por este
não estar na sua despedida! Despedida que na verdade
foi para os mosquitos.
Mosquitos e para um cachorro que o olhava perdido na emoção.
Mas e o ônibus? Já estava fazendo 13 horas de
viagem quando parou em um posto de abastecimento para 30 minutos
de
lanche. Ah, Zé estava indo pra Brasília, capital.
Não era nem em cidade satélite, mas na capital
mesmo! A namorada (sim....ele
tinha) não pode ir junto pq se recuperava de uma cirurgia
na joanete. Mas chorava cada vez que Zé ligava nas
paradas. Oi,
amor!.....to bem e você?Se recuperou da cirurgia? Não?
Dói, né? É verdade.....mas o importante
é ter saúde...! Quem? Não!
Onde? Não, não! Já disse que não,
pô! Te liga! ......Ta em cima do bidê! DO BIDÊ!....eu
não estou gritando! Você quem não
ouviu de primeira! É a sua! A sua! Com certeza é
a sua!
O amor tem disso, gritos histéricos e beijinhos no
final. Mulher é foda!
E a viagem seguia seu rumo, Zé também, e mais
os 23 passageiros. Nos primeiros bancos da frente tinha um
casal que ouvia
fitas cassetes em um volume que obrigava-o a roer os banco.
Será possível que só eu não
esteja agüentando?, pensava.
Duas horas mais tarde, Zé, que chegara ao seu limite,
resolveu agir; foi lá na frente e pediu, gentilmente,
que, ao menos,
baixassem o som. Nosso herói fora surpreendido por
quatro olhos esbugalhados de terror. Sangue, muito sangue.
O casal
estava inerte, frio (imaginou, não ousou tocar), pareciam
mortos há horas. Com a mão na cabeça
e atordoado, Zé gritou:
Alguém aqui é médico?...nada
Tentou de novo: ALGUÉM AQUI É MÉDICO?
Percebendo que ninguém respondia, olhou nos olhos dos
outros passageiros. Aí percebeu que ninguém
poderia ter respondido
mesmo, pois todos estavam, como o casal da frente, de olhos
esbugalhados de terror, embebidos em sangue...mortos.
Não foi muito até perceber que o ônibus
não andava. Tinha medo de entrar na cabine do motorista
e encontrá-lo igual aos
demais. Mas o que fazer?, indagava, já
em voz salta, O que foi que eu perdi que ninguém
me contou???, gritava olhando
pra cima. Resolveu abrir a janela e tentar descobrir onde
estava. De um lado, deserto, do outro, um campo muito bonito,
diria
fantástico. Desceu, então, do ônibus,
pegou o celular do bolso e resolveu ligar pra casa. Mas estava
sem sinal. Caceta!,
gritou atirando o celular longe. Em um segundo de lucidez,
Zé virou-se rapidamente para o ônibus, Cadê
o motorista?. Sim,
o motorista não estava na cabine. tem mais um
que não morreu!, pensava, positivo.
Sentado ao lado do ônibus, confuso, Zé não
percebeu que se aproximava uma mulher. Levou um susto, até,
óbvio. Senhor?,
perguntou a jovem de branco, O senhor veio para a celebração?.
O Zé mudo. Por favor, senhor, estão todos
à sua
espera!
O que ele poderia fazer? Se olhasse atrás tinha um
ônibus cheio de cadáveres, à sua frente,
uma bonita moça convidando-o
para uma tal de celebração onde todos estariam
à sua espera. Disse: Olha, moça, eu não
sei o que ta acontecendo aqui, mas
eu estava indo pra Brasília e, de repente, todo mundo
dentro do ônibus morreu, menos eu, daí eu desço
aqui e me vem a
senhora, do nada, querendo me levar pra não-sei-onde
e dizendo que ta todo mundo me esperando, PÓ PARÁ!!!!!!,
gritou.
A mulher abriu os olhos, assustada. Zé continuou, aos
pulos: ALGUÉM PODE ME DIZER O QUE TÁ ACONTECENDO
AQUI?????
__________________
O Guri e o Cachorro
por Fábio L. Emerim e Roberto Moschen Jr.
Foi quando o sino da igreja soou pela segunda vez que Sérgio
olhou para o seu relógio. Não satisfeito com
o que via, bateu
com o indicador no mostrador julgando estar emperrado. Não
estava. No mostrador, uma lágrima corria junto com
seu ódio
crescente. Virou o rosto e, depois de respirar fundo, fitou
seu carro. Tirou a chave do seu bolso e foi em direção
a ele. A
chuva que antes parecia ser um breve detalhe do dia já
mostrava que chegara para ficar.
Nada seria como antes.
Terríveis comichões lhe subiam os braços
enquanto andava para o carro.
"Desgraçados!" - murmurava, com ódio
contido.
"Como puderam?! Como ousaram?!" - retirou um cigarro
ensopado do bolso, para então atirá-lo longe,
frustração
somando-se à raiva.
Pensava em vingança. Pensava em sumir. Pensava que
jamais deveria ter-se entregado até ali.
Odiava-se.
Na metade do caminho, ao que o ódio se abrandava e
sua lucidez transformava-o em água morna, percebeu
que alguém
estava há quilômetros lhe batendo no ombro. Ao
olhar pelo retrovisor, um gole seco de ânsia lhe desceu
goela a baixo. Não
conseguiu balbuciar absolutamente nada. Aliás. Conseguiu
somente uma: "Dênis!"
Parou o carro e olhou para trás! O pobre cego do estacionamento
estava vermelho de tanto gritar para que parasse: "O
senhor
esqueceu que tinha me deixado aqui dentro tomando conta da
sua pasta?"
Entre maldizeres terríveis demais para serem escritos
aqui nesse horário e gestos nunca antes vistos feitos
com suas mãos
suadas, Sérgio ligou novamente o carro e pôs-se
a dirigir de volta ao lugar. O cego não pertencia ao
lugar onde iria.
Largando o pobre homem no lugar de onde saíra, continuou
seu caminho. Estava mais calmo. Molhado, enganad
\n';
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}
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o, mas calmo.
Daria o olho esquerdo (o esquerdo, que não enxergava
bem) por um cigarro. Começou a pensar o que faria.
Deveria ir ao
encontro deles? Ou ir para casa e decantar todos aqueles sentimentos
confusos e rodopiantes que se atropelavam na sua
cabeça? Sempre orgulhara-se de agir de forma pensada,
clara, sensata. Abandonaria agora essa que lhe parecia ser
sua
melhor qualidade, justo num momento de crise?
Que vá a merda! - gritou.
Sensatez que se foda! Eu quero é sangue!!! - gritou
mais alto ainda, cuspindo e atropelando um cachorro que atravessava,
incauto, a rua.
Parou somente na sinaleira. Fechou seus olhos, que logo se
abriram com o toque do celular. Era Vilma. "Vítima
número um",
pensou ele com os olhos perdidos no horizonte enquanto Vilma
punha o pulmão para fora do outro lado da linha de
tanto
berrar "ALÔ".
Numa súbita compreensão, respondeu para Vilma
que logo retornaria a ligação quando chegasse
em casa, pois "estou no
trânsito e tem um porra de um azulzinho logo em frente!"
Ao estacionar o carro em casa, Sérgio, que quase soldara
a porta do veículo ao fechá-lo, congelou na
exata posição com a
mão no trinco da porta do carro olhando, incrédulo,
a bengala do cego que tinha ficado lá dentro. Num mixto
de ódio de si
mesmo e vontade de matar, gargalhou palavras ininteligíveis
que chamaram a atenção do jardineiro da vizinha.
Com vontade de
chorar, tornou a entrar no carro e, recusando a acreditar
que faria toda a viagem de volta, atendeu aos gritos o celular
cujo
toque fazia coro com seus gritos e tempestades mentais. "Que
foi??? Eu te disse que ligava de volta!!!! Tenho que voltar
lá e
entregar a bengala praquele cego desgraçado!!!"
do outro lado da linha a voz respondeu em tom sincero: "Que
bom que o
sinhô vai trazê ela de vorta, doutô!"
Gelou. Tinha vontade de vomitar. Pediu desculpas ao cego,
dizendo que não estava bem, que não levasse
em consideração
suas palavras. Resolveu ir logo, antes de perder a paciência
consigo mesmo.
No caminho de volta, viu um menino na chuva, chorando ao lado
do cachorro que atropelara momentos antes. Amaldiçoou-se,
mas livrou-se logo da culpa amaldiçoando os que lhe
haviam deixado naquele estado. Eles pagariam pela morte do
cão do
menino também, pensou, anotando mais essa falta na
sua lista negra imaginária. Tudo haveria de ser cobrado,
a seu tempo.
Achou o cego no estacionamento. Estava com um pedaço
da cerca na mão, à guisa de guia. Entregou-lhe
a vara e entrou no
carro sem dizer uma palavra. O cego também não
falara nada, o despeito mudo em seu rosto falara por si mesmo.
No carro, o celular voltou a tocar. Era Vilma novamente. Desta
vez manteve a calma.
"Não posso falar agora, Vilma, estou novamente
no carro". - explicou.
"De novo? O que houve?" - perguntou, divertida.
Isso quase o tirou do sério, mas conseguiu dizer "Depois
eu explico, já te
ligo. Tchau".
"Ahh, gasolina! Só damos o merecido valor quando
falta", gritava com os olhos esbugalhados sentado na
beira da estrada ao
lado do cachorro e do gurí chorão. De repente,
voltou-se para o menino e perguntou "onde tem, um posto
por aqui?" o gurí ,
soluçando, respondeu que "tem um lá depois
do bar do Décio!".
Sérgio se levantou e pegou o cachorro no colo. Com
seu péssimo senso de humor (nunca fazia sucesso nas
festas) tomou o
cão como boneco de ventríloco e , movimentando
a boca do bicho sem o nojo já perdido na viagem anterior
disse:
"amiguinho...vai lá no posto pro tio e traz um
saquinho de gasolina pra ti ganhar um real!!" o gurí
se levantou, deu um grito e foi
correndo. Na direção contrária do posto.
Com o cachorro morto no colo e o carro morto a seu lado, nosso
herói tremia de raro ódio com seus olhos se
distraindo
vendo o menino se transformando em um pequeno pontinho ao
longe que logo sumira.
Pensava em desistir de tudo. Da vida, até. Foi até
o carro. Chutou-o um pouco, pensando em seus algozes. Começou
a
caminhar e direção ao posto, o que ficava depois
do bar do Décio. Lembrou-se do cachorro, que ainda
jazia em seus braços.
Jogou-o ao chão, subitamente enojado. Ficou olhando
seus braços e mãos, que agora cobriam-se de
sangue do animal,
misturando-se à chuva que caía incessante e
caindo nos seus pés ensopados.
Veio-lhe a idéia.
Foi até o carro, onde deixara o celular, e ligou para
Vilma.
"Oi, sou eu, Sérgio", falou, em tom casual.
"Oi, Sérgio. Já chegou em casa?",
perguntou Vilma.
"Não, por isso estou te ligando. Tô com
um probleminha aqui..." - "Qual, o que houve?",
perguntou Vilma, mascando algo com
barulho (odeio gente que fala mascando, pensou Sérgio).
"Acabou a gasolina, e estou meio perto da tua casa. Dava
para me dar uma carona?"
Ela disse que sim, ele lhe passou o local e ficou dentro do
carro, que já começava a embaçar.
Começarei minha vingança agora. A solicitude
de Vilma será seu fim.
Sérgio tremia de antecipação. Mal podia
esperar. Agora seria uma questão de minutos...
Aliás, muitos minutos, pois já perdia a noção
do tempo que esperava Vilma no carro. Ligou novamente pro
telefone de Vilma,
que também era celular, e que também estava
"fora da área de cobertura."
Quase esmagando o telefone entre os dedos, não via
outra alternativa a não ser ir até o posto.
Depois do bar do Décio.
Saltou para fora do carro. Fechou a porta e foi correndo até
o posto de gasolina. Que não conseguia ver , mesmo
depois de
passar o bolicho do Décio. Confuso, voltou até
o boteco, onde resolveu entrar. O lugar estava escuro, como
o dia, que já
estava acabando. Ninguém lá dentro "mas
que diabo" pensou, não ousou falar. Foi em direção
do balcão. Percebeu uma
campainha. Soqueou, não tapeou. No mesmo segundo as
luzes se acenderam. Balões caíram, uma música
cortou o silêncio.
Em sua direção, sorridente, vinha o cego, tirando
a máscara e mostrando uma Vilma que ria muito. Sérgio
de boca aberta e
coração também, cerrou os olhos em direção
a ela, quase fechando-os. Ouviu:
"Feliz aniversário amoooooooooor!!!!!!" as
últimas palavras de Vilma em vida.
__________________
Arte e sociedades globalizadas
por Telmo dos Santos Abech
A arte está cada vez mais se distanciando da noção
de vivência personalizada dissociada de função
pragmática, e se
identificando, bem ao contrário, graças à
americanização mundial, com o conceito de espetáculo
mensurável em termos de
números (grandes massas de público, somas vultosas
arrecadadas, dimensão das obras, etc.) e cuja aferição
valorativa está,
portanto, indissociavelmente vinculada a tais aspectos práticos
da cultura do best seller e da ciência de
vender mais.
A repetição de fórmulas, destinadas a
realimentar um público que, por sua vez, realimenta
esse tipo de arte, onde existe como
que um pacto de não chocar, não inovar, manter
a sensação de segurança e comodidade
tão ao gosto de uma sociedade cujo
conservadorismo, embora disfarçado de modernidade,
se aproxima dos fundamentalismos mais exacerbados, faz parte
integrante desse sistema de produtos intelectuais porque,
sem ele, se tornaria impossível realizar com confiabilidade
e eficiência
a meta de produzir lucros que não podem permitir-se
ser simplesmente grandes, significativos, importantes, mas
que têm de
ser necessariamente astronômicos.
A fórmula do sucesso (leia-se do enriquecimento) de
uma sociedade como a americana e, lamentavelmente, daquela
que por
obra e graça da globalização, estão
tentando implantar em todo o mundo, é a mediocridade.
Quanto menos as pessoas
pensarem e se sentirem incomodadas pelo diferente, quanto
mais suas expectativas forem cumpridas, tanto maior o lucro
de
quem lhes proporciona o produto de consumo, seja ele cultural,
seja de necessidade básica, como, por exemplo, alimentar.
Não é à toa que o mais bem sucedido empreendimento
da globalidade, em termos de comida, tenha por proposta oferecer
prosaicass variações em torno da mais básica
e trivial composição de pão e embutidos
que se possa imaginar, vendendo a
idéia da excelência e do privilégio de
desfrutar-se da rapidez e eficiência de sua preparação
e da absoluta igualdade de fórmula
a garantir o mesmo gosto em qualquer lugar, hora e clima,
em qualquer parte do planeta. Mesmo que algum dissidente ousasse
lembrar que o autêntico prazer da comida não
combina com pressa, que nutrição tem muito pouco
a ver com pães guarnecidos
por batatas fritas, maionese, mostarda e catchup, com carnes
embutidas atoladas de conservantes, e sobretudo, que culinária
não tem nada, mas nada mesmo, a ver com encontrar um
gosto esperado e, pior do que tudo, sempre o mesmo, seria
imediatamente lembrado que nada disso, por não ser
rentável, não pertence ao mundo da arte
globalizada
A literatura, o cinema, a música e as demais artes
não poderiam, dentro de uma sociedade com tal ideologia,
apresentar-se
menos medíocres e massificadas, menos informadas por
alguns chavões como os sobre que se falará a
seguir.
O culto da perfeição e o maniqueísmo,
temática recorrente nesse tipo de produções,
reflete uma visão de mundo primária,
diametralmente oposta àquela que se deveria esperar
como fonte e como resultado da arte, essencialmente gerada,
ao longo
da prática da humanidade, na contestação,
na quebra de regras, no mau comportamento: a falta de vontade
de instigar, de
questionar, de revolucionar e, bem ao contrário, a
crença de que a obra estética se acha integrada
num propósito de
promover, a serviço do Bem absoluto, a adesão
de todos à única verdade possível, ao
único certo, dão a essa visão cores
tipicamente totalitárias, características das
religiões e dos regimes políticos mais inflexíveis.
O mito da onipotência, de um poder superior e salvador,
pronto para interferir e resolver a vida das pessoas, que,
assim,
podem manter-se num imobilismo eterno, confiantes na crença
nessa força transcendente, tem relevo fundamental nesse
contexto. Os super-homens dos filmes de ficção,
os militares-heróis dos filmes de guerra, os vencedores
nos filmes de luta, os
pais que sempre triunfam na resolução dos problemas
da vida doméstica, os pobres que transcendem e realizam
o sonho da
conquista do lugar ao sol, os amantes que sempre alcançam
a felicidade definitiva e tantos outros tipos do gênero
são
exemplos por demais conhecidos e que se podem encontrar às
dúzias nos cinemas e na televisão.
A ideologia da globalização desempenha, residindo
na base de toda essa tipologia, um importante papel. Um mundo
que sente,
pensa, fala e se comporta igual é, obviamente, muito
mais acessível para ser dominado por uma mensagem tão
primitiva e
superficial, até porque a suposta igualdade
apregoada pelos entusiastas da globalidade, só pode,
em se tratando de pessoas
originária e essencialmente desiguais, ser, por definição,
algo de superfície, privado de qualquer profundidade.
Banir do
primeiro plano as referências de cada pessoa a seus
próprios valores atávicos, nacionais, familiares,
étnico-culturais é meta
essencial. Ninguém mais resistente a ser conquistado
por essa rasteira fórmula de manipulação
do que a pessoa dotada de
raízes, vale dizer, referenciada às próprias
experiências culturais, realizadas, a seu turno, à
luz do substrato de experiências de
seu próprio meio e grupo social, à história
e aos valores de sua cidade, de seu estado, de seu país,
de sua raça e de seus
antepassados, e só através deles, num momento
logicamente posterior, e mediante a leitura individualizada
e de cor única só
por esse processo permitida, referenciada, enfim, ao patrimônio
cultural da humanidade.
O espetáculo do subdesenvolvimento cultural que a submissão
à sedução globalizadora exibe é
francamente deplorável. Chega
a ser patético ouvir de pessoas razoavelmente informadas
e supostamente formadas declarações
de intolerância, preconceito
e rejeição frente ao que é nacional,
que não julgam sequer digno de ser conhecido pela notória
e antecipadamente sabida
inferioridade diante do que é feito no dito primeiro
mundo, este sim, por definição, autor de tudo
o que é bom para si e para os
demais. É exatamente esse tipo de mentalidade que leva
a que filmes como O Primeiro Dia, Mauá, o próprio
Central do Brasil,
e o cinema europeu de raiz e o asiático, em bloco,
cuja afinidade cultural é sensivelmente maior com a
de nossas manifestações
artísticas, tenham, relegados quase que só a
salas minúsculas e ditas de arte, público
irrisório ou insignificante comparado ao
mais autêntico lixo produzido por Hollywood, que, desde
os intermináveis romancezinhos em que atores e atrizes
conhecidos
são protagonistas da história, vendida de forma
a parecer que a estejam vivendo na vida real, às paranóicas
aventuras em que
os americanos terminam salvando o mundo, aos filmes supostamente
independentes, que nada mais são do que reproduções,
embora por negação, dos chavões dos não-independentes,
floresce por todo o canto e é, cada vez mais, o único
admitido
como digno das grandes salas.
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MANIFESTOMANIFESTOMANIFESTOMANIFESTOMANIFESTOMANIFESTOMANIFESTOMANIFESTO
Consumidores e consumidos
Há uma enorme dissociação entre a opinião,
o pensamento, a convicção das pessoas, enfim,
e a prática que adotam.
Dificilmente alguém, questionado sobre se acha bom
e justo pagar para estacionar seu automóvel num Shopping
Center, como
é o caso, por exemplo, do Praia de Belas e passou a
ser, recentemente, do Iguatemi, responderá afirmativamente.
Também dificilmente, entretanto, se encontrará
alguém que, mesmo discordando radicalmente da medida,
tenha, como eu fiz,
deixado, desde que implantada a cobrança, de freqüentar
esses locais.
É ridículo, ineficiente e primário ficar
protestando, reclamando, falando mal; a despeito de todo o
aparente esclarecimento, o
cidadão comum não aprendeu, até agora,
que sua importância enquanto consumidor só pode
ser tornada efetiva e respeitada
na precisa medida em que, longe de discursos vazios e queixosos
e independente da existência de leis ou normas protetivas,
tomar atitudes simples, mas firmes e eficazes.
Voltemos à questão dos Shoppings.
Algum dos leitores já pensou se, logo após ter
sido anunciada a decisão do Praia de Belas de cobrar,
tivesse havido um
movimento maciço, coeso, integrado inclusive pelos
que não tem ou não usam carro, de boicote ao
shopping?
Já imaginaram um, dois, três dias de lojas, corredores,
praças de alimentação e absolutamente
vazios?
Já imaginaram o estacionamento, tão ciosamente
valorizado pelos administradores, sem qualquer carro em suas
vagas?
Não tenham a menor dúvida de que ao segundo
ou terceiro dia a medida seria espontânea e definitivamente
revogada e de
que simplesmente se imploraria, por todos os meios de comunicação,
o retorno das pessoas ao shopping, cuja administração,
consternada pelo malentendido, se sentiria profundamente
honrada em voltar a oferecer, como outrora, estacionamento
gratuito para todos.
Não tenham dúvida, além do mais, de que,
tivesse isso acontecido, não estaria, agora, o procedimento
a ser implantado no
Iguatemi, trilhando com tranqüilidade um caminho já
desbravado pelo seu congênere.
Mas não. Nada disso ocorreu. O público, ou uma
parte dele, rosnou, protestou, reclamou entre os dentes, retraiu-se
um
pouco no início, mas culminou curvando-se, como ante
algo inevitável, a mais um assalto a seu bolso e abrindo,
como em
outras tantas coisas, caminho seguro para uma infinidade de
novos golpes.
Os que não tinham carro, ou iam a pé até
o shopping, esses pensaram que, como o assunto não
lhes dizia respeito, pouco lhes
importava a cobrança ou não-cobrança,
esquecendo a regra básica de que quando alguém
cala diante da violação do direito
do outro só porque não está imediatamente
atingido abre caminho para que o seu seja violado num futuro,
às vezes bem
próximo, em que já não haja, como na
emblemática história do religioso omisso que
os nazistas vieram buscar por último,
ninguém para defendê-lo.
Provaram as pessoas, com tal atitude, que os mercadologistas,
permanentemente empenhados em à custa delas bolar meios
de, sob as justificativas mais esfarrapadamente corretas,
aumentar os lucros de seus clientes, estão certos em
suas soluções,
pensadas sobre a teoria de como a massa é conformada
e manipulável, como se permite facilmente desrespeitar,
a ponto de
tolerar que se lhe jogue na cara como verdade incontestável
a mentira de que é ela que precisa desesperadamente
dos
estabelecimentos comerciais e, portanto, se quiser freqüentá-los,
terá de pagar por isso, quando a verdade é diametralmente
oposta: as lojas, bares, restaurantes e congêneres,
sem ter clientes, não são nada e podem, em poucos
dias sem vendas, ter
prejuízos tão severos que as levem a quebrar.
Em suma: quem tem o poder é o consumidor e este não
o assume e, bem ao contrário, se deixa vilmente e de
bom grado
ludibriar, reconhecendo como detentor de poder justo quem
o engana.
Por isso, se, ao contrário dos trabalhadores cuja união
ditou, no final do século 19, marcante e radical reversão
das relações
entre patrões e empregados, os consumidores continuarem
curvando-se dessa forma e não praticarem seus direitos,
irão
pagar, merecidamente, cada vez mais por coisas cuja existência
interessa e beneficia exclusivamente quem por elas lhes cobra.
Brevemente, talvez, os supermercados passem, sob alguma compreensibilíssima
razão, também a cobrar pelos espaços
postos, originariamente, à disposição
das pessoas para, pela facilidade de estacionamento, aumentar-lhes
os rendimentos.
Mais do que discursos e teorias, são necessárias
atitudes.
Se você, leitor, leu até aqui e concorda com
esta idéia, aja já; não vá aos
Shoppings em questão e divulgue esta campanha de
boicote junto a seus amigos; a cada adesão conseguida,
você terá realizado a sua parte, ajudando a reverter
uma situação
injusta e talvez, numa ocasião próxima, possamos
todos comemorar uma pequena, mas enormemente significativa,
vitória
contra o sistema.
Unamo-nos já, para que sejamos respeitados como pessoas
e não venhamos a ser consumidos como simples objetos
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
de fácil
manobrabilidade!
Telmo dos Santos Abech
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Staff
-Fábio Luis Emerim
Colaboradores:
-Roberto Moschen Jr.
-Telmo dos Santos Abech
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